Na nova propaganda da Brahma, Ronaldo Nazário afirma que tudo o que conquistou foi com muito suor. Acredito que seja verdade. O que me faz escrever estas linhas, no entanto, é essa necessidade do ser humano (e o brasileiro notoriamente) de vangloriar-se das dificuldades superadas. E de ser aceito, considerado por isso. O cidadão que diz “tudo o que tenho conquistei com muito esforço” torna-se, nessa retórica perturbada, moralmente superior àquele que, como eu, não teve grandes dificuldades em suas conquistas.
Deve ser realmente interessante lutar e vencer, ter se dedicado muito e conquistado, etc. Também eu, em lapsos raros da minha herdada estabilidade, saboreei pequenas vitórias. Imensamente menos freqüentes que os fracassos, mas, admito, jubilosas. A diferença entre este cínico e os batalhadores é a de que não utilizo essas conquistas para justificar minha condição. E mais: a “sociedade” que eles tanto recriminam é quem nos força (nós, os mais favorecidos) a sermos competitivos, batalhadores. Fidalgos como eu, por diversas vezes, nos sentimos culpados, como se a herança de estabilidades (financeira, especialmente) fosse um fardo, um castigo. Honesto seria renegar o patrimônio e começar do zero, como os pobres fazem diariamente.
Fenômeno exemplar ocorre no caso do câncer de Dilma Rousseff. O PT, na sua célebre amoralidade, já começa a tirar proveito político da situação. Acreditam até que o percentual da pré-candidata deve subir nas próximas pesquisas. Por que? Porque o brasileiro, esse bicho incomum, enxerga valores superiores naqueles que enfrentam e superam barreiras na vida. Dilma é inexperiente e ex-comunista armada? É, mas ela venceu um câncer. Fica difícil encontrar uma lógica nisso. Mas é assim que as coisas funcionam: o batalhador se torna superior ao grã-fino preparado, letrado, que cometeu o escandaloso crime de ser sustentado pelo pai.
Por isso admiro tanto Brás Cubas, aquele defunto cínico que considerou, como ponto positivo da vida, nunca ter suado para ganhar seu sustento. Admiro Quincas Borba, o adorável amigo e filósofo maluco que não hesitava em legalizar moralmente as extravagâncias de Brás Cubas. Eu preciso desesperadamente de um Quincas Borba, Brás Cubas indolente que sou. Para me explicar seus tratados, justificar meus erros, consolar minhas angústias com sabedoria, método e loucura. Eu enxeria seus bolsos de dinheiro, seria meu guia exclusivo, e colheríamos então os frutos abundantes da minha fidalguia sem peso algum na consciência.