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Um Brás Cubas sem dotes implora compreensão

In Comentário on Maio 4, 2009 at 1:15 am

Na nova propaganda da Brahma, Ronaldo Nazário afirma que tudo o que conquistou foi com muito suor. Acredito que seja verdade. O que me faz escrever estas linhas, no entanto, é essa necessidade do ser humano (e o brasileiro notoriamente) de vangloriar-se das dificuldades superadas. E de ser aceito, considerado por isso. O cidadão que diz “tudo o que tenho conquistei com muito esforço” torna-se, nessa retórica perturbada, moralmente superior àquele que, como eu, não teve grandes dificuldades em suas conquistas.

Deve ser realmente interessante lutar e vencer, ter se dedicado muito e conquistado, etc. Também eu, em lapsos raros da minha herdada estabilidade, saboreei pequenas vitórias. Imensamente menos freqüentes que os fracassos, mas, admito, jubilosas. A diferença entre este cínico e os batalhadores é a de que não utilizo essas conquistas para justificar minha condição. E mais: a “sociedade” que eles tanto recriminam é quem nos força (nós, os mais favorecidos) a sermos competitivos, batalhadores. Fidalgos como eu, por diversas vezes, nos sentimos culpados, como se a herança de estabilidades (financeira, especialmente) fosse um fardo, um castigo. Honesto seria renegar o patrimônio e começar do zero, como os pobres fazem diariamente.

Fenômeno exemplar ocorre no caso do câncer de Dilma Rousseff. O PT, na sua célebre amoralidade, já começa a tirar proveito político da situação. Acreditam até que o percentual da pré-candidata deve subir nas próximas pesquisas. Por que? Porque o brasileiro, esse bicho incomum, enxerga valores superiores naqueles que enfrentam e superam barreiras na vida. Dilma é inexperiente e ex-comunista armada? É, mas ela venceu um câncer. Fica difícil encontrar uma lógica nisso. Mas é assim que as coisas funcionam: o batalhador se torna superior ao grã-fino preparado, letrado, que cometeu o escandaloso crime de ser sustentado pelo pai.

Por isso admiro tanto Brás Cubas, aquele defunto cínico que considerou, como ponto positivo da vida, nunca ter suado para ganhar seu sustento. Admiro Quincas Borba, o adorável amigo e filósofo maluco que não hesitava em legalizar moralmente as extravagâncias de Brás Cubas. Eu preciso desesperadamente de um Quincas Borba, Brás Cubas indolente que sou. Para me explicar seus tratados, justificar meus erros, consolar minhas angústias com sabedoria, método e loucura. Eu enxeria seus bolsos de dinheiro, seria meu guia exclusivo, e colheríamos então os frutos abundantes da minha fidalguia sem peso algum na consciência.

Pobre Paraguai

In Comentário on Abril 28, 2009 at 10:33 pm

Quando o novo presidente do Paraguai foi eleito, muito se comemorou a queda do partido que dominou o país por mais de meio século. Parecia uma luz que começava a brilhar: será que enfim o Paraguai sairia das trevas e rumaria ao desenvolvimento? Claro que apenas os incautos acreditaram nisso: as origens de Fernando Lugo e suas promessas de campanha já indicavam o pior. E agora, para escândalo da nação, três mulheres vieram a público informar que o presidente é pai de seus filhos. Um dos bastardos ele já assumiu, e o do caso mais grave: o que foi concebido enquanto Lugo ainda era bispo. Como confiar em alguém que copulou de batina?

 

Lugo foi eleito sustentando duas bandeiras: a revisão do contrato de Itaipu, o qual considera injusto (o Brasil estaria pagando muito pouco ao Paraguai) e a expulsão dos agricultores brasileiros das terras fronteiriças. A primeira questão é diplomática e de fácil resolução. E a perspectiva paraguaia é boa, conhecendo o perfil do Itamaraty, facilmente ludibriado, facilmente colocado em posição favorável ao querelante, especialmente quando a disputa é travada com um companheiro de ideologia.

 

Já a segunda é escandalosamente ilegal. Digna de intervenção militar. Intervenção do exercito brasileiro, já que cidadãos brasileiros são ameaçados no país vizinho. Os agricultores tupiniquins, responsáveis por boa parte da parca riqueza do país, são tratados como inimigos da nação, latifundiários gananciosos, algozes dos sem-terra paraguaios. Famílias há décadas estabelecidas no Paraguai correm o risco de perder tudo. O Itamaraty, ajoelhado, não faz nada.

 

O Brasil tem uma parcela de culpa pela miséria do vizinho: manter aberta a ponte da amizade, em Foz do Iguaçu. O local exige intervenção militar e ações políticas que acabem com o tráfico, a falsificação, a sonegação e os demais e diversos crimes que lá acontecem. É um antro de ilegalidade ignorado há décadas pelos dois países.

 

Poderia, assim, discorrer sobre a lastimável situação atual do Paraguai. Mas… atual? Desde sempre os vizinhos enfrentam um destino miserável. Quem afirma que o Paraguai pré-guerra do Paraguai era uma cornucópia mente. Era uma ditadura que, vá lá, foi cruelmente abolida. Desde então, o Paraguai consolidou-se como o mais miserável dos vizinhos, e então sinônimo de corrupção, picaretagem e falsificação. A guerra do Paraguai serve como excelente desculpa: era um país promissor, era o primeiro mundo na América do Sul. Mas a ganância imperialista temia essa potência emergente. Assim, os impérios acionaram seus acólitos para destruir o Paraguai. E por isso o país é hoje miserável.

 

E assim justifica-se a própria miséria e a história vergonhosa da maneira mais fácil: culpando terceiros. O Paraguai é digno de pena. Fernando Lugo, que acreditavam ser o redentor, apenas corrobora para a manutenção do estereótipo paraguaio.

 

Vícios, caras novas e um lunático

In Comentário on Março 31, 2009 at 11:34 pm

Fumante brasileiro: devido à nova medida de incentivo à economia, você deverá pagar mais caro pelo cigarro que fuma. Com o corte do IPI dos materiais de construção, sobrou para o fumo. De algum lugar o governo precisa arrecadar. Não é a primeira vez que os fumantes pagam a conta. E não reclamam, culpados pelo vício e acuados pela opinião pública, de maioria não-fumante.

 

A desculpa do governo é absurdamente paradoxal: vamos aumentar a taxação do cigarro para que as pessoas fumem menos. Opa! Se as pessoas pararem de fumar, o governo não vai arrecadar o que pretende. Claro, eles sabem que ninguém vai parar de fumar por causa do aumento. Como sempre, os fumantes que sentem o reajuste migram para marcas mais baratas ou, pior, para o contrabando de cigarro paraguaio. A desculpa da questão de saúde pública não resiste à lógica.

 

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Há alguns dias dormi mal de novo. No Bom Dia Brasil, acompanhei a entrevista da ministra e já candidata à sucessão presidencial, Dilma Roussef. Falou banalidades, defendendo a construção de um milhão de casas populares prometidas pelo governo. Aquelas que o Lula disse: Farei, mas não me cobrem prazos! É o que eu falo a minha mãe: casarei, mas não me pergunte quando!

 

Tem gente que gosta de caras novas na política. Dilma é uma cara nova. Não uma pessoa nova na política, só a cara: está bastante modificada pelas intervenções plásticas. Nada contra, a cara é dela. Mas perdeu as expressões, as nuances que observamos no comportamento do rosto humano. Dilma arregala o olho, engrossa a voz, mas só fala bobagens. Esbanja uma confiança inexistente.

 

Porém, essa atitude parece intimidar alguns. Alexandre Garcia, sempre contundente, parecia pequeno diante da ministra. Não foi questionada, apenas discursou. Garcia até consentiu com algo que ela falou sobre a oposição. Estava à vontade, como nos palanques de inauguração de terraplanagens e estradas de terra. O que acontece antes, eu casar ou Lula erguer um milhão de casas? Se for um milhão de casas que respeitem um urbanismo básico, eu caso antes. 

 

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Escandalosa a prisão preventiva da proprietária da Daslu, Eliana Tranchesi. Ela foi condenada a 94 anos de prisão devido a esquemas de sonegação de impostos. Simplificando: peças importadas por 150 dólares declaradas a 20. É um crime, merece punição, multa, aquele susto. Mas, para efeito de comparação: o traficante Marcola, aquele bandido metido a intelectual, cumpre pena de 30 e poucos anos de prisão.

 

Não vou criticar aqui a severidade da pena. Isso é questão para juristas: repensar as punições de acordo com a gravidade do crime. O que eu posso comentar é a evidente caça aos ricos que acontece no país. Essa batalha ideologia aparelhou a justiça: como exemplo, o juiz Fausto de Sanctis e o delegado Protógenes Queiros, este um lunático. Querem fazer justiça social a todo custo. Querem resolver, atropelando os métodos legais, aquilo que ouvimos desde sempre: no Brasil, rico não é preso.

Eliana conseguiu um hábeas corpus. Por sorte é minoria quem usa artifícios legais para promover essa espécie de justiça social.