O cachorro da Joana

23 jan

Ícaro dos pés rachados

8 jun

A cada voo, a mesma e primordial emoção. Você pensa e até ouve de terceiros: voar acostuma! E o pior é perceber esses senhores dormindo em plena decolagem! Ignoram o momento em que o homem, mais de uma centena de homens, decidem ir contra sua condição histórica e retirar os pés do chão. Eu, por outro lado, acompanho atento: embalou o suficiente para subir? As casas, prédios e morros já estão distantes ou ainda são barreiras a eventual fraqueza do motor? Quanto tempo, Senhor, até estabilizar e a aeromoça trazer meu miserável lanche? Conceda-me um sorriso?

Eu não acostumo. Eu não gosto de altura, prefiro o rés-do-chão. Prefiro a sujeira, os ratos e as imortais baratinhas. Relevo nuvens e o firmamento: são demais para mim, não admiro essas coisas que ficam além da compreensão. Prefiro os perigos do solo, da estrada e suas curvas, dos rios, da chuva fria, da negra deitada na relva do potreiro. Prefiro as picuinhas da carne, as intrigas, as maledicências de quem está aqui, com uma pedra sempre ao alcance da mão.

Mas vai, Ícaro dos pés rachados. Feche os olhos. Pense na vida. Lembre que, haja o que houver, em alguns minutos tudo estará acabado. E até (ou se) recomeçar, você tem alguns dias de pés sujos no chão. Dias não menos assustadores. Mas tudo bem, desde que estejamos aqui, sentados, deitados, de cócoras, de qualquer jeito. Com terra debaixo das unhas. Nossa querida terra.

Exercitando compaixão

8 jun

Apesar do quarto novo e aconchegante, uma aranha foi preservada pela camareira relapsa. Imóvel à espreita, na quina sobre a porta do banheiro.

Hoje acordei e ao sair da cama quase pisei numa espécie estranha de inseto. Uma formiga com asas duras, do tamanho de uma mosca, ou um pouco maior. Nesse instante senti algo que sinto sempre que percebo uma aranha em sua teia: a vontade de servi-la.

Lancei a formiga-mosca e, na segunda tentativa, ela ficou presa nas teias. Imediatamente a aranha começou a envolvê-la numa espécie de casulo, do qual ela (a formiga-mosca) lutava incansavelmente para escapar. Acompanhei a disputa por alguns minutos, e como vi que a aranha em breve venceria, voltei para a cama.

Rolei por meia hora mas não dormi. Pensava em muita coisa, como de costume, mas em nenhum momento lembrei da disputa na teia, que fica num canto do quarto que não é visível da cama. Resignado, levantei, fui até o banheiro e olhei para cima: pasme, a formiga-mosca conseguiu escapar. Olhei para o chão e ela se arrastava, com um pedaço de teia preso em uma das patas. Compadecido, arranjei dois pequenos objetos e livrei-a das teias. Fiz com que ela subisse em um dos objetos, abri a janela e deixei que ela descesse. Lentamente, esmorecida, desapareceu.

*

Alguns minutos depois, no banho: pela pequena janela, vejo um morro, divido por uma cerca. Hoje, dois animais descansam sob uma arvore grande. Mas tanto hoje como também durante o banho de ontem, dois animais (parecem burros, jegues, mulas, dificilmente cavalos) ficam próximos, sob o sol das 11 horas. Detalhe: um de cada lado da cerca. Ambos fazendo um movimento circular com o rabo, sem parar. Parece piegas, mesquinho, mas é a cena mais comovente que presencio em dias, talvez meses. Mais do que uma velha negra que vi há alguns dias: ela pescava onde o esgoto desembocava em um rio, em alguma cidade medonha do interior do Rio de Janeiro. Pois é, me sinto muito mais tocado pelo amor impossível dos eqüinos.

Creio que este relato perdeu seu rumo previsto. Desconfio também que este escriba não tenha um rumo definido. E por falar em rumos, Horácio, referindo-se às navegações, disse que o homem pode mudar de céus, mas não muda de espírito. É bem verdade. Mas creio que ele escreveu isso no aconchego do lar, e não no semi-aconchego de um hotel, onde moram aranhas e formigas-moscas. O espírito não muda, mas o aforismo ignora a avassaladora influência da distância e da saudade.  

Alegre, ES.

O primeiro 3D

12 mar

Acho necessário traçar um paralelo entre a injustiça cometida contra o filme Avatar no Oscar 2010 e um sério mal dos nossos tempos: o “coitadismo”, a preferência cega pelo mais fraco, o supostamente desfavorecido. E até a academia se rendeu. Segue uma questão aparentemente isolada que resume o problema: por que premiar um colosso de 300, 400, 500 milhões de dólares, se um filme melhor foi feito com 10, 11 milhões?

Analisada superficialmente, a idéia até soa pertinente. Prova-se que não é necessário tanto dinheiro para produzir bons filmes. Nessa lógica, Guerra ao Terror venceu porque é uma história melhor, um filme redondinho, feito com orçamento modesto para os padrões de Hollywood. E assim os imbecis urram: a criatividade venceu o dinheiro da superprodução.

Esquecem que Avatar habitou a mente do diretor James Cameron por mais de uma década. Ele teve que inventar uma câmera mais leve para a tecnologia 3D acompanhar seqüencias de ação, caso contrário Avatar não sairia das idéias – ou, pelo menos, não da maneira que Cameron vislumbrou. Outro argumento falacioso: com tanto dinheiro fica fácil fazer um grande filme. Jura? E para levantar essa grana e depois investir tudo no imensurável da mente?

O ator e comentarista de cinema José Wilker falou, na transmissão da rede Globo, que o Oscar 2010 seria um divisor de águas para a indústria cinematográfica: caso Avatar ganhasse, os novos rumos seriam as superproduções, quem sabe sempre em 3D, a nova tendência. Caso contrário (e o contrário aconteceu) o cinema voltaria suas preocupações para bons roteiros, grandes atuações, histórias envolventes, etc.

Acho exagerada a preocupação de Wilker. Há lugar para todos em Hollywood (menos pra você). O sucesso dos blockbusters não depende da premiação da academia. Seu reconhecimento e sobrevivência dependem exclusivamente das bilheterias. O problema aqui levantado é não considerar a experiência deslumbrante que se tem ao se assistir Avatar em 3D. É ignorar todo o minucioso processo que o filme envolveu. É sapatear sobre o conceito de meritocracia, que deveria ser valor fundamental no Oscar.

Vejo nessa injustiça um duro golpe no pioneirismo, confundido com cinema de massa, com indústria cultural (ai, que enjoo). Resumo: a academia de cinema, ao invés de fugir do convencional ignorando Avatar, retrocede na análise dos méritos.

Concluo: ano passado tivemos excelentes filmes premiados. Esse ano tivemos um ótimo filme premiado. Ano que vem teremos outros. Mas um Avatar, ao mesmo tempo inocente e deslumbrante em 3D, nunca mais. Porque o primeiro 3D a gente nunca esquece(rá).

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Evo quer seu chimarrão

3 mar

Na Bolívia, o saudosista Evo Morales incentiva o plantio de coca, matéria prima da cocaína. Para o presidente boliviano, descendente de índios, mascar folha de coca é um costume herdado dos antepassados, e ele quer mantê-lo. É o folclore, estúpido, que precisa ser preservado. O mundo é contra porque sofre a conseqüência do tráfico, tanto na segurança como na saúde pública. Enquanto Evo finge mascar coca, a cocaína vinda da Bolívia que não é cheirada no Brasil é encaminhada, do Brasil, para o resto do mundo. Trata-se apenas de um efeito colateral da sobrevivência da cultura indígena boliviana. Afinal, que culpa tem Evo se o uso da planta medicinal é deturpado pelos traficantes?

A ditadura bolivariana é o exemplo extremo, mas interessante para demonstrar a falácia que é a preservação da cultura indígena. A humanidade evoluiu, inventou a roupa, o dinheiro, os remédios, a qualidade de vida. Mas desde o ensino fundamental aprendemos que o homem branco foi lá e estuprou os índios e deturpou sua cultura. Aprendemos a odiar os missionários, que queriam impor o pensamento cristão e a postura ocidental aos selvagens. Até carregamos uma culpa ancestral por sermos descendentes daqueles brancos exploradores. Mas os eventuais erros do passado não deveriam deixar essa suposta “dívida histórica” pautar as decisões e reparações do presente.

Hoje os índios (especialmente as entidades que os representam) exigem inclusão social, porém com a manutenção da cultura indígena. Mesmo essa cultura se tratando do ridículo estereótipo composto por penas de galinha e pinturas no rosto. Nenhum mais está pelado. Todos falam português, bem ou mal. Creio que todos prefiram banheiro e água quente à moita; luz elétrica à fogueira; boate à dança da chuva; mulheres aos bichos de tetas moles dos quais se serviam para procriar.

Mas a culpa nos faz querer preservar esses exóticos de bermuda. E assim, lugar de índio é em reserva florestal, explorando de maneira atabalhoada os recursos naturais. Mas índio quer evoluir, pois tem as ambições naturais do ser humano. Veja o que acontece com índios ressentidos como Evo Morales. E faz tempo que conhecemos a solução: catequese e cruzamento genético com o homem branco. Ou preto, amarelo, mestiço, qualquer um civilizado.

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