perudefora

Archive for Março 2007

Cinco pra Uma

In Ficcional on Março 28, 2007 at 11:54 am

Sentado naquela cama de motel enquanto ela estava no banheiro, olhou para o relógio e lembrou do pai. Viu que era meia-noite e meia. Ansioso pela primeira noite com a nova namorada, conferiu as camisinhas no bolso e abriu uma bala, não se sabe para refrescar o hálito ou disfarçar o nervosismo. Ela era linda! À pergunta  sobre a demora, Wandinho respondeu que não estava incomodado. Ela, por sua vez, disse que a paciência dele seria muito bem recompensada.

 

Voltou a olhar no relógio e viu a si mesmo, com treze anos, naquela conversa que jamais esquecera. Tomou o relógio das outras mãos e com a ponta de uma faca fez mais um buraco na pulseira, para que pudesse afivelá-la em seu braço magrelo. Também guardou umas poucas palavras “Não se meta com mulher quinze para as três. Só com aquelas cinco pra uma”. Quase dez anos passados daquela tarde, esta frase ainda era um enigma. Nem mesmo antes de partir, o pai revelou seu segredo. Apenas sorriu pelo canto da boca e se entregou à cirrose.

 

Despertou-se de seus devaneios ao barulho um trinco de porta. Um Jamie Cullum ao fundo e ela caminha na sua direção, vestida em uma camisola de seda. O movimento lateral dos quadris acompanha a música, balançando o decote. Ele apenas confere novamente as camisinhas e quanto tempo ela levou para conseguir ficar ainda mais linda: vinte minutos. Aceita o convite para a dança. Aos beijos, ela vai desabotoando sua camisa, a calça e vira-se de costas para que ele possa deslizar a alça da camisola sobre seus ombros, que escorre pelas costas e hesita um pouco logo abaixo, mas é vencida pela gravidade. Ele namora o cabelo pelas costas e pára observando a calcinha. Esboça, de repente, o mesmo último sorriso de seu pai e com o indicador e polegar coça levemente os olhos. Já sem segurar o riso explosivo, negando qualquer explicação, pediu que ela se vestisse de volta e partiram.

Mais tarde, consigo mesmo, ainda esboçava alegria ao lembrar da explicação do fim do namoro: te acho muito grandinha pra usar fralda. Desse dia em diante passou a reparar em todos os andares pela rua, à procura da marca perfeita, fazendo jus ao seu batizado. Nosso Wandinho só escolhia as “cinco pra uma”.

Denner

A Cor do Ciúme

In Ficcional, Lucas on Março 21, 2007 at 10:40 pm

João sempre foi um rapaz de respeito. Durante o namoro, Maria rezava para que ele decidisse avançar as mãos sob o vestido. Mas do joelho não passava, alegando indecência. Casaria com uma moça pura, e a hora e o local seria a noite de núpcias, na fazenda do tio rico.

 

Maria esperou, já que João era homem honesto e trabalhador. No casamento, muita festa. Durante o churrasco, no pavilhão da igreja, Maria cumprimentava um primo quando foi abordada pelo marido. Agora você é moça casada ele disse, não pode mais andar faceira entre os machos. Ela insistiu que estava apenas conversando. Como resposta, violento beliscão no bracinho. Seria o primeiro de muitos hematomas. A cor do ciúme era rocha.

Na lua de mel, a ansiedade da noiva: doeu bastante, mais do que a irmã advertira. Assim que cumpriu a obrigação, João começou a insultá-la de mulher infiel. Maria lhe mostrava a prova, era imaculada, que visse o rubro lençol. João lembrava cenas antigas, um cumprimento de algum rapaz e a insistência da moça em adiantar a cama ao casamento. Cansado de discutir, João dormiu, enquanto Maria chorava baixinho, abafando o soluço no travesseiro.

De volta à cidade, o casamento mostrou-se o inferno para Maria. João cada dia mais ciumento. Chamou a esposa de cadela ao vê-la com os cotovelos escorados na janela, olhando a rua deserta. Não podia usar saia curta. Nem se desobedecesse, pois as coxas branquinhas malhadas de hematomas, tanto beliscão que levava. Se quisesse passear no centro, tinha que ir acompanhada da cunhada, pequena porém grande fofoqueira. João voltava mais cedo do serviço, as vezes saía à rua, contornava a quadra e voltava de surpresa, temendo encontrar a esposa nos braços do amante.

Certo dia João apareceu em casa com um carro vermelho, quatro portas. Cansado de ajudar o pai na firma, seria agora taxista. Gabava-se conhecer como ninguém a cidade. O ciúme não seria problema: instalou a esposa no banco do carona. Ao se aproximar um cliente, empurrava a cabeça da mulher para baixo, afim de que a pessoa não procurasse outro táxi. Ao entrar, tranqüilizava o cliente: que o amigo não reparasse, estava levando a mulher de carona até a casa da sogra. Ficasse a vontade no banco traseiro. Tocar para onde? 

Lucas