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A Cor do Ciúme

In Ficcional, Lucas on Março 21, 2007 at 10:40 pm

João sempre foi um rapaz de respeito. Durante o namoro, Maria rezava para que ele decidisse avançar as mãos sob o vestido. Mas do joelho não passava, alegando indecência. Casaria com uma moça pura, e a hora e o local seria a noite de núpcias, na fazenda do tio rico.

 

Maria esperou, já que João era homem honesto e trabalhador. No casamento, muita festa. Durante o churrasco, no pavilhão da igreja, Maria cumprimentava um primo quando foi abordada pelo marido. Agora você é moça casada ele disse, não pode mais andar faceira entre os machos. Ela insistiu que estava apenas conversando. Como resposta, violento beliscão no bracinho. Seria o primeiro de muitos hematomas. A cor do ciúme era rocha.

Na lua de mel, a ansiedade da noiva: doeu bastante, mais do que a irmã advertira. Assim que cumpriu a obrigação, João começou a insultá-la de mulher infiel. Maria lhe mostrava a prova, era imaculada, que visse o rubro lençol. João lembrava cenas antigas, um cumprimento de algum rapaz e a insistência da moça em adiantar a cama ao casamento. Cansado de discutir, João dormiu, enquanto Maria chorava baixinho, abafando o soluço no travesseiro.

De volta à cidade, o casamento mostrou-se o inferno para Maria. João cada dia mais ciumento. Chamou a esposa de cadela ao vê-la com os cotovelos escorados na janela, olhando a rua deserta. Não podia usar saia curta. Nem se desobedecesse, pois as coxas branquinhas malhadas de hematomas, tanto beliscão que levava. Se quisesse passear no centro, tinha que ir acompanhada da cunhada, pequena porém grande fofoqueira. João voltava mais cedo do serviço, as vezes saía à rua, contornava a quadra e voltava de surpresa, temendo encontrar a esposa nos braços do amante.

Certo dia João apareceu em casa com um carro vermelho, quatro portas. Cansado de ajudar o pai na firma, seria agora taxista. Gabava-se conhecer como ninguém a cidade. O ciúme não seria problema: instalou a esposa no banco do carona. Ao se aproximar um cliente, empurrava a cabeça da mulher para baixo, afim de que a pessoa não procurasse outro táxi. Ao entrar, tranqüilizava o cliente: que o amigo não reparasse, estava levando a mulher de carona até a casa da sogra. Ficasse a vontade no banco traseiro. Tocar para onde? 

Lucas