O tempo passa, meus amigos. A angústia aumenta de acordo com o contar dos anos. Acordamos dos sonhos: abrimos os olhos, já é quase meio dia. Mais doze horas se revelarão meras utopias. Somos crianças ainda e melhor seria não ter sonhado: assim estaríamos livres, o que tivesse vindo seria lucro. Você já mediu seu grau de frustração hoje?
Relembre a infância e a adolescência. Pense mais adiante e busque as reminiscências que esclarecem as antigas previsões: você calculou mal o seu futuro. Você queria, mas querer não é garantia de poder, alguém já disse. Na sua inocência, você foi um grande picareta prevendo o que aconteceria hoje. Você era um Walter Mercado, uma mãe Diná. Minto, você nem se compara a esses trambiqueiros; um ganhou dinheiro, outro viu numa bola de vidro algo sobre o fim dos Mamonas. E você, adivinhou o futuro, atual presente? Claro que não. Fomos todos picaretas nesse quesito.
Mas lá pelos 18 anos eu comecei a prever o porvir, irmãos. Eu sentia que a ambição e o orgulho aumentariam o tamanho do tombo. Assim que a realidade chegasse e me acordasse com sua luz, eu seria derrubado. E o que eu fiz? Tentei reprimir ao máximo todos os meus objetivos. Adotei uma postura pessimista em quase todos os dias desde então. Poucas vezes caí na breve tentação do entusiasmo.
Assim, o tombo foi um leve tropeço: não realizar, não conseguir, tudo estava previsto. Hoje, como previsto, não sou nada. Poucas vitórias aconteceram. Se mais algumas acontecerem? O que vier é lucro, minha gente!
Segue uma pérola do gigante Manuel Bandeira:
Chora de manso e no íntimo… Procura
Curtir sem queixa o mal que te crucia:
O mundo é sem piedade e até riria
Da tua inconsolável amargura.
Só a dor enobrece e é grande e é pura.
Aprende a amá-la que a amarás um dia.
Então ela será tua alegria,
E será, ela só, tua ventura…
A vida é vã como a sombra que passa…
Sofre sereno e de alma sobranceira,
Sem um grito sequer, tua desgraça.
Encerra em ti tua tristeza inteira.
E pede humildemente a Deus que a faça
Tua doce e constante companheira…