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Archive for Dezembro 2007

Saudades do Vampiro

In Ficcional, Lucas on Dezembro 30, 2007 at 12:45 pm

Sabe aquela mulher das antigas, que você relembra num momento qualquer? Foi algo que você viu, ou algo que você comeu – nada explica de onde vem a reminiscência suave que trai a memória.

Alguém que você não vê há um bom tempo e, de repente, é presença viva. Da para sentir, quase tocar. Só é preciso um exercício de memória para voltar no tempo. E o inconsciente, injusto ou não, só nos tráz as belas recordações. As feias, tristes, secretas, essas são descartadas, inibidas. Não é por acaso que o tempo é o remédio para as mazelas do coração – a memória é que trabalha de acordo com o relógio. Passam as horas, os dias e nos casos mais graves passam os anos. Até você esquecer toda a tragédia e estar disposto a voltar, sem ressentimentos.

*** 

Hoje lembrei de Dalton Trevisan, minha bíblia das antigas. Li e reli a sua dúzia de obras-primas à exaustão. Tentava captar por osmose o estilo perfeito. Mas quem diria que a grande dádiva concedida pela obra do Vampiro afetaria os sentimentos, jamais a redação amadora. O texto do prematuro escriba permanecia frágil, mas suas noites de insônia, porém, tornavam-se habitadas por João, Maria e outros tantos homônimos e anônimos, a mais bela permutação que resulta em infinitas combinações de seres humanos iguais. E tão diferentes. 

Enfim, hoje recordei esse tempo. A sensação semelhante à lembrança repentina da antiga amante encontrou a analogia em Dalton: na cama, sem sono, segurando o livro, ou abraçando a amante, os olhos fixos na curvinha da nuca ou nas frases que expressam o coração, a luz ligada madrugada adentro ou a penumbra do quarto e a respiração serena da mulher. A companhia que facilita o sono do último insone de Curitiba: 

— Nunca mais seria a mesma. Chamaria você de nuvem, anjo, estrela.  O que alguém jamais disse a ninguém. Sabe, Maria?

 — …

— Você é a redonda lua verde do olho amarelo…

— Nossa, doutor.

…que, aos cinco anos, desenhei na capa do meu caderno escolar.

Natal sangrento nas rodovias federais

In Comentário, Lucas on Dezembro 27, 2007 at 4:49 pm

Primeiramente vamos aos números. São assustadores, mas tente seguir o já batido raciocínio na seqüência:

A Polícia Rodoviária Federal apresentou nesta quarta-feira relatório final sobre acidentes nas estradas sob sua jurisdição durante o feriado de Natal. De acordo com o balanço, 196 pessoas morreram entre a 0h da sexta-feira e a meia-noite desta terça nos 61.000 km de rodovias federais. Dessa forma, o Natal assumiu a posição de feriado com maior número de vítimas fatais de 2007 – superando inclusive o Carnaval, tradicionalmente violento, que registrou 145 óbitos.

Em relação ao mesmo feriado do ano passado, o Natal de 2007 também mostrou-se mais letal. Em 2006, foram registradas 90 mortes nas rodovias federais, o que representa um aumento de 117% no número de óbitos. 

A análise fria dos números nos leva a diversas hipóteses: as pessoas estão bebendo mais no Natal? As pessoas beberam menos no carnaval de 2007? Claro que são conclusões absurdas. É até um certo humor negro que não cabe diante de quase duas centenas de mortes. O acidente da TAM em Congonhas, com o mesmo número de vítimas, foi destaque mundial. Essa carnificina ocorrida no Natal até foi divulgada, porém com o enfoque errado: colocando a culpa no motorista. Veja a seqüência da matéria do site Veja.com: 

A polícia atribui o aumento no número de acidentes e mortes ao aquecimento da economia, o que teria elevado em cerca de 30% o volume de carros nas estradas. Contribuiria também a crise aérea, afastando passageiros dos terminais brasileiros, fazendo com que as estradas se tornassem a opção preferencial.

Imprudência – Porém, os registros da PRF apontam a imprudência ao volante como principal motivo para a ocorrência de acidentes. De acordo com levantamentos internos, 80,75% dos acidentes acontecem em trechos de pista com boas condições; 71,4% nas retas; 53,6% em plena luz do dia e com tempo bom (63%). A falta de atenção é o item mais alegado pelos condutores que se envolvem em acidentes (33,3%).   

A imprudência sempre existirá. Medidas como controle de velocidade até inibem os abusos. Mas jamais evitarão as colisões frontais, principal causa (quase única) das mortes no trânsito. É escandalosa a necessidade de motoristas se cruzarem, em sentidos opostos em alta velocidade, a um, dois metros de distância. A falha humana, geralmente aliada a outros fatores (pista, tempo, álcool) continuará matando gente à revelia.  

Chega a desanimar ser tão repetitivo: é urgente privatizar rodovias e duplicar todas as vias de tráfego intenso. O governo alega falta de recursos, e é verdade. Pois então ceda logo à iniciativa privada o controle das pistas. Que se cobre uma margem de lucro justa nos pedágios, mas dupliquem as estradas. As mortes em colisões frontais voltariam a ser manchete, motivo de espanto, causa de novas obras de melhoria. Hoje, do jeito que andamos, apenas contabilizam estatísticas que não param de aumentar. Aposto uma cerveja que o Carnaval 2008 supera os mortos do Natal 2007. Isso se o feriado do reveillon não surpreender (?) e assumir a pole.  

*** 

Como de costume, esse espaço presta especial atenção à abordagem da imprensa. É sempre a mesma história: é culpa do álcool, da imprudência. Claro que é, e sempre será. O motorista utiliza a estrada como pode: alguns se arriscam e acontecem as tragédias. E a imprensa ouve a polícia e o governo e publica suas conclusões: “a maior parte dos acidentes ocorre devido a imprudência”. Seria demais buscar outro enfoque? Por exemplo: quantos acidentes seriam evitados se a pista em questão fosse duplicada, com canteiro central separando os sentidos opostos? Aposto outra que o número superaria os 90%.

Chega de campanhas de conscientização. O fator humano é irreparável: temos a tendência ao erro, além dos péssimos motoristas e dos pilotos de corrida frustrados que habitam as BRs. Só mudaremos as estatisticas quando existir a consciência de que o grande problema é a pista, não o homem. Mas enquanto isso, motorista apressado, a culpa é só sua. Shame on you!  

Mais uma vez no oeste

In Ficcional, Lucas on Dezembro 26, 2007 at 10:16 pm

São Miguel do Oeste, terra do marasmo e da tragédia

Que caminha com facilidade entre os opostos da vida

O sol que vira lua e a noite que vira dia

Longos dias de quietude

Tristes noites de desespero e ilusão

Na escuridão de um coração partido.

São Miguel do Oeste, que abriga a última virgem

Porém já desquitada e mãe de cinco (e não são os quíntuplos)

Terra do horizonte vermelho ao anoitecer

Que anuncia um próximo dia de sol e… marasmo!

Considerado por todos “tempo bom”, mas…

Mas o que de fato todos anseiam é a chuva que aponta no sul

Que escurece o céu e esconde da luz do dia nossa feiúra

E lava a imundície das ruas

E se mistura às lágrimas de um choro que o sol insiste em reprimir

Disfarçando o que sentimos

Para que o vizinho não perceba

Para que a vida passe como um belo dia ensolarado

Até termos assunto para a inédita fofoca:

sobre uma noite escura de aguardadas tragédias.  

Que

In Comentário, Lucas on Dezembro 25, 2007 at 1:31 pm

Que tempo estanho o Natal. Somos felicitados em casa e nas ruas, talvez pelo costume, ou pela nossa parte religiosa inerente e intrínseca. Mas vá lá, até que um cumprimento de “Feliz Natal” soa amistoso, demonstra estima ou carinho. O que incomoda nessa época são os comuns desejos de diversas realizações para o próximo ano.

Perceba aquelas frases: “Que em 2008…” ou “Que neste Natal…”. Qual a função gramatical desse “que”? Usamos sem saber. Mas ele representa algo como uma vontade, um desejo do interlocutor, do parente, do amigo. Reparo no uso abusivo desse “que” que (com o perdão da cacofonia deliberada) se tornou um clichê natalino. Até o semi-analfabeto transmite os votos de felicidades através do “que” no começo da frase.

Então espere lá. Se qualquer um reconhece nesse “que” a maneira de desejar felicidades ao próximo, seria essa ferramenta realmente passível de crítica? Creio que o uso desse “que” não deva ser execrado. Deve-se combater o que de costume vem depois dele: esses desejos vãos de felicidade, paz e amor.

Portanto, que se especifiquem os sentimentos. Que sejamos mais honestos com o que sentimos, detalhando emoções, provocando emoções que são impossíveis de se alcançar com os atuais cartões de Natal. Que se banalize o uso do “que” no início da frase, mas não se banalize a mensagem, escondida e até inexistente em lugares-comuns dos finais de ano.        

Ode ao Pé-de-porco

In Comentário, Lucas on Dezembro 11, 2007 at 1:50 pm

Houve um tempo em que este escrevinhador era crítico contumaz da truculência policial. Resultado de casos isolados e também de uma certa educação. Sim, eu também já fui vítima da ideologia vigente que, entre outros disparates, afaga o bandido e condena o paladino da lei.

Tudo bem, a corrupção na polícia é crônica. Mas isso não pode ser motivo para perder a confiança. Infelizmente nosso país chegou a um ponto em que ações sociais não são suficientes para combater o crime. É preciso repressão, cacete, cadeia. Todos devem temer a polícia: a certeza de constante vigilância é a melhor prevenção contra o contraventor.

Portanto, resta apenas o fato: a solução para a criminalidade, no estágio em que o Brasil chegou, é a polícia. Temos problemas na corporação? Sim, e vários: má-formação, baixos salários, pequeno efetivo e a conseqüente corrupção de boa parte da tropa. Mas apesar de tudo, é fundamental confiar. É preciso relevar eventual truculência: a força repressora é a nossa última esperança. Não duvidem: estamos em guerra contra a criminalidade. Bem ou mal, fiquemos do lado da lei.     

Ainda sobre professores

In Comentário, Lucas on Dezembro 6, 2007 at 7:59 am

Pautei o Bom Dia Brasil de hoje. Meu post de ontem, sobre o fiasco da Educação no Brasil, rendeu uma boa matéria no jornal desta manhã. Diferimos um pouco no enfoque: a Globo entrevistou pessoas que criticam a falta de professores, seus baixos salários e até o desinteresse dos alunos. O único que falou bonito foi o âncora Renato Machado, ao final da matéria. Algo assim: é preciso melhorar a formação dos professores. Bingo!

Chegamos ao absurdo de culpar os alunos pela baixa qualidade do ensino. Alguém bem disse na matéria: eles são apenas as vítimas. Claro que existe a indisciplina, a falta de objetivos e de interesse das crianças e jovens. Mas isso se resolve com autoridade, família, laço, sei lá. Não é um problema crônico como a formação ideológica dos educadores, da qual falamos ontem.

A escola precisa voltar a educar e parar de catequizar nossos alunos. É urgente a volta das longas aulas de gramática, assim como é preciso acabar com o discurso uníssono que domina do primário à universidade: socialismo, anti-americanismo, causas sociais, etc. Precisamos formar profissionais, pessoas com capacidade de raciocínio e interpretação. Caso contrário, continuaremos formando apenas companheiros semi-analfabetos.      

O professor é culpado também

In Comentário, Lucas on Dezembro 5, 2007 at 3:50 pm

A OCDE, Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico, divulgou uma série de levantamentos nos últimos dias. As pesquisas indicam o ranking de países de acordo com o desempenho de jovens de 15 anos em diversas disciplinas. O Brasil decepciona em todas: da matemática à interpretação de texto, sempre na rabeira do ranking. Estamos no mesmo nível da Colômbia e do Azerbaijão.  

Não é nenhuma novidade o descalabro que toma conta da educação brasileira. Mas além da falta de investimento, podemos traçar um raciocínio interessante que mostra o ciclo do ensino no Brasil. Segue: 

Aonde se formam os professores? A grande maioria em universidades públicas. Só o desespero explica pagar uma faculdade para cursar pedagogia, filosofia, história, matemática. Sobram vagas nas universidades federais para estes cursos. Não se trata de preconceito ou acusação: é uma constatação, é o fato. Seguindo esse fato, quem conhece o ambiente acadêmico público sabe a formação que ele proporciona. Todo o conteúdo teórico é periférico, socialista rebelde e retrógrado. E esses professores que educam crianças tanto de escolas públicas quanto particulares. É esse meio atrasado que fornece praticamente todos os educadores.  

O resultado é um ensino fraco, deslocado da realidade, que perde seu fundamento ao fazer proselitismo de idéias. A preocupação com a consciência social substituiu a gramática. Nossas escolas pretendem formar “cidadãos”, relevando se o jovem será suficientemente alfabetizado. Atropela-se o conteúdo em função de uma praga chamada consciência social. Os números estão aí para comprovar.  

Falta muita coisa na educação brasileira, todo mundo sabe. Não quero transferir toda a culpa aos pedagogos, não teria cabimento. Mas creio que é preciso repensar a maneira ideológica de educar. E os professores são, sim, parcialmente culpados pelos nossos péssimos alunos.  

História resumida da repressão dos sentimentos

In Comentário, Lucas on Dezembro 3, 2007 at 1:56 pm

Boa parte das pessoas costuma escrever para tentar decodificar, materializar o que sente. Do poema mais inocente que a mocinha rabisca no diário à última grande obra da literatura universal: todas as palavras tentam expressar sentimentos. Existe também a escrita de idéias, o trabalho intelectual. Mas este presente texto humildemente vai ignorá-la. O dia hoje é dos sentimentos e sua expressão escrita.

Não sei em que altura da infância este escriba sentiu essa necessidade de expressão. Quem já escreveu como maneira de desabafo vai me entender: a simples idéia de alguém ler aquilo era assustadora. Na época eu escrevia e lia algumas vezes. Riscava aqui, complementava ali e pronto. Depois de lido e aprovado, jogava no lixo. Literalmente: eu ia até a lixeira da cozinha e tomava o cuidado de esconder o papel debaixo de algum lixo. Temia que a mãe ou alguém, ao ver aquela folha ali sobre os restos, recolhesse-o para ver se era lixo mesmo. Devido a esse temor (de que alguém soubesse o que eu sentia) tomava tamanho cuidado no descarte daquele começo de emoção, de decepção, de desilusão, de medo.

Hoje pode parecer diferente, mas não é. Vivemos na impossibilidade de explicar o que sentimos exatamente. As palavras se confundem, trazem a ilusão de esclarecimento, e apenas camuflam a angústia. Creio que “angústia” é uma boa definição para o estado permanente do coração deste escriba.

Ou não! Como saber se as linhas acima são a verdade? São verossímeis, sim, mas provavelmente não são verdadeiras. Os sentimentos continuam escondidos, como antigamente. Você que me lê, o melhor que tem a fazer é ler esse texto, mudar alguma coisa, aprová-lo ou reprová-lo e jogá-lo fora. Certifique-se de escondê-lo bem entre o lixo para que ninguém mais o encontre.