Primeiramente vamos aos números. São assustadores, mas tente seguir o já batido raciocínio na seqüência:
A Polícia Rodoviária Federal apresentou nesta quarta-feira relatório final sobre acidentes nas estradas sob sua jurisdição durante o feriado de Natal. De acordo com o balanço, 196 pessoas morreram entre a 0h da sexta-feira e a meia-noite desta terça nos 61.000 km de rodovias federais. Dessa forma, o Natal assumiu a posição de feriado com maior número de vítimas fatais de 2007 – superando inclusive o Carnaval, tradicionalmente violento, que registrou 145 óbitos.
Em relação ao mesmo feriado do ano passado, o Natal de 2007 também mostrou-se mais letal. Em 2006, foram registradas 90 mortes nas rodovias federais, o que representa um aumento de 117% no número de óbitos.
A análise fria dos números nos leva a diversas hipóteses: as pessoas estão bebendo mais no Natal? As pessoas beberam menos no carnaval de 2007? Claro que são conclusões absurdas. É até um certo humor negro que não cabe diante de quase duas centenas de mortes. O acidente da TAM em Congonhas, com o mesmo número de vítimas, foi destaque mundial. Essa carnificina ocorrida no Natal até foi divulgada, porém com o enfoque errado: colocando a culpa no motorista. Veja a seqüência da matéria do site Veja.com:
A polícia atribui o aumento no número de acidentes e mortes ao aquecimento da economia, o que teria elevado em cerca de 30% o volume de carros nas estradas. Contribuiria também a crise aérea, afastando passageiros dos terminais brasileiros, fazendo com que as estradas se tornassem a opção preferencial.
Imprudência – Porém, os registros da PRF apontam a imprudência ao volante como principal motivo para a ocorrência de acidentes. De acordo com levantamentos internos, 80,75% dos acidentes acontecem em trechos de pista com boas condições; 71,4% nas retas; 53,6% em plena luz do dia e com tempo bom (63%). A falta de atenção é o item mais alegado pelos condutores que se envolvem em acidentes (33,3%).
A imprudência sempre existirá. Medidas como controle de velocidade até inibem os abusos. Mas jamais evitarão as colisões frontais, principal causa (quase única) das mortes no trânsito. É escandalosa a necessidade de motoristas se cruzarem, em sentidos opostos em alta velocidade, a um, dois metros de distância. A falha humana, geralmente aliada a outros fatores (pista, tempo, álcool) continuará matando gente à revelia.
Chega a desanimar ser tão repetitivo: é urgente privatizar rodovias e duplicar todas as vias de tráfego intenso. O governo alega falta de recursos, e é verdade. Pois então ceda logo à iniciativa privada o controle das pistas. Que se cobre uma margem de lucro justa nos pedágios, mas dupliquem as estradas. As mortes em colisões frontais voltariam a ser manchete, motivo de espanto, causa de novas obras de melhoria. Hoje, do jeito que andamos, apenas contabilizam estatísticas que não param de aumentar. Aposto uma cerveja que o Carnaval 2008 supera os mortos do Natal 2007. Isso se o feriado do reveillon não surpreender (?) e assumir a pole.
***
Como de costume, esse espaço presta especial atenção à abordagem da imprensa. É sempre a mesma história: é culpa do álcool, da imprudência. Claro que é, e sempre será. O motorista utiliza a estrada como pode: alguns se arriscam e acontecem as tragédias. E a imprensa ouve a polícia e o governo e publica suas conclusões: “a maior parte dos acidentes ocorre devido a imprudência”. Seria demais buscar outro enfoque? Por exemplo: quantos acidentes seriam evitados se a pista em questão fosse duplicada, com canteiro central separando os sentidos opostos? Aposto outra que o número superaria os 90%.
Chega de campanhas de conscientização. O fator humano é irreparável: temos a tendência ao erro, além dos péssimos motoristas e dos pilotos de corrida frustrados que habitam as BRs. Só mudaremos as estatisticas quando existir a consciência de que o grande problema é a pista, não o homem. Mas enquanto isso, motorista apressado, a culpa é só sua. Shame on you!