Quando crianças somos apresentados aos livros. Ler, segundo os pais e os professores, era fundamental. O problema que eles ignoravam era o conteúdo. A leitura (qualquer uma) deve trazer realmente benefícios para a fala e a escrita. Mas o importante, a mensagem, o conjunto, era ignorado. O importante naquela época era a atividade mecânica: simplesmente interpretar sinais ortográficos.
Conhecíamos belas histórias fantásticas. Quem dos alfabetizados não adorava a coleção vaga-lume? Aonde foram parar aqueles autores tão importantes e ao mesmo tempo tão descartáveis? Pobres fracassados condenados a desenvolver uma linha de texto simples, temporal, com começo, meio e fim e ainda com valores morais embutidos. Eram obrigados a escrever de maneira mecânica, padronizada, para leitores igualmente padronizados. Que cumplicidade incompetente nos unia.
Escrevo até aqui para chegar ao homem deste texto. Até lá, mais uma lembrança daqueles tempos: quem (novamente me dirijo aos ligeiramente alfabetizados) foi introduzido à poesia ainda criança? “A poesia é o alimento da alma”, suspirou a professora. E os rapazolas, educados desde cedo na cultura machista, ficavam temerosos quanto aqueles versos românticos. Eu estava entre eles e me afastei da poesia, aquela estranha forma de expressão feminina, digamos.
Mas o tempo passou e eu superei essa pequena ojeriza por acaso. Um escritor me tirou do preconceito contra a poesia adquirido na infância e me apresentou o mundo dos versos: Charles Bukowski. Ele é um escritor de prosa medíocre (no sentido de mediano). Creio que por preguiça abandonou os contos e se dedicou à poesia. Célebre alcoólatra, Bukowski escrevia versos curtos, fáceis, preguiçosos. Carregados de um sentimento de abandono deliberado. Ele buscava o isolamento, desprezando a vida e se entregando à derrota, à indiferença. Fora um homem fisicamente horrível: do seu corpo brotavam enormes furúnculos que o afastaram de belas mulheres: convivia com prostitutas e vagabundos, apesar de evitar a companhia de conhecidos e fãs pedantes.
Não creio que a vida regressa de Charles Bukowski tenha sido uma opção. Ele não tinha outro caminho; até teria, mas este que escolheu era fácil. O isolamento, o álcool, as mulheres igualmente fáceis. Até a prosa acredito que tenha abandonado por preguiça. O verso era curto, ágil, transmitia a este velho alcoólatra a sensação de produção, de criação artística. Sorte nossa! Sua prosa, apesar de divertida, é absolutamente descartável. Já os versos, mesmo simples como seu texto, são fascinantes.
Alone With Everybody
the flesh covers the bone
and they put a mind
in there and
sometimes a soul,
and the women break
vases against the walls
and the men drink too
much
and nobody finds the
one
but keep
looking
crawling in and out
of beds.
flesh covers
the bone and the
flesh searches
for more than
flesh. there’s no chance
at all:
we are all trapped
by a singular
fate.
Na humilde tradução deste escriba: Sozinho com todo mundo (ou melhor, Sozinho na multidão)
A carne cobre o osso
e eles colocam uma mente lá dentro eas vezes uma alma
e a mulher quebra vasos
contra as paredes
e o homem bebe de-
mais
e ninguém encontra a pessoa ideal *
mas continua procurando
deitando e pulando
de camas
carne cobre
o osso e a
carne procura
por mais que simplesmente
carne
não temos chance
alguma
estamos todos amarrados
por um único
destino.
* Este “the one” não encontra tradução fácil em verso. Significa no inglês “aquele”, a pessoa que supostamente todos procuram. Numa tradução piegas escreveríamos “cara-metade”.
Quem, na infância, entenderia a angústia de Bukowski? Ninguém, claro. Por isso, quem sabe, o trauma causado por aqueles poetas difíceis e chatos tenha preparado o terreno para conhecer Bukowski. Não é necessário nem prudente apresentá-lo às crianças. Mas enfim, é necessário vivência, derrotas, amarguras presentes e passadas para admirar a boa poesia: ela é simples, ela é direta, ela é sincera. Ela é quase infantil. Por pouco não caio na tentação da professora de fechar os olhos, suspirar e dizer que a poesia é, realmente, o alimento da alma.