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Archive for Janeiro 2008

Charles Bukowski e as crianças

In Ficcional, Lucas on Janeiro 31, 2008 at 11:33 pm

Quando crianças somos apresentados aos livros. Ler, segundo os pais e os professores, era fundamental. O problema que eles ignoravam era o conteúdo. A leitura (qualquer uma) deve trazer realmente benefícios para a fala e a escrita. Mas o importante, a mensagem, o conjunto, era ignorado. O importante naquela época era a atividade mecânica: simplesmente interpretar sinais ortográficos.

Conhecíamos belas histórias fantásticas. Quem dos alfabetizados não adorava a coleção vaga-lume? Aonde foram parar aqueles autores tão importantes e ao mesmo tempo tão descartáveis? Pobres fracassados condenados a desenvolver uma linha de texto simples, temporal, com começo, meio e fim e ainda com valores morais embutidos. Eram obrigados a escrever de maneira mecânica, padronizada, para leitores igualmente padronizados. Que cumplicidade incompetente nos unia. 

Escrevo até aqui para chegar ao homem deste texto. Até lá, mais uma lembrança daqueles tempos: quem (novamente me dirijo aos ligeiramente alfabetizados) foi introduzido à poesia ainda criança? “A poesia é o alimento da alma”, suspirou a professora. E os rapazolas, educados desde cedo na cultura machista, ficavam temerosos quanto aqueles versos românticos. Eu estava entre eles e me afastei da poesia, aquela estranha forma de expressão feminina, digamos.

Mas o tempo passou e eu superei essa pequena ojeriza por acaso. Um escritor me tirou do preconceito contra a poesia adquirido na infância e me apresentou o mundo dos versos: Charles Bukowski. Ele é um escritor de prosa medíocre (no sentido de mediano). Creio que por preguiça abandonou os contos e se dedicou à poesia. Célebre alcoólatra, Bukowski escrevia versos curtos, fáceis, preguiçosos. Carregados de um sentimento de abandono deliberado. Ele buscava o isolamento, desprezando a vida e se entregando à derrota, à indiferença. Fora um homem fisicamente horrível: do seu corpo brotavam enormes furúnculos que o afastaram de belas mulheres: convivia com prostitutas e vagabundos, apesar de evitar a companhia de conhecidos e fãs pedantes. 

Não creio que a vida regressa de Charles Bukowski tenha sido uma opção. Ele não tinha outro caminho; até teria, mas este que escolheu era fácil. O isolamento, o álcool, as mulheres igualmente fáceis. Até a prosa acredito que tenha abandonado por preguiça. O verso era curto, ágil, transmitia a este velho alcoólatra a sensação de produção, de criação artística. Sorte nossa! Sua prosa, apesar de divertida, é absolutamente descartável. Já os versos, mesmo simples como seu texto, são fascinantes. 

Alone With Everybody 

the flesh covers the bone
and they put a mind
in there and
sometimes a soul,
and the women break
vases against the walls
and the men drink too
much
and nobody finds the
one
but keep
looking
crawling in and out
of beds.
flesh covers
the bone and the
flesh searches
for more than
flesh.
there’s no chance
at all:
we are all trapped
by a singular
fate.

Na humilde tradução deste escriba:  Sozinho com todo mundo (ou melhor, Sozinho na multidão) 

A carne cobre o osso

e eles colocam uma mente lá dentro eas vezes uma alma 

e a mulher quebra vasos

contra as paredes

e o homem bebe de-

mais

e ninguém encontra a pessoa ideal *

mas continua procurando

deitando e pulando

de camas

carne cobre

o osso e a

carne procura

por mais que simplesmente

carne

não temos chance

alguma

estamos todos amarrados

por um único

destino. 

* Este “the one” não encontra tradução fácil em verso. Significa no inglês “aquele”, a pessoa que supostamente todos procuram. Numa tradução piegas escreveríamos “cara-metade”. 

Quem, na infância, entenderia a angústia de Bukowski? Ninguém, claro. Por isso, quem sabe, o trauma causado por aqueles poetas difíceis e chatos tenha preparado o terreno para conhecer Bukowski. Não é necessário nem prudente apresentá-lo às crianças. Mas enfim, é necessário vivência, derrotas, amarguras presentes e passadas para admirar a boa poesia: ela é simples, ela é direta, ela é sincera. Ela é quase infantil. Por pouco não caio na tentação da professora de fechar os olhos, suspirar e dizer que a poesia é, realmente, o alimento da alma.

Os gastos de Matilde Ribeiro: nenhuma surpresa

In Comentário, Lucas on Janeiro 29, 2008 at 1:18 pm

Matilde Ribeiro, ministra da Secretaria Especial de Política da Promoção da Igualdade Racial (Seppir), apareceu novamente no noticiário. Na primeira vez, há alguns meses, ela saiu com essa infeliz declaração: “A reação de um negro de não querer conviver com um branco, eu acho uma reação natural. Quem foi açoitado a vida inteira não tem obrigação de gostar de quem o açoitou”.

 Na semana passada, ela voltou a aparecer. Foram divulgados seus gastos com o cartão de credito corporativo, uma mamata fornecida ao alto escalão do governo para custear despesas. Ela é a campeã do ranking dos gastos: 171 mil e quinhentos reais no ano passado. Não é necessário explicar aqui quem pagou essa conta. Confira aonde ela gastou (fonte: Veja): 

126 000 reais: aluguel de carros;
35 700 reais: hotéis e resorts;
4 500 reais: bares, restaurantes e padaria;
460 reais: free shop;
4 800 reais: despesas diversas.

Se vivêssemos num país sério, esta senhora já estaria longe do governo. Na verdade ela não deveria nem mesmo pertencer ao quadros do governo: seu ministério é inútil. Além de não acrescentar nada, estorva, no sentido de fazer proselitismo de um “racismo invertido”. O exemplo extremo é a famosa declaração de Matilde, quando afirmou também que “não é racismo quando um negro se insurge contra um branco”. A tal Seppir ainda trabalha a favor de retrocessos como as cotas nas universidades públicas e apoio a ONGs obscuras (assunto de um post futuro). 

Por incrível que pareça, ela não caiu com toda repercussão de sua declaração. Lula manteve-a no ministério. Creio que a divulgação de seus gastos extravagantes não deveria surpreender: ela já havia demonstrado seu caráter no episódio anterior. Lula errou ao mantê-la no cargo. E continua errando, já que nada indica de que ela será afastada dessa vez.

Creio que o afastamento seja pouco. Essa divida tem de ser ressarcida aos cofres públicos. Aluguel de carro, com a mesma empresa? 126 mil reais no crédito. Resort de luxo? 35 mil no débito. Barzinho da boemia carioca? 4 mil, no crédito? No débito? Tanto faz. E uma tetinha no governo Lula? Não tem preço.

O Santo Judas

In Comentário, Lucas on Janeiro 21, 2008 at 11:22 pm

A reflexão que segue abaixo não é nenhuma novidade. Mas deveria ser obrigatória em algum momento da vida de cada cristão. Seguem duas fontes do mesmo tema, depois comento.

No filme A última tentação de Cristo, de Martin Scorcese, Jesus é um rapaz perturbado e inseguro. Já Judas é forte e convicto. No filme, ao contrário do que conta a bíblia, Jesus PEDE, INSISTE para que Judas o traia. Seria o necessário para realizar-se o plano divino: Jesus morre na cruz e redime a humanidade de seus pecados. 

No livro Ficções, de Jorge Luis Borges, um dos contos é dedicado a Judas e ao mesmo raciocínio: ele teria traído Jesus sabendo da necessidade. Borges vai além: Judas estaria no inferno deliberadamente. Assim, Jesus morreu com glórias e foi para o céu. Ele, Judas, o verdadeiro protagonista da redenção, pagava no inferno o preço da traição deliberada. Parte da mais bela ficção já escrita na América Latina. Mas também essa perspectiva, da traição deliberada de Judas e suas conseqüências, até que ponto pode ser tratada como ficção? Ainda: para quem não crê, toda a bíblia é ficção? 

A causa e a conseqüência da crucificação merecem essa análise histórica. Para os crentes, parecem ter sido parcialmente reveladas com a suposta e recente descoberta do Evangelho de Judas. Será que a história central do Cristianismo, a morte de Cristo, seria resultado de uma simples traição motivada pela avareza? E o plano divino de enviar seu filho para salvar a humanidade? Se não fosse Judas, como Jesus teria morrido? Idoso? 

É obvio que qualquer religião é sustentada por dogmas fundamentados na fé. É impossível testar, através da lógica, as histórias contadas na bíblia. São inúmeras contradições e eventos inverossímeis. E entre todos, o episódio da traição de Judas é o mais descabido. 

Fica evidente que é uma parte do evangelho muito mal explicada. Judas é injustiçado até hoje: seu nome é sinônimo de traidor. O cristão há de convir que Judas foi peça fundamental no destino de Cristo. Do jeito que é relatada, fora uma traição planejada, ou por vontade divina revelada, ou a pedido do próprio Jesus.  

Certa vez vi uma matéria sobre esculturas sacras. Umas delas fora parcialmente destruída: a de Judas, furada à bala. Era o fiel querendo vingança. Judas recebeu a missão mais ingrata da história da humanidade: trair seu mestre, o messias, e carregar a sina de traidor mesmo depois de séculos, milênios. Não seria Judas o verdadeiro santo dessa história?   

A relação custo/benefício

In Comentário, Lucas on Janeiro 17, 2008 at 12:27 pm

O custo/benefício é a base do capitalismo. Produzir a certo preço, vender mais caro para obter lucro, negociar, a concorrência, até o consumidor final: este escolherá, de acordo com o preço, de acordo com as vantagens. Você paga por bens e serviços calculando seus futuros benefícios. 

Mas não é apenas a relação comercial que utiliza esse princípio. Esse é o princípio da vida. É assim, pensando no preço e nas conseqüências dos seus atos, que os homens trilham caminhos. É uma relação óbvia, natural. É aqui que o socialismo erra (e em todos seus demais conceitos): considerar as pessoas iguais, detentoras das mesmas ambições. E o custo/benefício que a vida cobra, onde fica nesse regime? A aplicação utópica do comunismo ocasionaria seres humanos de ambições reprimidas, nulas. Você seria obrigado a ser ordinário, medíocre. No capitalismo você pode ser um comum também. Mas existe a chance, as oportunidades de ambicionar algo.    

*** 

Sem mais divagações, este texto analisa outro tipo de custo/benefício: as bebidas alcoólicas e o cigarro. É inegável o prazer que oferecem. Também é certo que causam males à saúde. Porém, numa dosagem que não chegue ao vício e à dependência, são benéficos ao homem. Eliminam o estresse, acalmam a ansiedade, tornam possíveis contatos sociais e relações amorosas, etc. 

Não estou sendo irônico. Tenho a convicção de que o custo/benefício das bebidas, por exemplo, pode ser positivo. O primeiro exemplo que me surge: quantas vezes ouvimos falar que o alcoolismo acabou com matrimônios? É verdade, isso acontece. Mas quantas vezes calculamos quantos casamentos são tolerados em função da leve embriagues, do prazer do tabaco, do copo companheiro, dos amigos de bar? Isso não faz bem à saúde também? O benefício (prazer) não compensa o custo (malefícios à saúde e gasto financeiro)? Ser alcoólatra é um problema. Mas o abstêmio é, no mínimo, uma pessoa que nega a si mesma um benefício.

O retorno da oposição

In Comentário, Lucas on Janeiro 16, 2008 at 12:49 am

Os Democratas, ou DEM, vêm salvando a democracia nacional. Apoiados pelos minguados rebeldes do PSOL e pelo PSDB, que aos poucos acorda, lideram a oposição ao governo Lula. Ninguém consegue explicar por que só agora essa oposição reapareceu no cenário político. Sua volta e prova definitiva de força foi, no final do ano, a queda da CPMF. A maior derrota política do presidente Lula.

Conhecemos os políticos. O senso-comum nos ensina que são todos corruptos, vagabundos, não importa o lado em que estão. E é verdade, política é isso mesmo. Então porque afirmar que o DEM salva a nossa democracia? Simplesmente porque não existe democracia sem oposição. 

O PT sabe disso, já que sempre foi uma oposição feroz. O problema é que o PT é formado no ideário socialista: acreditam que existe uma vontade popular, da massa, que seria representada por eles, pelo partido. Mas como aqui não é a Venezuela, foi necessário adaptar o discurso e as ações. Por isso você ouve Lula dizendo que “tem gente que torce contra o Brasil, que a oposição quer voltar ao poder e por isso vota contra tudo”. Sim, ele acredita representar a vontade do povo. É o espírito comunista que insiste em se manifestar, roto mas ainda audível na América Latina e em alguns grotões da Ásia. 

E a oposição parece ter acreditado que se opor a Lula era errado, era contra os interesses da nação. A oposição precisa estar consciente de que o interesse do país é a reforma tributária, é auxílio social e não doação de recursos, é desoneração, é flexibilidade do Estado, é redução e controle do gasto público. É fundamental se opor, questionar, investigar, ainda mais por se tratar do conhecido PT (mensalão, dossiê fajuto, Celso Daniel, etc.). Se a oposição também abriga corruptos, paciência. Precisamos desses valentes regulando as ações do governo, como sempre foi, como deve ser na democracia.

Faz de conta

In Lucas on Janeiro 15, 2008 at 2:18 am

Lembra de quando éramos crianças e brincávamos inventando coisas? Construíamos as cidades e, quando estava tudo pronto, perdia a graça brincar. E então destruíamos tudo e recomeçávamos do zero.

Eu continuo o mesmo piá. Construí o amor que hoje habita em você. Você hesitou e desapareceu na metade, a obra ainda incompleta. Eu insisti durante meses, passei noites sem dormir esperando você. Já havia desistido quando você voltou. Como a criança que sente falta da brincadeira e retorna ao jogo. Ou como o viciado que retorna à mesa de cartas, apostando o que lhe resta de fichas. Assim é você comigo.

E eu aceito teu desespero. Ignoro os motivos do seu regresso: o importante é você ter voltado e premiado minha persistência. Continue criando esse mundo de fantasias ao meu redor. Porque eu desisti da realidade do nosso amor, tão chato e vazio sem as nossas mentiras e omissões. Só assim se cria o amor: o ambiente precisa ser propício. É uma terra de fantasias onde a árvore do amor cresce adubada por embustes e falácias totalmente necessárias.

Mas uma coisa não vai mudar: esse meu comportamento infantil de enjoar da brincadeira, de levar as coisas na brincadeira. Não difiro o sério do jocoso, a piada da promessa, a declaração sincera da cantada. É tudo igual para mim.

A esperança que resta é de que este jogo dure bastante. Quem sabe a vida inteira, por que não? Caso contrário eu enjôo e sumo. Só te conto isso e não sinto pena ou remorso por um único motivo: nós dois somos iguais. Você vai compreender.    

Um Petry simples

In Comentário, Lucas on Janeiro 10, 2008 at 7:29 pm

André Petry é colunista da Veja há um bom tempo. O homem deve ser discreto: não é visto na mídia; só se pronuncia no seu espaço semanal. Sempre escreveu bem, com coerência. Mas vem cometendo deslizes estranhos nos últimos textos.

O primeiro deles foi seu comentário sobre o caso do rapaz torturado e morto por seis policiais em São Paulo. Comparou o governador José Serra com a governadora do Pará, Ana Cerepa. Petry criava assim uma ligação entre o jovem morto em São Paulo e a adolescente presa com homens no Pará. Considerou a reação de Serra semelhante a da governadora, apesar do paulista ter decretado os caminhos mais curtos para imediata indenização da família, além da prisão dos seis policiais. Petry ignorou tudo. Não sei o que esperava que Serra fizesse.

Ele costuma demonstrar um ar indignado com a situação. Encerra parágrafos e textos com frases de efeito, carregadas de lamentações. Na ultima semana, Petry citou o mesmo número já comentado aqui, das quase 200 mortes registradas no Natal em rodovias federais. E repetiu o enfoque aqui condenado: culpar sempre o motorista pelas tragédias no trânsito.

Assim fica fácil fazer jornalismo opinativo: culpar o motorista pelo acidente é não errar nunca. Obviamente um dos veículos envolvidos é culpado. Petry exige punição rígida aos imprudentes, outro lugar-comum da crítica. Acredito que o caminho é só um: enquanto não modificarmos a estrutura do nosso transporte, as estatísticas continuarão crescendo de acordo com o aumento da frota.

Nesse texto Petry elogia ainda campanhas ridículas de conscientização ao motorista. Vê ali um caminho para a redução dos acidentes. Foi a gota d´água e motivo dessas linhas críticas. É inacreditável a simplicidade das idéias do colunista outrora tão versátil e conciso. Espero que seja apenas a costumeira falta de assunto e a conseqüente preguiça de reflexão que acontece no começo dos novos anos.  

2008

In Editorial, Lucas on Janeiro 10, 2008 at 7:24 pm

Não há nada a ser dito ou desejado para este começo de ano. Segue a vida apesar dos votos falsos e promessas furadas. Este espaço seguirá o mesmo, irregular e irresponsável. Afinal peruar é palpitar sem compromisso. Sempre será.

 Mas que a lógica, a razão e a liberdade sirvam de princípios para novas idéias. Ou para recuperar as velhas, que nos fugiram. Por isso que este espaço se diz conservador: perdemos muita coisa pelo caminho. Mas aos poucos vamos catando, campeando, já que estamos no recomeço deste caminho que esperamos trilhar mais uma e mais quantas vezes for possível.

Seja o que Deus quiser, se é que ele ainda se importa.