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Um 2009 extremo pra você (ou, Nobres Veleidades)

In Comentário, Lucas on Janeiro 22, 2009 at 4:58 pm

Se eu pudesse desejar algo a você em 2009, diria o seguinte: que você seja uma pessoa ao extremo. Não extremamente alcoólatra ou extremamente abstêmio. Ou extremamente fiel ou extremamente promíscuo. Falo em sonhos, em perspectivas, falo especificamente nas promessas furadas do final de ano. Aquelas: em 2009 estudarei muito, serei compreensivo, vou amar minha mulher, entre outras bobagens. Já pensou se promessa realmente fosse dívida?

 

Enfim, o objetivo destas linhas é falar sobre modos, estilos de vida. E os extremos aos quais me refiro são esses: uma pessoa extremamente determinada, que eliminou a preguiça, a timidez, o medo e traça metas, objetivos. Uma pessoa que não apenas sonha, mas planeja essa realização. E o seu oposto: um completo indiferente. Sem perspectivas, sem planos, sem ilusões. Um barco à deriva. Um ser em permanente abstração, imune às agruras da vida. Desejo, sinceramente, que você seja um ou outro, para eu poder te admirar.

 

O determinado encontrará obstáculos, desilusões, mas fará o impossível para superá-los. Vai cair, vai usar a razão, refletir, erguer-se, lutar e invariavelmente vencer. É a aparente recompensa do universo para esse tipo de gente. Já o indiferente não vai se incomodar. O circo pegará fogo e ele estará deitado na grama, enxergando formas nas nuvens. Pra que lutar se ele não quer nada? Qual o sentido de correr tanto num mundo desesperadamente carente de sentidos?

 

Não sei qual dos dois é melhor. Mas sei qual é o pior: o meio-termo, ou seja, eu e você. Esse ser desprezível que, no dia 31 de dezembro de 2008, dormiu cheio de planos e acordou de ressaca, esquecido de tudo. Talvez tentou tornar o primeiro do ano um dia diferente, ou “o começo de uma nova vida”, como dizem. Mas o segundo do ano foi o limite da ilusão, e tudo voltou ao normal, à avassaladora rotina.

 

Somos assim, meio batalhadores, meio conformistas. Somos acometidos pelo mal do acomodamento: a mesma mulher, porque é cômodo, apesar de não suportá-la, o mesmo chefe, porque é cômodo, apesar de esganar-lhe em pensamento, o mesmo corpo, apesar de evitar o espelho, a mesma melancolia, os mesmos receios, a mesma vidinha.

 

Resumindo a idéia e o desejo deste escriba: que em 2009 você se aproxime de um dos extremos! Não importa qual: será nobre, admirado. É o ápice do individualismo, uma escolha sincera de vida, a rejeição da imbecilidade coletiva. Evidente que será impossível atingir os extremos, porque somos humanos. Desistimos ao presenciar obstáculos muito grandes, como aqueles cavalos nas olimpíadas. Ao mesmo tempo, nos preocupamos com picuinhas insignificantes, que nos tiram o sono e a fome. Mas essa jornada, essa busca pelo extremo já será um grande feito. Ou então esqueça tudo e permaneça ao meu lado, nessa vida de atroz meio-termo: lutando, mas logo desistindo; aparentemente indiferente, mas com remorsos e rancores devidamente escondidos no coração.          

Joaçaba se aproxima

In Comentário, Lucas on Janeiro 22, 2009 at 4:51 pm

Joaçaba insiste em aparecer. Sabe aquela ex-celebridade que precisa estar na mídia? Que a qualquer custo luta para sair do limbo, do esquecimento? Agora imagine como se sente esta Joaçaba, algo que nunca passou de uma promessa. Viu Chapecó, viu Concórdia, viu Lages crescer e permaneceu nanica como as inúmeras cidades vizinhas. E hoje, pobre Joaçaba, não se conforma diante da dura realidade da insignificância regional.

 

Poderia ser esta biografia frustrante a explicação para Joaçaba insistir em aparecer! Veja o leitor que feito o município está prestes a realizar: erguer uma estatua gigante, a quinta maior do mundo! Joaçaba quer virar notícia a todo custo. A propósito, viram o que aconteceu em Aracaju? A maior árvore de natal do mundo desabou e matou três operários. Não creio que a estátua do Frei vá cair. E eu também não sou contra a construção de estátuas. Mas é um motivo vão de orgulho. É uma oponente futilidade que será exaltada como um grande feito. Por que Joaçaba não tenta ser o município mais alfabetizado? Ou o menos corrupto? Por que mantém casas erigidas sobre o Rio do Peixe (Morto)? Por que não soluciona o problema do seu trânsito caótico? Não basta emular o desfile de Carnaval do Rio: agora Joaçaba quer imitar o Cristo Redentor, no topo de um dos barrancos que a cercam.

 

Eu e o resto do Brasil ouvimos falar em Joaçaba duas vezes neste século. A primeira, uma disputa avarenta entre dois amigos: sete milhões não bastavam para cada um. Queriam tudo, e deixar o outro sem nada. Hoje, já não são mais apenas os dois que querem um pedaço deste bolo da discórdia… Mas isso não vem ao caso.

Há alguns dias, o fato espantoso do estupro: uma menina de quinze anos, embriagada, foi estuprada por três rapazes. Eles filmaram o ato, que caiu na rede e virou notícia em todo o país. Assisti a reportagem da Globo no Youtube. Por acaso, desci a página e li, horrorizado, os comentários dos internautas. Pasme, leitor: a maioria censura a garota: quem mandou beber tanto, onde estavam os pais, bem feito, e demais absurdos do gênero. Falsos moralistas, tentando justificar um crime medonho em função de um comportamento inadequado.

 

Por que Joaçaba não pode ser como a minha São Miguel do Oeste? Lá, há 20 e poucos anos, nasceram os quíntuplos. Quem nunca viu os quíntuplos de São Miguel num calendário do comércio? Hoje eles estão esquecidos, assim como São Miguel. Mas permanecemos felizes no nosso anonimato. Os quíntuplos estão felizes no anonimato. Nem são mais percebidos na rua. Se fossem nascidos em Joaçaba aposto que os quíntuplos também reivindicariam fama eterna. Quem seguraria o Jacksons Five do oeste?

 

Quando a história do estupro apareceu na mídia, alguém me perguntou se não era a cidade do meu pai. Sim, é a cidade do meu pai, respondi envergonhado. Eu gostaria que apenas três coisas tivessem acontecido em 2008: que eu ganhasse dinheiro, que John McCain fosse eleito presidente dos EUA e que meu pai fosse trabalhar em Chapecó. Mas nada disso aconteceu. Sendo assim, resignado e com alguns trocados no bolso, vou visitar o meu pai. Começo a sentir calafrios assim que vejo Luzerna pelo retrovisor: Joaçaba se aproxima.