perudefora

Posts de Fevereiro, 2009

Qualquer morte me diminui

In Lucas on Fevereiro 26, 2009 at 11:49 pm

Busquei a mulher em sua casa. Era uma sexta-feira qualquer de 2008. Antes de sair, deixei tudo pronto: um colchão em frente ao (propositalmente?) desconfortável sofá. Na chegada, falaria: eu estava aí deitado. Os drinks previamente pensados, cada bagunça deliberadamente ambientada: sou um pouco artista plástico nessas horas. Penso que a moça vai perceber a harmonia entre os objetos e descobrir  o belo entre a mobília.

 

Ao chegar, liguei a TV em qualquer canal, o volume baixo: o perfeito abajur para os amantes indiferentes. Deitados, buscando melhores carícias e toques mais ousados, ouço a notícia: morreu hoje o jornalista e escritor Fausto Wolff. Na hora ignorei, mas sabia que mais tarde sentiria. Fausto sempre teve fama de alcoólatra. Ouvia notícias a respeito de sua saúde debilitada. Porém, naquele momento, ignorei. Fausto Wolff era, e ainda é, menos importante do que qualquer mulher. (O que não é?)

 

Fui leitor incondicional de Fausto Wolff nos tempos do Pasquim 21, relançamento do clássico periódico de oposição ao regime militar. Até simpatizei com suas idéias comunistas por algum tempo. Mas o que realmente me encantava era a clareza do seu texto. As palavras fluíam de maneira incrível. Eu queria ser como Fausto Wolff: escrever de forma magistral e beber muito.

 

Mas Fausto ficou para trás. Tentei ler alguns de seus livros de ficção, mas não eram bons. Durante anos busquei textos e notícias sobre ele, mas sempre com pouco sucesso. Até que um dia desisti. Suspeitei que já estivesse morto. Além disso, percebi as falácias do pensamento socialista que ele fazia apologia. E me tornei o atual direitista desumano e intransigente. Eu esqueci e não procurei mais saber nada a respeito de Fausto Wolff ou de suas idéias.

 

Mas eu juro que constantemente um pensamento me assolava: ele vai morrer logo. Ele bebe demais. Ele é ranzinza demais. Ele está profundamente desiludido com o Lula. E ele morreu. Não abri os olhos. Não movi as mãos do lugar onde elas estavam. Não tive nenhuma reação, a não ser a já mencionada, aquilo que eu pensei: vou sentir isso mais tarde.

 

Por que escrevo sobre Fausto Wolff tão tarde, meses depois de seu falecimento? Não sei. Era uma dívida que eu tinha com o dono daquele texto perfeito? Talvez. Mas o que me fez lembrar de Fausto hoje foi uma história que ouvi: um velho que ficou doente após a morte do seu cão. Doente de saudade? Talvez. Mas o que mais dói é aquela velha constatação: qualquer morte nos diminui. A morte do cão nos faz pensar no tempo e nos diminui. A morte de Fausto, a agradável leitura semanal de outrora, me diminui. A simples lembrança da morte me diminui.

 

Apesar da irremediável melancolia, creio que Fausto Wolff, incorrigível mulherengo, ficaria satisfeito em saber que não larguei da mulher para lamentar sua partida. Meu coração saberia a hora de assimilar a perda: mais tarde, e em segredo.       

Quem sabe o último contrato

In Lucas on Fevereiro 20, 2009 at 1:30 am

Eu vou te propor um contrato de risco. Logo falarei do que se trata. Primeiro vamos esclarecer a carência que me leva a este artifício. A principal é esta necessidade de dividir a vida com alguém. Não posso dizer que preciso de você. Até preciso, mas nem sempre. O problema é que, ultimamente, em diversos momentos, sinto uma vontade enorme de estar com você. E fazer tudo aquilo que um casal faz. Sinto falta da rotina estabilizadora, que certamente me privaria, por algum tempo, das mazelas noturnas.

 

Aqui começa o risco do contrato: percebeu o “algum tempo” da última frase do parágrafo anterior? Esse é o meu, o seu, o problema de todos nós: o tempo. Precisamos aproveitar o tempo que passa assustadoramente lento, porém não para. Ambos sabemos das delícias dos primeiros dias. A mais temerosa rotina é motivo de inigualável deleite. A TV, as manias, as desculpas, os vícios, a estupidez, tudo se justifica, na cama e nos passeios de carro. As diferenças são ignoradas, pois ainda temos um corpo e um coração a desbravar.

 

Nesse contrato prometo idolatrar essa doce união. Prometo ignorar qualquer futilidade, qualquer divergência. E digo mais: prometo me adaptar a você. Prometo não somente relevar, tolerar, mas assimilar as tuas preferências, os teus gostos. Essa servidão explicita é conseqüência do meu cansaço. Eu faço tudo que citei acima para poder dormir na tua casa, na tua cama. Eu realmente estou exausto, não sei ao certo o motivo. E, preciso admitir, desconfio que você não será a solução desse problema. Outras não foram… Mas é a primeira vez que estou disposto a fazer este esforço. Preciso, desesperadamente, de um tempo para descansar.

 

Viu? Preciso de um tempo. Você seria perfeita por certo tempo. Não posso dizer o quanto. Com alguma sorte creio que um ano, ano e meio, que tal? Saberemos a hora da separação: virá a intolerância, o desprezo, os pensamentos lânguidos de antanho, até então reprimidos. Vai acontecer, como sempre. Na seqüência virá a separação, a dor, mas depois dela, a melhor parte: o recomeço. A percepção de que o tempo passou, mas nem tanto. Que ainda é tempo de ser feliz.

 

Para concluir, falo enfim do risco desse contrato, o qual estabelece nossa comunhão de corpos e sentimentos por período indeterminado. O risco é encontrar a felicidade, um no outro, e ficarmos juntos para sempre. Assina?

Supostamente diplomáticos

In Comentário on Fevereiro 16, 2009 at 10:04 pm

O episódio da brasileira espancada e ferida por neonazistas na Suíça escancara o quão medonha é a política externa do Brasil. Ponto e parágrafo.

 

O episódio da brasileira supostamente espancada e ferida por supostos neonazistas na Suíça escancara o quão medonha é a política externa do Brasil. Agora sim, podemos prosseguir. E olhe que ainda temo o uso dos “supostos”. Um cheiro de farsa emana dessa história de aborto dos gêmeos…

 

Mas vamos supor que realmente aconteceu: ela foi espancada e, em sua pele, fizeram cortes com perfeita simetria das iniciais do partido de extrema direita SVP (sempre eles, esses porcos direitistas…). Isso tudo na rua, nesses terrenos baldios cobertos de neve que abundam na Suíça. Depois ela se escondeu em um banheiro público e teve o aborto.

 

A situação é dramática, e falo sem ironia. Mas a reação brasileira foi estúpida. Deram contornos xenófobos ao episódio que, se comprovado, foi um fato isolado. É um erro acusar a Suíça de leniente e generalizar a idéia de um país que repele imigrantes.

 

Ademais, a recente biografia brasileira em questões externas torna o país suspeito em qualquer querela diplomática. Os exemplos são escandalosos. No Paraguai, agricultores de origem brasileira são o alvo principal dos sem-terra paraguaios, e o Itamaraty não faz nada. Por que não faz nada? Em função da identidade ideológica entre o PT e o presidente eleito, Fernando Lugo.

 

A identidade ideológica também foi responsável pelo caso de Cesare Battisti, o homicida italiano que ganhou o status de refugiado político no Brasil. Por que? Porque ele era militante de esquerda, terrorista. Tarso Genro, comovido, não permitiu a extradição do bandido: alegou que a justiça italiana faz perseguição política, e acolheu o companheiro.

 

O assunto parece chato, mas é assustador. Os exemplos da desastrosa política externa são infindáveis. Devolvemos os pugilistas fujões ao ditador Fidel Castro. Entregamos a preço de banana a Petrobras na Bolívia. Apoiamos os terroristas das FARCs e censuramos a Colômbia, única democracia envolvida no caso. Tudo, e tudo mesmo, de acordo com a nova ideologia que domina o continente.      

Eu queria fechar os olhos e dormir

In Lucas on Fevereiro 11, 2009 at 11:40 pm

Leio um texto do por vezes genial, por vezes banal, Ivan Lessa. Comparo-o, em menor grau, a Dalton Trevisan, divindade escondida em Curitiba: este, mestre das letras, teve uma trajetória parabólica na literatura. Começou fraco, amador, mas demonstrando as vezes a arte que floresceria. Alcançou o auge da criação literária, e lá permaneceu por anos, até decair de maneira vergonhosa. Já Ivan Lessa que, ao contrário de Dalton, pouco conheço, parece apresentar lapsos de criatividade curtos e rotineiros. De uma semana para a outra passeia entre a magnitude e a futilidade, num ziguezague infinito.

 

Mas volto ao começo: leio um texto de Ivan Lessa, desta vez excelente. Fala sobre o sono. Mistura ironia, supostos dados científicos, impressões, aquilo tudo que lhe é característico. Queria citar trechos aqui, mas tenho medo de copiar e colar pilhérias do autor e divagar a respeito, como um pateta. Por isso li apenas uma vez e mantenho a primeira impressão, e a conseqüente e triste reflexão proveniente daquelas linhas.

 

Para aquele que tem sono é deveras agradável falar sobre o ato de dormir. Para aquele que deita e apaga é fácil e até cômico temer o despertador. Para aquele que, após o almoço, resolve cochilar e de fato cochila, é fácil… sei lá, é fácil dissertar a respeito. É fácil desprezar ou idolatrar em prosa a pessoa amada, desde que você seja desejado.

 

Esta última frase parece, até para mim, que a compus, deslocada. Mas remete ao sentido geral destas linhas: como é bom falar sobre o sono quando se consegue dormir. Eu gostaria de escrever sobre a comprovada renovação mental proporcionada por um cochilo de meia hora. Ou sobre a aurora gloriosa que aguarda o cidadão que completa oito horas de sono. Mas se eu resolvesse falar sobre isso, como agora quase o faço, falaria sobre o fantasma chamado insônia. Falaria da angustia de acompanhar o relógio correr e se aproximar da hora marcada no despertador e eu ali, consciente e resignado,  já cansado de lamentar a falta de sono. Optaria certamente pelo testemunho ao invés da ficção que desconheço. Ou não lembro.

 

Ou melhor ainda: falarei de quando, enfim, durmo: sonhos intermináveis, odisséias sem sentido que não me deixam descansar. Coração acelerado, ansioso sabe-se lá por que, exatamente a pior ansiedade, esta que não tem objetivo.

 

Ou falarei sobre as mulheres que eu tive. Sobre as que desejo ter. Sobre qualquer problema que alguém possa ter, utilizando sarcasmo e desprezo. Escrevendo ficção baseado naquilo que eu desconheço; logo suponho, desprezo. Imagine minha frustração ao ler Ivan Lessa escrever isso: “Os políticos são mestres desta disciplina. Kennedy e Juscelino dormiam o tempo que bem entendiam na hora em que lhes desse na telha.” Você carece de mulheres? Eu sofro para dormir.

Sobre a arte de se enganar

In Lucas on Fevereiro 2, 2009 at 12:54 am

Eu queria falar do Obama. E do Lula. E mal de ambos. E falar mal desse pensamento coletivo, que tem a ver com os dois presidentes. E de tanta coisa que daria um post inteiro apenas listando essas coisas. Dois posts inteiros. Mas não consigo escrever um post inteiro sobre cada tópico. Eu enveredo por rumos estranhos; falo de sentimentos, das tristezas e esperanças vãs de começo de ano. Sei lá, basta uma nova data no calendário para as ilusões suprimirem as trágicas certezas, os desastres iminentes.

 

E assim saem essas auto-ajudas, na mais literal definição do termo. Eu me ajudo escrevendo. Eu me ajudo percebendo, porém ignorando, a qualidade sofrível do texto. Clico em “publicar” sem pestanejar. A necessidade de revisar e aprimorar as idéias é menor do que a necessidade de me iludir, de me ajudar. Produzir esse lixo que, nos meus devaneios, beira o sublime. Acredita?

 

Quem escreve mal como eu sabe: transformar pensamentos arredios em frases compostas é reconfortante. O bom texto possui duas etapas: captar as idéias e depois ordená-las. Da primeira etapa até saímos com certo êxito, mas na segunda enroscamos. Somos obrigados a finalizar de qualquer jeito, numa metodologia apressada e porca. Que se repete a cada novo post. Ou melhor, que se repete a cada momento de angústia, o momento exato desse escrivinhador de araque entrar em ação.

 

Assim chegamos, mal e porcamente, na reflexão desse texto: como é possível que o simples ato de criar um texto tão medonho possa amainar nossas aflições? Como é possível o autor se sentir bem diante de uma obra tão… sei lá, imatura? Pela lógica, deveria ser pior escrever. Acompanhe o raciocínio, bravo leitor: eu estou num mal momento, aflito. Começo a escrever. O texto não é bom. Eu almejo escrever bem. Deveria ficar triste, questionar Meu deus, será que nunca vou escrever direito? e então tentar dormir, ainda mais frustrado. Mas não: parece existir um mecanismo que bloqueia essa auto-avaliação. Tudo que se escreve parece lindo. No dia seguinte, se lido num momento bom, desses que intercalam a constante amargura, o texto se mostra medíocre. Menos mal que daí a frustração já não atinge com a mesma força que

 

Eu não sei explicar, e vou acabar assim mesmo o parágrafo. Samuel Beckett fazia isso por estilo. Eu faço por ser o exemplar de escritor descrito acima. Capturei as idéias, até consegui articulá-las, mas na hora do trabalho fino, do toque de estilo da edição, eu preciso parar. Eu sou o preto, o pobre e a puta da arte de escrever.