Busquei a mulher em sua casa. Era uma sexta-feira qualquer de 2008. Antes de sair, deixei tudo pronto: um colchão em frente ao (propositalmente?) desconfortável sofá. Na chegada, falaria: eu estava aí deitado. Os drinks previamente pensados, cada bagunça deliberadamente ambientada: sou um pouco artista plástico nessas horas. Penso que a moça vai perceber a harmonia entre os objetos e descobrir o belo entre a mobília.
Ao chegar, liguei a TV em qualquer canal, o volume baixo: o perfeito abajur para os amantes indiferentes. Deitados, buscando melhores carícias e toques mais ousados, ouço a notícia: morreu hoje o jornalista e escritor Fausto Wolff. Na hora ignorei, mas sabia que mais tarde sentiria. Fausto sempre teve fama de alcoólatra. Ouvia notícias a respeito de sua saúde debilitada. Porém, naquele momento, ignorei. Fausto Wolff era, e ainda é, menos importante do que qualquer mulher. (O que não é?)
Fui leitor incondicional de Fausto Wolff nos tempos do Pasquim 21, relançamento do clássico periódico de oposição ao regime militar. Até simpatizei com suas idéias comunistas por algum tempo. Mas o que realmente me encantava era a clareza do seu texto. As palavras fluíam de maneira incrível. Eu queria ser como Fausto Wolff: escrever de forma magistral e beber muito.
Mas Fausto ficou para trás. Tentei ler alguns de seus livros de ficção, mas não eram bons. Durante anos busquei textos e notícias sobre ele, mas sempre com pouco sucesso. Até que um dia desisti. Suspeitei que já estivesse morto. Além disso, percebi as falácias do pensamento socialista que ele fazia apologia. E me tornei o atual direitista desumano e intransigente. Eu esqueci e não procurei mais saber nada a respeito de Fausto Wolff ou de suas idéias.
Mas eu juro que constantemente um pensamento me assolava: ele vai morrer logo. Ele bebe demais. Ele é ranzinza demais. Ele está profundamente desiludido com o Lula. E ele morreu. Não abri os olhos. Não movi as mãos do lugar onde elas estavam. Não tive nenhuma reação, a não ser a já mencionada, aquilo que eu pensei: vou sentir isso mais tarde.
Por que escrevo sobre Fausto Wolff tão tarde, meses depois de seu falecimento? Não sei. Era uma dívida que eu tinha com o dono daquele texto perfeito? Talvez. Mas o que me fez lembrar de Fausto hoje foi uma história que ouvi: um velho que ficou doente após a morte do seu cão. Doente de saudade? Talvez. Mas o que mais dói é aquela velha constatação: qualquer morte nos diminui. A morte do cão nos faz pensar no tempo e nos diminui. A morte de Fausto, a agradável leitura semanal de outrora, me diminui. A simples lembrança da morte me diminui.
Apesar da irremediável melancolia, creio que Fausto Wolff, incorrigível mulherengo, ficaria satisfeito em saber que não larguei da mulher para lamentar sua partida. Meu coração saberia a hora de assimilar a perda: mais tarde, e em segredo.