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Archive for Março 2009

Vícios, caras novas e um lunático

In Comentário on Março 31, 2009 at 11:34 pm

Fumante brasileiro: devido à nova medida de incentivo à economia, você deverá pagar mais caro pelo cigarro que fuma. Com o corte do IPI dos materiais de construção, sobrou para o fumo. De algum lugar o governo precisa arrecadar. Não é a primeira vez que os fumantes pagam a conta. E não reclamam, culpados pelo vício e acuados pela opinião pública, de maioria não-fumante.

 

A desculpa do governo é absurdamente paradoxal: vamos aumentar a taxação do cigarro para que as pessoas fumem menos. Opa! Se as pessoas pararem de fumar, o governo não vai arrecadar o que pretende. Claro, eles sabem que ninguém vai parar de fumar por causa do aumento. Como sempre, os fumantes que sentem o reajuste migram para marcas mais baratas ou, pior, para o contrabando de cigarro paraguaio. A desculpa da questão de saúde pública não resiste à lógica.

 

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Há alguns dias dormi mal de novo. No Bom Dia Brasil, acompanhei a entrevista da ministra e já candidata à sucessão presidencial, Dilma Roussef. Falou banalidades, defendendo a construção de um milhão de casas populares prometidas pelo governo. Aquelas que o Lula disse: Farei, mas não me cobrem prazos! É o que eu falo a minha mãe: casarei, mas não me pergunte quando!

 

Tem gente que gosta de caras novas na política. Dilma é uma cara nova. Não uma pessoa nova na política, só a cara: está bastante modificada pelas intervenções plásticas. Nada contra, a cara é dela. Mas perdeu as expressões, as nuances que observamos no comportamento do rosto humano. Dilma arregala o olho, engrossa a voz, mas só fala bobagens. Esbanja uma confiança inexistente.

 

Porém, essa atitude parece intimidar alguns. Alexandre Garcia, sempre contundente, parecia pequeno diante da ministra. Não foi questionada, apenas discursou. Garcia até consentiu com algo que ela falou sobre a oposição. Estava à vontade, como nos palanques de inauguração de terraplanagens e estradas de terra. O que acontece antes, eu casar ou Lula erguer um milhão de casas? Se for um milhão de casas que respeitem um urbanismo básico, eu caso antes. 

 

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Escandalosa a prisão preventiva da proprietária da Daslu, Eliana Tranchesi. Ela foi condenada a 94 anos de prisão devido a esquemas de sonegação de impostos. Simplificando: peças importadas por 150 dólares declaradas a 20. É um crime, merece punição, multa, aquele susto. Mas, para efeito de comparação: o traficante Marcola, aquele bandido metido a intelectual, cumpre pena de 30 e poucos anos de prisão.

 

Não vou criticar aqui a severidade da pena. Isso é questão para juristas: repensar as punições de acordo com a gravidade do crime. O que eu posso comentar é a evidente caça aos ricos que acontece no país. Essa batalha ideologia aparelhou a justiça: como exemplo, o juiz Fausto de Sanctis e o delegado Protógenes Queiros, este um lunático. Querem fazer justiça social a todo custo. Querem resolver, atropelando os métodos legais, aquilo que ouvimos desde sempre: no Brasil, rico não é preso.

Eliana conseguiu um hábeas corpus. Por sorte é minoria quem usa artifícios legais para promover essa espécie de justiça social.

 

   

Outra morte me diminuiu. Mas nem tanto.

In Comentário on Março 19, 2009 at 9:31 pm

Pois é, Clodovil também morreu. E o que dizer? Difícil. Na parte que me toca, apenas aquilo que escrevi no último texto, sobre a morte do jornalista Fausto Wolff: toda morte me diminuiu. Qualquer morte escancara nossa condição nada perene. Além disso, apenas simples lembranças: morreu aquele cara extravagante porém carismático, das frases polêmicas porém inócuas, o qual encontrávamos por acaso, nos momentos ociosos ta tarde, ao fazer a rota dos canais de TV. Mas depois que o cortejo passar, o que fica de Clodovil?

 

Com todo respeito, pouca coisa, quase nada. Clodovil é o exemplo de alguns vícios da sociedade, do ser humano em geral. Representava mais do que ninguém o estereótipo do homossexual orgulhoso, assumido. Gritava, gesticulava, trejeitava, exagerando na sua arrogância. Será que sabia que era um personagem de si mesmo? Creio que sim, porque era uma mostra do ridículo chamado orgulho gay. Essa encenação teatral de algo que deveria ser natural, mas que preferem ser chocante. Só às minorias se concede o direito a essa expressão rebelde. Se alguém falar em orgulho heterossexual, ou orgulho branco, será, talvez justamente, taxado de machista e racista.

 

Outro fenômeno observado em Clodovil, talvez um dos mais graves, é o efeito colateral da liberdade de opinião. Não sou contra, óbvio. Mas perdemos as autoridades em determinados assuntos: pior, criamos um sistema de comunicação em que qualquer um opina sobre o que quiser, entendendo ou não. E nisso Clodovil era especialista: falar as mais diversas bobagens sobre o que lhe desse na telha. Suas súditas donas de casa ainda bradavam: “Esse sim fala o que pensa!”. Pena que seu pensamento era tão pobre.

 

E assim o nosso célebre rapaz foi à política: quarto deputado federal mais votado do Brasil. Já escrevi sobre isso, aqui no blog: é o trágico caso do voto avacalhado. Deputado federal? Sei lá, vou votar no Clodovil, ou no Enéas! Ambos figuras célebres, personagens do ridículo, doravante oficialmente levados a sério. Agora não mais, pois ambos já falecidos.

 

Não sei o que vai ficar de Clodovil. Desconheço sua contribuição à alta costura. Mas deve ser o único lugar onde talvez tenha sido relevante. Ademais, apenas colaborou para o medonho estereótipo do homossexual moderno e para a difusão de opiniões irrelevantes (com um disfarce polêmico, diga-se) nos meios de comunicação. Foi com certeza um expoente do nosso momento contemporâneo, onde um imbecil pode falar asneiras e ser levado a sério.

 

Sendo assim, será que um branquinho e machista do século 21 não consegue aproveitar essa realidade decadente e ser lido e levado a sério? É, no fim das contas quem sabe Clodovil me concerne mais do que eu imagino.