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Um Brás Cubas sem dotes implora compreensão

In Comentário on Maio 4, 2009 at 1:15 am

Na nova propaganda da Brahma, Ronaldo Nazário afirma que tudo o que conquistou foi com muito suor. Acredito que seja verdade. O que me faz escrever estas linhas, no entanto, é essa necessidade do ser humano (e o brasileiro notoriamente) de vangloriar-se das dificuldades superadas. E de ser aceito, considerado por isso. O cidadão que diz “tudo o que tenho conquistei com muito esforço” torna-se, nessa retórica perturbada, moralmente superior àquele que, como eu, não teve grandes dificuldades em suas conquistas.

Deve ser realmente interessante lutar e vencer, ter se dedicado muito e conquistado, etc. Também eu, em lapsos raros da minha herdada estabilidade, saboreei pequenas vitórias. Imensamente menos freqüentes que os fracassos, mas, admito, jubilosas. A diferença entre este cínico e os batalhadores é a de que não utilizo essas conquistas para justificar minha condição. E mais: a “sociedade” que eles tanto recriminam é quem nos força (nós, os mais favorecidos) a sermos competitivos, batalhadores. Fidalgos como eu, por diversas vezes, nos sentimos culpados, como se a herança de estabilidades (financeira, especialmente) fosse um fardo, um castigo. Honesto seria renegar o patrimônio e começar do zero, como os pobres fazem diariamente.

Fenômeno exemplar ocorre no caso do câncer de Dilma Rousseff. O PT, na sua célebre amoralidade, já começa a tirar proveito político da situação. Acreditam até que o percentual da pré-candidata deve subir nas próximas pesquisas. Por que? Porque o brasileiro, esse bicho incomum, enxerga valores superiores naqueles que enfrentam e superam barreiras na vida. Dilma é inexperiente e ex-comunista armada? É, mas ela venceu um câncer. Fica difícil encontrar uma lógica nisso. Mas é assim que as coisas funcionam: o batalhador se torna superior ao grã-fino preparado, letrado, que cometeu o escandaloso crime de ser sustentado pelo pai.

Por isso admiro tanto Brás Cubas, aquele defunto cínico que considerou, como ponto positivo da vida, nunca ter suado para ganhar seu sustento. Admiro Quincas Borba, o adorável amigo e filósofo maluco que não hesitava em legalizar moralmente as extravagâncias de Brás Cubas. Eu preciso desesperadamente de um Quincas Borba, Brás Cubas indolente que sou. Para me explicar seus tratados, justificar meus erros, consolar minhas angústias com sabedoria, método e loucura. Eu enxeria seus bolsos de dinheiro, seria meu guia exclusivo, e colheríamos então os frutos abundantes da minha fidalguia sem peso algum na consciência.

Pobre Paraguai

In Comentário on Abril 28, 2009 at 10:33 pm

Quando o novo presidente do Paraguai foi eleito, muito se comemorou a queda do partido que dominou o país por mais de meio século. Parecia uma luz que começava a brilhar: será que enfim o Paraguai sairia das trevas e rumaria ao desenvolvimento? Claro que apenas os incautos acreditaram nisso: as origens de Fernando Lugo e suas promessas de campanha já indicavam o pior. E agora, para escândalo da nação, três mulheres vieram a público informar que o presidente é pai de seus filhos. Um dos bastardos ele já assumiu, e o do caso mais grave: o que foi concebido enquanto Lugo ainda era bispo. Como confiar em alguém que copulou de batina?

 

Lugo foi eleito sustentando duas bandeiras: a revisão do contrato de Itaipu, o qual considera injusto (o Brasil estaria pagando muito pouco ao Paraguai) e a expulsão dos agricultores brasileiros das terras fronteiriças. A primeira questão é diplomática e de fácil resolução. E a perspectiva paraguaia é boa, conhecendo o perfil do Itamaraty, facilmente ludibriado, facilmente colocado em posição favorável ao querelante, especialmente quando a disputa é travada com um companheiro de ideologia.

 

Já a segunda é escandalosamente ilegal. Digna de intervenção militar. Intervenção do exercito brasileiro, já que cidadãos brasileiros são ameaçados no país vizinho. Os agricultores tupiniquins, responsáveis por boa parte da parca riqueza do país, são tratados como inimigos da nação, latifundiários gananciosos, algozes dos sem-terra paraguaios. Famílias há décadas estabelecidas no Paraguai correm o risco de perder tudo. O Itamaraty, ajoelhado, não faz nada.

 

O Brasil tem uma parcela de culpa pela miséria do vizinho: manter aberta a ponte da amizade, em Foz do Iguaçu. O local exige intervenção militar e ações políticas que acabem com o tráfico, a falsificação, a sonegação e os demais e diversos crimes que lá acontecem. É um antro de ilegalidade ignorado há décadas pelos dois países.

 

Poderia, assim, discorrer sobre a lastimável situação atual do Paraguai. Mas… atual? Desde sempre os vizinhos enfrentam um destino miserável. Quem afirma que o Paraguai pré-guerra do Paraguai era uma cornucópia mente. Era uma ditadura que, vá lá, foi cruelmente abolida. Desde então, o Paraguai consolidou-se como o mais miserável dos vizinhos, e então sinônimo de corrupção, picaretagem e falsificação. A guerra do Paraguai serve como excelente desculpa: era um país promissor, era o primeiro mundo na América do Sul. Mas a ganância imperialista temia essa potência emergente. Assim, os impérios acionaram seus acólitos para destruir o Paraguai. E por isso o país é hoje miserável.

 

E assim justifica-se a própria miséria e a história vergonhosa da maneira mais fácil: culpando terceiros. O Paraguai é digno de pena. Fernando Lugo, que acreditavam ser o redentor, apenas corrobora para a manutenção do estereótipo paraguaio.

 

Vícios, caras novas e um lunático

In Comentário on Março 31, 2009 at 11:34 pm

Fumante brasileiro: devido à nova medida de incentivo à economia, você deverá pagar mais caro pelo cigarro que fuma. Com o corte do IPI dos materiais de construção, sobrou para o fumo. De algum lugar o governo precisa arrecadar. Não é a primeira vez que os fumantes pagam a conta. E não reclamam, culpados pelo vício e acuados pela opinião pública, de maioria não-fumante.

 

A desculpa do governo é absurdamente paradoxal: vamos aumentar a taxação do cigarro para que as pessoas fumem menos. Opa! Se as pessoas pararem de fumar, o governo não vai arrecadar o que pretende. Claro, eles sabem que ninguém vai parar de fumar por causa do aumento. Como sempre, os fumantes que sentem o reajuste migram para marcas mais baratas ou, pior, para o contrabando de cigarro paraguaio. A desculpa da questão de saúde pública não resiste à lógica.

 

*

 

Há alguns dias dormi mal de novo. No Bom Dia Brasil, acompanhei a entrevista da ministra e já candidata à sucessão presidencial, Dilma Roussef. Falou banalidades, defendendo a construção de um milhão de casas populares prometidas pelo governo. Aquelas que o Lula disse: Farei, mas não me cobrem prazos! É o que eu falo a minha mãe: casarei, mas não me pergunte quando!

 

Tem gente que gosta de caras novas na política. Dilma é uma cara nova. Não uma pessoa nova na política, só a cara: está bastante modificada pelas intervenções plásticas. Nada contra, a cara é dela. Mas perdeu as expressões, as nuances que observamos no comportamento do rosto humano. Dilma arregala o olho, engrossa a voz, mas só fala bobagens. Esbanja uma confiança inexistente.

 

Porém, essa atitude parece intimidar alguns. Alexandre Garcia, sempre contundente, parecia pequeno diante da ministra. Não foi questionada, apenas discursou. Garcia até consentiu com algo que ela falou sobre a oposição. Estava à vontade, como nos palanques de inauguração de terraplanagens e estradas de terra. O que acontece antes, eu casar ou Lula erguer um milhão de casas? Se for um milhão de casas que respeitem um urbanismo básico, eu caso antes. 

 

*

 

Escandalosa a prisão preventiva da proprietária da Daslu, Eliana Tranchesi. Ela foi condenada a 94 anos de prisão devido a esquemas de sonegação de impostos. Simplificando: peças importadas por 150 dólares declaradas a 20. É um crime, merece punição, multa, aquele susto. Mas, para efeito de comparação: o traficante Marcola, aquele bandido metido a intelectual, cumpre pena de 30 e poucos anos de prisão.

 

Não vou criticar aqui a severidade da pena. Isso é questão para juristas: repensar as punições de acordo com a gravidade do crime. O que eu posso comentar é a evidente caça aos ricos que acontece no país. Essa batalha ideologia aparelhou a justiça: como exemplo, o juiz Fausto de Sanctis e o delegado Protógenes Queiros, este um lunático. Querem fazer justiça social a todo custo. Querem resolver, atropelando os métodos legais, aquilo que ouvimos desde sempre: no Brasil, rico não é preso.

Eliana conseguiu um hábeas corpus. Por sorte é minoria quem usa artifícios legais para promover essa espécie de justiça social.

 

   

Outra morte me diminuiu. Mas nem tanto.

In Comentário on Março 19, 2009 at 9:31 pm

Pois é, Clodovil também morreu. E o que dizer? Difícil. Na parte que me toca, apenas aquilo que escrevi no último texto, sobre a morte do jornalista Fausto Wolff: toda morte me diminuiu. Qualquer morte escancara nossa condição nada perene. Além disso, apenas simples lembranças: morreu aquele cara extravagante porém carismático, das frases polêmicas porém inócuas, o qual encontrávamos por acaso, nos momentos ociosos ta tarde, ao fazer a rota dos canais de TV. Mas depois que o cortejo passar, o que fica de Clodovil?

 

Com todo respeito, pouca coisa, quase nada. Clodovil é o exemplo de alguns vícios da sociedade, do ser humano em geral. Representava mais do que ninguém o estereótipo do homossexual orgulhoso, assumido. Gritava, gesticulava, trejeitava, exagerando na sua arrogância. Será que sabia que era um personagem de si mesmo? Creio que sim, porque era uma mostra do ridículo chamado orgulho gay. Essa encenação teatral de algo que deveria ser natural, mas que preferem ser chocante. Só às minorias se concede o direito a essa expressão rebelde. Se alguém falar em orgulho heterossexual, ou orgulho branco, será, talvez justamente, taxado de machista e racista.

 

Outro fenômeno observado em Clodovil, talvez um dos mais graves, é o efeito colateral da liberdade de opinião. Não sou contra, óbvio. Mas perdemos as autoridades em determinados assuntos: pior, criamos um sistema de comunicação em que qualquer um opina sobre o que quiser, entendendo ou não. E nisso Clodovil era especialista: falar as mais diversas bobagens sobre o que lhe desse na telha. Suas súditas donas de casa ainda bradavam: “Esse sim fala o que pensa!”. Pena que seu pensamento era tão pobre.

 

E assim o nosso célebre rapaz foi à política: quarto deputado federal mais votado do Brasil. Já escrevi sobre isso, aqui no blog: é o trágico caso do voto avacalhado. Deputado federal? Sei lá, vou votar no Clodovil, ou no Enéas! Ambos figuras célebres, personagens do ridículo, doravante oficialmente levados a sério. Agora não mais, pois ambos já falecidos.

 

Não sei o que vai ficar de Clodovil. Desconheço sua contribuição à alta costura. Mas deve ser o único lugar onde talvez tenha sido relevante. Ademais, apenas colaborou para o medonho estereótipo do homossexual moderno e para a difusão de opiniões irrelevantes (com um disfarce polêmico, diga-se) nos meios de comunicação. Foi com certeza um expoente do nosso momento contemporâneo, onde um imbecil pode falar asneiras e ser levado a sério.

 

Sendo assim, será que um branquinho e machista do século 21 não consegue aproveitar essa realidade decadente e ser lido e levado a sério? É, no fim das contas quem sabe Clodovil me concerne mais do que eu imagino.    

Supostamente diplomáticos

In Comentário on Fevereiro 16, 2009 at 10:04 pm

O episódio da brasileira espancada e ferida por neonazistas na Suíça escancara o quão medonha é a política externa do Brasil. Ponto e parágrafo.

 

O episódio da brasileira supostamente espancada e ferida por supostos neonazistas na Suíça escancara o quão medonha é a política externa do Brasil. Agora sim, podemos prosseguir. E olhe que ainda temo o uso dos “supostos”. Um cheiro de farsa emana dessa história de aborto dos gêmeos…

 

Mas vamos supor que realmente aconteceu: ela foi espancada e, em sua pele, fizeram cortes com perfeita simetria das iniciais do partido de extrema direita SVP (sempre eles, esses porcos direitistas…). Isso tudo na rua, nesses terrenos baldios cobertos de neve que abundam na Suíça. Depois ela se escondeu em um banheiro público e teve o aborto.

 

A situação é dramática, e falo sem ironia. Mas a reação brasileira foi estúpida. Deram contornos xenófobos ao episódio que, se comprovado, foi um fato isolado. É um erro acusar a Suíça de leniente e generalizar a idéia de um país que repele imigrantes.

 

Ademais, a recente biografia brasileira em questões externas torna o país suspeito em qualquer querela diplomática. Os exemplos são escandalosos. No Paraguai, agricultores de origem brasileira são o alvo principal dos sem-terra paraguaios, e o Itamaraty não faz nada. Por que não faz nada? Em função da identidade ideológica entre o PT e o presidente eleito, Fernando Lugo.

 

A identidade ideológica também foi responsável pelo caso de Cesare Battisti, o homicida italiano que ganhou o status de refugiado político no Brasil. Por que? Porque ele era militante de esquerda, terrorista. Tarso Genro, comovido, não permitiu a extradição do bandido: alegou que a justiça italiana faz perseguição política, e acolheu o companheiro.

 

O assunto parece chato, mas é assustador. Os exemplos da desastrosa política externa são infindáveis. Devolvemos os pugilistas fujões ao ditador Fidel Castro. Entregamos a preço de banana a Petrobras na Bolívia. Apoiamos os terroristas das FARCs e censuramos a Colômbia, única democracia envolvida no caso. Tudo, e tudo mesmo, de acordo com a nova ideologia que domina o continente.      

Um 2009 extremo pra você (ou, Nobres Veleidades)

In Comentário, Lucas on Janeiro 22, 2009 at 4:58 pm

Se eu pudesse desejar algo a você em 2009, diria o seguinte: que você seja uma pessoa ao extremo. Não extremamente alcoólatra ou extremamente abstêmio. Ou extremamente fiel ou extremamente promíscuo. Falo em sonhos, em perspectivas, falo especificamente nas promessas furadas do final de ano. Aquelas: em 2009 estudarei muito, serei compreensivo, vou amar minha mulher, entre outras bobagens. Já pensou se promessa realmente fosse dívida?

 

Enfim, o objetivo destas linhas é falar sobre modos, estilos de vida. E os extremos aos quais me refiro são esses: uma pessoa extremamente determinada, que eliminou a preguiça, a timidez, o medo e traça metas, objetivos. Uma pessoa que não apenas sonha, mas planeja essa realização. E o seu oposto: um completo indiferente. Sem perspectivas, sem planos, sem ilusões. Um barco à deriva. Um ser em permanente abstração, imune às agruras da vida. Desejo, sinceramente, que você seja um ou outro, para eu poder te admirar.

 

O determinado encontrará obstáculos, desilusões, mas fará o impossível para superá-los. Vai cair, vai usar a razão, refletir, erguer-se, lutar e invariavelmente vencer. É a aparente recompensa do universo para esse tipo de gente. Já o indiferente não vai se incomodar. O circo pegará fogo e ele estará deitado na grama, enxergando formas nas nuvens. Pra que lutar se ele não quer nada? Qual o sentido de correr tanto num mundo desesperadamente carente de sentidos?

 

Não sei qual dos dois é melhor. Mas sei qual é o pior: o meio-termo, ou seja, eu e você. Esse ser desprezível que, no dia 31 de dezembro de 2008, dormiu cheio de planos e acordou de ressaca, esquecido de tudo. Talvez tentou tornar o primeiro do ano um dia diferente, ou “o começo de uma nova vida”, como dizem. Mas o segundo do ano foi o limite da ilusão, e tudo voltou ao normal, à avassaladora rotina.

 

Somos assim, meio batalhadores, meio conformistas. Somos acometidos pelo mal do acomodamento: a mesma mulher, porque é cômodo, apesar de não suportá-la, o mesmo chefe, porque é cômodo, apesar de esganar-lhe em pensamento, o mesmo corpo, apesar de evitar o espelho, a mesma melancolia, os mesmos receios, a mesma vidinha.

 

Resumindo a idéia e o desejo deste escriba: que em 2009 você se aproxime de um dos extremos! Não importa qual: será nobre, admirado. É o ápice do individualismo, uma escolha sincera de vida, a rejeição da imbecilidade coletiva. Evidente que será impossível atingir os extremos, porque somos humanos. Desistimos ao presenciar obstáculos muito grandes, como aqueles cavalos nas olimpíadas. Ao mesmo tempo, nos preocupamos com picuinhas insignificantes, que nos tiram o sono e a fome. Mas essa jornada, essa busca pelo extremo já será um grande feito. Ou então esqueça tudo e permaneça ao meu lado, nessa vida de atroz meio-termo: lutando, mas logo desistindo; aparentemente indiferente, mas com remorsos e rancores devidamente escondidos no coração.          

Joaçaba se aproxima

In Comentário, Lucas on Janeiro 22, 2009 at 4:51 pm

Joaçaba insiste em aparecer. Sabe aquela ex-celebridade que precisa estar na mídia? Que a qualquer custo luta para sair do limbo, do esquecimento? Agora imagine como se sente esta Joaçaba, algo que nunca passou de uma promessa. Viu Chapecó, viu Concórdia, viu Lages crescer e permaneceu nanica como as inúmeras cidades vizinhas. E hoje, pobre Joaçaba, não se conforma diante da dura realidade da insignificância regional.

 

Poderia ser esta biografia frustrante a explicação para Joaçaba insistir em aparecer! Veja o leitor que feito o município está prestes a realizar: erguer uma estatua gigante, a quinta maior do mundo! Joaçaba quer virar notícia a todo custo. A propósito, viram o que aconteceu em Aracaju? A maior árvore de natal do mundo desabou e matou três operários. Não creio que a estátua do Frei vá cair. E eu também não sou contra a construção de estátuas. Mas é um motivo vão de orgulho. É uma oponente futilidade que será exaltada como um grande feito. Por que Joaçaba não tenta ser o município mais alfabetizado? Ou o menos corrupto? Por que mantém casas erigidas sobre o Rio do Peixe (Morto)? Por que não soluciona o problema do seu trânsito caótico? Não basta emular o desfile de Carnaval do Rio: agora Joaçaba quer imitar o Cristo Redentor, no topo de um dos barrancos que a cercam.

 

Eu e o resto do Brasil ouvimos falar em Joaçaba duas vezes neste século. A primeira, uma disputa avarenta entre dois amigos: sete milhões não bastavam para cada um. Queriam tudo, e deixar o outro sem nada. Hoje, já não são mais apenas os dois que querem um pedaço deste bolo da discórdia… Mas isso não vem ao caso.

Há alguns dias, o fato espantoso do estupro: uma menina de quinze anos, embriagada, foi estuprada por três rapazes. Eles filmaram o ato, que caiu na rede e virou notícia em todo o país. Assisti a reportagem da Globo no Youtube. Por acaso, desci a página e li, horrorizado, os comentários dos internautas. Pasme, leitor: a maioria censura a garota: quem mandou beber tanto, onde estavam os pais, bem feito, e demais absurdos do gênero. Falsos moralistas, tentando justificar um crime medonho em função de um comportamento inadequado.

 

Por que Joaçaba não pode ser como a minha São Miguel do Oeste? Lá, há 20 e poucos anos, nasceram os quíntuplos. Quem nunca viu os quíntuplos de São Miguel num calendário do comércio? Hoje eles estão esquecidos, assim como São Miguel. Mas permanecemos felizes no nosso anonimato. Os quíntuplos estão felizes no anonimato. Nem são mais percebidos na rua. Se fossem nascidos em Joaçaba aposto que os quíntuplos também reivindicariam fama eterna. Quem seguraria o Jacksons Five do oeste?

 

Quando a história do estupro apareceu na mídia, alguém me perguntou se não era a cidade do meu pai. Sim, é a cidade do meu pai, respondi envergonhado. Eu gostaria que apenas três coisas tivessem acontecido em 2008: que eu ganhasse dinheiro, que John McCain fosse eleito presidente dos EUA e que meu pai fosse trabalhar em Chapecó. Mas nada disso aconteceu. Sendo assim, resignado e com alguns trocados no bolso, vou visitar o meu pai. Começo a sentir calafrios assim que vejo Luzerna pelo retrovisor: Joaçaba se aproxima.  

 

 

 

 

 

 

Desculpas, inflação e um funeral

In Comentário, Lucas on Junho 30, 2008 at 6:03 pm

Primeiramente, um breve registro de desculpas. Acompanho as estatísticas deste blog e percebo que existe um e outro leitor fiel. E alguns perdidos que me encontram pelo google, por acaso, por divina providência, sei lá. Não se preocupe, o blog não identifica o leitor, mas apenas a quantidade. A estes bravos peço desculpas pelo descaso, pela falta de atualizações freqüentes como no passado. Sou como a amante que conquista e seduz e depois, ingrata, ignora. Mas vamos aos fatos que realmente interessam.

 

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Que perigo corre o presidente Lula! Pesquisa Ibope apontou hoje a preocupação da população com o aumento da inflação. E é sabido que o governo permanece imune aos inúmeros escândalos única e exclusivamente em função do bom desempenho da economia. Espero que a ameaça seja passageira, ou que, na pior das hipóteses, a inflação permaneça tolerável. Torço contra Lula, mas, entre ele e meu bolso, fico com os meus trocados.

 

*

 

Morreu a ex-primeira dama Ruth Cardoso. Uma mulher respeitada no meio político e acadêmico, idealizadora de programas sociais como o Comunidade Solidária. A diferença principal da concepção social de Ruth em relação aos atuais programas sociais é a busca de recursos, independentemente da benevolência estatal: praga que atualmente gera a explosão das ONGs no Brasil. Ruth, com seu estilo reservado, também criticava as políticas sociais medonhas que o PT criou.

 

Um detalhe do velório de Ruth Cardoso que chamou a atenção da imprensa foi o caloroso abraço entre Lula e FHC, inconsolável. Entende-se o afeto do atual presidente para com o seu predecessor. Se não era sincero, era político, importante, estava dentro de suas funções. Mas o que dizer da presença de Dilma Rousseff, que dias antes organizou a montagem de um dossiê sobre os gastos do casal? Concordo com aqueles que acharam sua presença inconveniente. Existe o jogo político, as intrigas que são, digamos, toleráveis. Mas Dilma ultrapassou os limites do tolerável. Lula talvez tenha autorizado a montagem do dossiê? Pode ser, não se sabe. Dilma ordenou a montagem do dossiê? Sim, é fato.

Ideologia e gritaria, no mato e na roça

In Comentário, Lucas on Maio 29, 2008 at 9:19 pm

Dessa vez não são apenas os ufanistas. Vários políticos e comentaristas do país exaltam sua preocupação com ameaça da soberania nacional; querem nos tomar a floresta amazônica. A imprensa internacional questiona a capacidade brasileira de proteger a floresta. O jornal britânico The Independet afirmou que a Amazônia é muito importante para ficar sob controle dos brasileiros. A gritaria foi enorme. Lula, como de costume, usou o batido argumento: eles, os paises ricos, já destruíram suas florestas e agora querem cuidar da nossa.

 

Existe muita especulação, tanto dos que defendem um controle externo quanto dos áulicos da soberania. Mas sejamos honestos: o Brasil não mostra capacidade alguma para controlar a floresta amazônica. Fatos recentes como a tentativa do governo da demarcação contínua da reserva Raposa Serra do Sol demonstram isso: o Brasil trata de maneira amadora e ideológica a questão ambiental.

 

Então o que fazer, cercar a Amazônia e proibir todos os não-índios de ficarem lá? Seria o ideal para ONGs e ambientalistas regozijarem. Mas o que falta na Amazônia é capitalismo. É o exercito nas fronteiras. É uma exploração responsável, controlada, regulamentada. Enquanto a região for tratada como intocável teremos a ilegalidade, a desordem, o crime.

 

Podemos fazer uma analogia com os canaviais. O Brasil é destaque mundial na produção de etanol. Mas no campo, especialmente nas plantações de cana-de-açúcar, o amadorismo e a ideologia proletária impedem a profissionalização dos trabalhadores. Por que a analogia? Há alguns dias, economistas internacionais culparam o aumento das plantações de cana pela alta dos alimentos. A resposta brasileira foi uma gritaria justificável, já que a acusação era injusta. Ontem a Anistia Internacional denunciou a existência de regimes de escravidão nos canaviais brasileiros. Os ufanistas interpretarão como outra ofensiva contra o nosso etanol.

 

Não seria melhor um esforço para profissionalizar esse setor? Regularizar os trabalhadores rurais, acabar com os bóias-frias e com as jornadas de 12 horas de trabalho diário, criar convênios com as indústrias de etanol. Li há alguns dias uma reportagem sobre um casal de sem-terras que, devidamente assentados, começaram a plantar cana e vender para uma cooperativa. O Incra expulsou-os da propriedade, alegando que a terra da reforma agrária deve ser usada para a subsistência, não como instrumento capitalista.

 

No Brasil, o problema ideológico que derruba o mato também enfraquece a roça.

Esclarecendo o que representou a luta armada

In Comentário, Lucas, Uncategorized on Maio 19, 2008 at 7:23 pm

A Folha de São Paulo de hoje trás artigo esclarecedor do professor de história da UFSCar, Marco Antônio Villa. Emblemático pela clareza dos argumentos e pela coragem de ser uma voz dissonante no meio acadêmico nacional. Villa simplesmente relata os fatos sem a ótica ideológica que hoje, além de dominar as universidades, governa o país. Segue o começo do texto:

 

A LUTA armada, de tempos em tempos, reaparece no noticiário. Nos últimos anos, foi se consolidando uma versão da história de que os guerrilheiros combateram a ditadura em defesa da liberdade. Os militares teriam voltado para os quartéis graças às suas heróicas ações. Em um país sem memória, é muito fácil reescrever a história. É urgente enfrentarmos essa falácia. A luta armada não passou de ações isoladas de assaltos a bancos, seqüestros, ataques a instalações militares e só. Apoio popular? Nenhum. O regime militar acabou por outras razões.

 

Eis o ponto principal do texto: os movimentos reacionários não lutavam pela liberdade, pela democracia: lutavam, como define Villa, pela “ditadura do proletariado”. Não almejavam um ambiente democrático, o qual se alcançou devido à resistência popular, intelectual e política, como lembra o professor:

 

Conceder-lhes o estatuto histórico de principais responsáveis pela derrocada do regime militar é um absurdo. A luta pela democracia foi travada nos bairros pelos movimentos populares, na defesa da anistia, no movimento estudantil e nos sindicatos. Teve na Igreja Católica um importante aliado, assim como entre os intelectuais, que protestaram contra a censura. E o MDB, nada fez? E seus militantes e parlamentares que foram perseguidos? E os cassados?

Villa resume a situação ao lembrar que, na época, tanto os militares quanto os militantes da luta armada eram inimigos da democracia: uns à direita, outros à esquerda. Hoje, com a ascensão ao poder, os antigos guerrilheiros exaltam sua luta, mas omitem a real intenção da luta armada (a utopia socialista). Recebem indenizações pelas perseguições que sofreram, o que pode parecer justo, mas não é: eles recorreram às armas, à luta, e perderam. Foi uma opção, como sempre lembra bem Reinaldo Azevedo, em seu blog no site veja.com. Nossos verdadeiros heróis resistiram, debateram, atuaram na política de oposição.

 

Marco Antonio Villa encerra o artigo falando sobre as indenizações e sobre a necessidade da abertura dos arquivos do regime militar, coisa que o governo refuta. E conclui:

 

Enfim, precisamos romper os tabus construídos nas últimas quatro décadas: criticar a luta armada não é apoiar a tortura, assim como atacar a selvagem repressão do regime militar não é defender o terrorismo.

 

Texto completo para assinantes da Folha e do UOL:

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz1905200808.htm

 

 

Os presos também exigem

In Comentário, Lucas on Maio 14, 2008 at 1:00 am

Vivemos dias perigosos. Vejam o caso da morte de Isabella Nardoni. O fato: a barbárie cometida pelo pai e pela madrasta (ou alguém ainda duvida de que foram eles?). Conforme a investigação avançava, era natural de se esperar a comoção e a reação pública. É inerente ao ser humano sentir dó, enxergar a covardia, o mal, e manifestar revolta, cobrar punição aos culpados. Pronto, a introdução termina aqui. Vamos ao motivo destas linhas.

 

Já é rotineiro ouvir a seguinte frase nos telejornais: “o suspeito foi transferido porque os detentos não queriam sua presença no presídio”. O que pensamos num momento desses? Talvez até pareça natural: a população está revoltada com o crime, exige punição. A massa carcerária também, já que nem todos cometeram crimes hediondos, já que também ficam revoltados com crimes de tamanha maldade.

 

O problema é essa justiça com as próprias mãos que os presos ameaçam cometer. Nossos presídios são tão inseguros que manter Alexandre Nardoni próximo aos demais detentos é temeroso. Mesmo se mantido isolado, os presos exigem que ele não permaneça na mesma penitenciaria. Exigem? É, aqui está o foco deste texto. Qual é o direito dos infratores de exigir quem pode ou não permanecer no seu local de confinamento?

 

Tudo bem, sejamos compreensivos: eu também odiaria dividir o presídio com ele. É natural que o crime de Alexandre é pior, mais cruel que o dos demais. Mas quando a justificativa para transferir um detento é a de que os demais presos exigiram… bem, daí temos a certeza de que há algo errado. Chegaríamos ao limite de criar uma prisão para parricidas e infanticidas? Tudo bem, quanto mais presídios melhor. Mas, enquanto isso, é fundamental que os encarcerados não se esqueçam: numa nação justa, todos os caminhos do crime devem levar ao xilindró. Conviver próximo a Alexandre Nardoni ou Anna Carolina Jatobá é também uma conseqüência dos erros cometidos. Resumindo, não estão em posição de fazer exigências.         

O companheiro Dirceu explica

In Comentário, Lucas on Maio 9, 2008 at 8:06 pm

Quase inacreditável as bobagens que José Dirceu escreve em seu blog. Quanto cinismo e hipocrisia, minha gente! Separei um trecho apenas: vejam como ele desqualifica o fato de um funcionário da Casa Civil ter vazado informações à oposição:

 

Parece-me, assim, totalmente inverossímil que um petista histórico como a imprensa registra, envie para um senador da oposição, via um assessor, documento com dados que seriam usados contra o governo e seu partido, como o foi durante esses dois últimos meses em campanha da mídia e da oposição sobre o chamado “dossiê” e o uso dos cartões corporativos.

 

Deixemos de lado a má colocação das virgulas e os períodos quilométricos. De lado também a costumeira crítica à “mídia”. Bem mais grave que isso é a tentativa amadora de esconder a real intenção do arquivo enviado à oposição. Por que será que um “petista histórico” enviaria um dossiê para um tucano? Ora, para realizar a chantagem! Para o dossiê servir ao seu fim: intimidar.

 

Mas tudo bem, já conhecemos a malandragem petista. Mesmo assim podemos confrontar a afirmação de Dirceu com o resultado da perícia dos computadores. Vem comigo: é fato que o e-mail com o dossiê em anexo partiu da Casa Civil, do computador de José Aparecido Nunes Pires. Se não foi intenção do PT intimidar a oposição, por que enviá-lo ao senador tucano? José Aparecido agiu por conta própria, sem a intenção da chantagem?

 

Então concluímos: José Aparecido Nunes Pires não é um companheiro! Eu que sou.  

Blog do rapaz: http://www.zedirceu.com.br/

Dossiê: uma previsão quase lógica

In Comentário, Lucas on Maio 9, 2008 at 1:47 pm

A revista Veja denunciou um dossiê elaborado pela Casa Civil. Tratava-se de uma compilação de gastos duvidosos do governo FHC, todos debitados em cartões corporativos. O objetivo do dossiê era intimidar a oposição, que aumentava a pressão pela transparência dos gastos do presidente Lula.

 

O governo arrumou várias desculpas. O ministro Tarso Genro, num raciocínio que remonta ao stalinismo, considerou normal reunir dados sigilosos de adversários. O problema, segundo ele e o Planalto, teria sido a divulgação, ou o vazamento dos dados para a imprensa.

 

Já se desconfiava do motivo da feitura do dossiê: chantagem para dissuadir a onda investigativa da oposição. Dilma Rousseff também, sempre negou. Ela e seus mascates faziam chacota das investidas da oposição. Ontem a perícia revelou quem vazou a informação. É um rapaz nomeado por José Dirceu quando este ainda comandava a Casa Civil. Seu nome: José Aparecido Nunes Pires. Ele enviou o arquivo, por e-mail, a um amigo, assessor do senador tucano Álvaro Dias. Álvaro, então, comunicou aos repórteres.

 

Um dia antes da divulgação dos peritos, Dilma foi ovacionada pelos seus ao rebater uma questão infeliz do senador democrata Agripino Maia. Ele questionou e ela falou sobre o tempo de luta contra a ditadura, torturas que sofreu, e a base aliada ficou comovida. Conseguiu tirar o foca da questão do dossiê. Lula, claro, comemorou muito a performance.

 

Porém, 24 horas após este suposto sucesso, foi anunciado o que já se desconfiava: o vazamento do dossiê partiu de um computador da Casa Civil. Dilma sempre negou a execução de um dossiê como contrapartida às investidas da oposição, inclusive em seu louvado discurso do dia anterior à revelação.

 

Existem várias teorias. Dizem que o PT está dividido em torno do nome de Dilma para a sucessão de Lula. Assim, existiriam companheiros buscando comprometer a ministra e afastá-la da preferência de Lula. São hipóteses. Serão desvendadas. A oposição vai continuar insistindo na questão: quem ordenou a elaboração do dossiê? José Aparecido Nunes Pires vai falar algo, cedo ou tarde. Será queimado pelo governo, punido? Será? O governo não teme represálias deste homem que parece saber muito?

 

Minha aposta, mera especulação, é a seguinte: este episódio vai derrubar Dilma. Sei que não é uma revelação, um raciocínio extraordinário, pois já existe esta previsão há algum tempo. O problema maior é o seguinte: se Dilma cair, quem assume o posto de pré-candidato petista para 2010? Claro que é cedo, mas não existe nome algum. E então meus amigos, um fantasma assombra a democracia nacional: o terceiro mandato.

 

É culpa da Ideli

In Comentário, Lucas on Maio 8, 2008 at 2:53 pm

Essa senhora desperta em mim os sentimentos mais torpes, obscuros. Aquelas coisas que a gente reprime mas, do nada, alguém desperta.

Ideli Salvatti subiu agora à tribuna do Senado para defender um projeto de lei que inclui as disciplinas de Filosofia e Sociologia no ensino médio. “Preciso defender isso, como professora que sou”, bradou.

É evidente que o discurso aparentemente inocente da senadora esconde um desejo ardente: o estudo ideologizado da filosofia e da sociologia. A gente sabe a formação comunista da maioria dos professores. As escolas ja estão aparelhadas há tempos por magistrados formados na ideologia marxista. Ideli Salvatti e os seus buscam mais algumas horas-aula para se falar exclusivamente sobre a opressão capitalista e a era do proletariado. Uma bobagem há anos sepultada e que só encontra ainda discípulos na América do Sul. Ideli sabe que dessas aulas surgirão novos companheiros.

A escola precisa de mais gramática. Matemática. Deixe que as faculdades continuam encarregadas de formar comunistas. Livrem os adolescentes do discurso ideológico, que já circula desde sempre nas aulas de história. Duvida? Peça a um donzel o que ele pensa dos “estadunidenses”.

Ideli me dá engulhos. Que se acelere a CPI das ONGs, pois não tenho dúvidas de que ela vai enroscar. Vejam o que sua arrogância e “ignorância audaciosa” (Mão Santa) provocam: voltei a escrever.   

Vivendo um novo estilo

In Comentário, Lucas on Fevereiro 12, 2008 at 8:25 am

Há alguns dias postei um texto sobre custos e benefícios. Acredito que nossas escolhas precisam ser medidas por essa escala de vantagens e desvantagens. Até aí nenhuma novidade. Porém, citei o caso do álcool e do tabaco. Até a dose exagerada, em determinados momentos, é aconselhável. Não sou médico mas vos prescrevo. 

Retorno ao tema para citar mais um exemplo que havia esquecido: as prostitutas. Abandonadas pelo Estado e mal vistas pelas senhoras de respeito, muitas vezes nos esquecemos dos benefícios que essas mulheres oferecem. Nem todos os homens estão em condições de iniciar uma vida amorosa. Alguns traem, mas muitos foram traídos. Outros abandonados. Outros, severamente punidos pela natureza, não encontram opção. Mas ela existe (a opção) para os desafortunados: a zona. 

Não pretendo escrever uma ode às prostitutas. É um simples reconhecimento. E como nada é por acaso, também pretendo usá-las; não para o prazer ou alento. Não desta vez. Relendo o post acima citado, percebi uma maneira de escrever que é deveras difícil de classificar. Um estilo de expor idéias que creio não possuir uma classificação oficial. Explico. 

Ao falar das vantagens do alcool posso fazer apologia da bebida. O bom leitor perceberá que não é bem o que acontece. Ou falando das prostitutas, posso parecer um freqüentador de bordéis. Também não é (e não é mesmo!). Nesse ponto, pode parecer então uma dose de ironia: se não concordo integralmente com o que escrevo, tento repassar minha opinião afirmando o contrário. Também não é. 

Percebam a ambigüidade do conteúdo. Nada naquele texto é absoluto. Pareço estar em cima do muro, mas não estou indeciso. Pareço bater, mas ao mesmo tempo afago. Pareço panfletar, fazer apologia, proselitismo, mas na verdade apenas presto algum reconhecimento ao vício, ao pecado, à vida pregressa. Tento mostrar, quase sem querer, que assim como na medicina, na linguagem escrita o antídoto também pode estar na quantidade de veneno que você aplica. Acho que é mais ou menos isso.

Desiludidos: compactuar ou reagir?

In Comentário, Lucas on Fevereiro 9, 2008 at 10:21 am

Quando Lula assumiu a presidência, em 2002, lembro do dilema do jornal de esquerda O Pasquim: como fazer humor e jornalismo a favor? Era uma questão pertinente. Subitamente perderam o rumo: como seriam oposição de seus companheiros de ideologia, de luta contra a ditadura?

Não era apenas uma questão de posicionamento, de postura: o jornal, que vendia bem, desapareceu. Talvez mais por vontade dos articulistas do que pela falta de leitores. Eles perceberam que o panfletismo que tomou conta daquelas páginas outrora reacionárias não era mais característico de um pasquim.  

E então o que fizeram? Não só os citados jornalistas, mas toda a classe, criada na ideologia canhota e admiradores da esquerda brasileira? Alguns, até hoje, continuam apoiando o governo, apesar dos pesares notórios. Não abandonaram antigas convicções e antigas amizades. Outros, desiludidos porém conscientes, tornaram-se oposição dos antigos aliados. Renegados e supostamente golpistas, permaneceram firmes na idéia de que imprensa é oposição. E ponto.  

É realmente frustrante sustentar uma idéia durante toda a vida e ver isso tornar-se desilusão. É pior do que uma traição. Era aquilo que você acreditava como solução das mazelas mostrar-se errado, sujo, incompetente, corrupto. E então os jornalistas, que não sabiam se apoiavam o esperado Lula no início de seu mandato, aos poucos encontraram um novo dilema: assumir que o sonho era falso ou continuar acreditando na prometida revolução? 

Compreendo em parte o atordoamento da classe. Mas não compactuo do seu drama. Erraram a vida inteira praguejando os rumos que FHC, por exemplo, dava ao país. Hoje percebem que era aquilo mesmo, tanto que é nessa continuidade que o PT acerta (privatizações e economia, por exemplo). É preciso abandonar a cartilha socialista que insistem em carregar a tira-colo. Não se pode mais admirar Hugo Chávez: o sonho acabou, mas a vida e a profissão continuam aqui, do outro lado.        

Os gastos de Matilde Ribeiro: nenhuma surpresa

In Comentário, Lucas on Janeiro 29, 2008 at 1:18 pm

Matilde Ribeiro, ministra da Secretaria Especial de Política da Promoção da Igualdade Racial (Seppir), apareceu novamente no noticiário. Na primeira vez, há alguns meses, ela saiu com essa infeliz declaração: “A reação de um negro de não querer conviver com um branco, eu acho uma reação natural. Quem foi açoitado a vida inteira não tem obrigação de gostar de quem o açoitou”.

 Na semana passada, ela voltou a aparecer. Foram divulgados seus gastos com o cartão de credito corporativo, uma mamata fornecida ao alto escalão do governo para custear despesas. Ela é a campeã do ranking dos gastos: 171 mil e quinhentos reais no ano passado. Não é necessário explicar aqui quem pagou essa conta. Confira aonde ela gastou (fonte: Veja): 

126 000 reais: aluguel de carros;
35 700 reais: hotéis e resorts;
4 500 reais: bares, restaurantes e padaria;
460 reais: free shop;
4 800 reais: despesas diversas.

Se vivêssemos num país sério, esta senhora já estaria longe do governo. Na verdade ela não deveria nem mesmo pertencer ao quadros do governo: seu ministério é inútil. Além de não acrescentar nada, estorva, no sentido de fazer proselitismo de um “racismo invertido”. O exemplo extremo é a famosa declaração de Matilde, quando afirmou também que “não é racismo quando um negro se insurge contra um branco”. A tal Seppir ainda trabalha a favor de retrocessos como as cotas nas universidades públicas e apoio a ONGs obscuras (assunto de um post futuro). 

Por incrível que pareça, ela não caiu com toda repercussão de sua declaração. Lula manteve-a no ministério. Creio que a divulgação de seus gastos extravagantes não deveria surpreender: ela já havia demonstrado seu caráter no episódio anterior. Lula errou ao mantê-la no cargo. E continua errando, já que nada indica de que ela será afastada dessa vez.

Creio que o afastamento seja pouco. Essa divida tem de ser ressarcida aos cofres públicos. Aluguel de carro, com a mesma empresa? 126 mil reais no crédito. Resort de luxo? 35 mil no débito. Barzinho da boemia carioca? 4 mil, no crédito? No débito? Tanto faz. E uma tetinha no governo Lula? Não tem preço.

O Santo Judas

In Comentário, Lucas on Janeiro 21, 2008 at 11:22 pm

A reflexão que segue abaixo não é nenhuma novidade. Mas deveria ser obrigatória em algum momento da vida de cada cristão. Seguem duas fontes do mesmo tema, depois comento.

No filme A última tentação de Cristo, de Martin Scorcese, Jesus é um rapaz perturbado e inseguro. Já Judas é forte e convicto. No filme, ao contrário do que conta a bíblia, Jesus PEDE, INSISTE para que Judas o traia. Seria o necessário para realizar-se o plano divino: Jesus morre na cruz e redime a humanidade de seus pecados. 

No livro Ficções, de Jorge Luis Borges, um dos contos é dedicado a Judas e ao mesmo raciocínio: ele teria traído Jesus sabendo da necessidade. Borges vai além: Judas estaria no inferno deliberadamente. Assim, Jesus morreu com glórias e foi para o céu. Ele, Judas, o verdadeiro protagonista da redenção, pagava no inferno o preço da traição deliberada. Parte da mais bela ficção já escrita na América Latina. Mas também essa perspectiva, da traição deliberada de Judas e suas conseqüências, até que ponto pode ser tratada como ficção? Ainda: para quem não crê, toda a bíblia é ficção? 

A causa e a conseqüência da crucificação merecem essa análise histórica. Para os crentes, parecem ter sido parcialmente reveladas com a suposta e recente descoberta do Evangelho de Judas. Será que a história central do Cristianismo, a morte de Cristo, seria resultado de uma simples traição motivada pela avareza? E o plano divino de enviar seu filho para salvar a humanidade? Se não fosse Judas, como Jesus teria morrido? Idoso? 

É obvio que qualquer religião é sustentada por dogmas fundamentados na fé. É impossível testar, através da lógica, as histórias contadas na bíblia. São inúmeras contradições e eventos inverossímeis. E entre todos, o episódio da traição de Judas é o mais descabido. 

Fica evidente que é uma parte do evangelho muito mal explicada. Judas é injustiçado até hoje: seu nome é sinônimo de traidor. O cristão há de convir que Judas foi peça fundamental no destino de Cristo. Do jeito que é relatada, fora uma traição planejada, ou por vontade divina revelada, ou a pedido do próprio Jesus.  

Certa vez vi uma matéria sobre esculturas sacras. Umas delas fora parcialmente destruída: a de Judas, furada à bala. Era o fiel querendo vingança. Judas recebeu a missão mais ingrata da história da humanidade: trair seu mestre, o messias, e carregar a sina de traidor mesmo depois de séculos, milênios. Não seria Judas o verdadeiro santo dessa história?   

A relação custo/benefício

In Comentário, Lucas on Janeiro 17, 2008 at 12:27 pm

O custo/benefício é a base do capitalismo. Produzir a certo preço, vender mais caro para obter lucro, negociar, a concorrência, até o consumidor final: este escolherá, de acordo com o preço, de acordo com as vantagens. Você paga por bens e serviços calculando seus futuros benefícios. 

Mas não é apenas a relação comercial que utiliza esse princípio. Esse é o princípio da vida. É assim, pensando no preço e nas conseqüências dos seus atos, que os homens trilham caminhos. É uma relação óbvia, natural. É aqui que o socialismo erra (e em todos seus demais conceitos): considerar as pessoas iguais, detentoras das mesmas ambições. E o custo/benefício que a vida cobra, onde fica nesse regime? A aplicação utópica do comunismo ocasionaria seres humanos de ambições reprimidas, nulas. Você seria obrigado a ser ordinário, medíocre. No capitalismo você pode ser um comum também. Mas existe a chance, as oportunidades de ambicionar algo.    

*** 

Sem mais divagações, este texto analisa outro tipo de custo/benefício: as bebidas alcoólicas e o cigarro. É inegável o prazer que oferecem. Também é certo que causam males à saúde. Porém, numa dosagem que não chegue ao vício e à dependência, são benéficos ao homem. Eliminam o estresse, acalmam a ansiedade, tornam possíveis contatos sociais e relações amorosas, etc. 

Não estou sendo irônico. Tenho a convicção de que o custo/benefício das bebidas, por exemplo, pode ser positivo. O primeiro exemplo que me surge: quantas vezes ouvimos falar que o alcoolismo acabou com matrimônios? É verdade, isso acontece. Mas quantas vezes calculamos quantos casamentos são tolerados em função da leve embriagues, do prazer do tabaco, do copo companheiro, dos amigos de bar? Isso não faz bem à saúde também? O benefício (prazer) não compensa o custo (malefícios à saúde e gasto financeiro)? Ser alcoólatra é um problema. Mas o abstêmio é, no mínimo, uma pessoa que nega a si mesma um benefício.

O retorno da oposição

In Comentário, Lucas on Janeiro 16, 2008 at 12:49 am

Os Democratas, ou DEM, vêm salvando a democracia nacional. Apoiados pelos minguados rebeldes do PSOL e pelo PSDB, que aos poucos acorda, lideram a oposição ao governo Lula. Ninguém consegue explicar por que só agora essa oposição reapareceu no cenário político. Sua volta e prova definitiva de força foi, no final do ano, a queda da CPMF. A maior derrota política do presidente Lula.

Conhecemos os políticos. O senso-comum nos ensina que são todos corruptos, vagabundos, não importa o lado em que estão. E é verdade, política é isso mesmo. Então porque afirmar que o DEM salva a nossa democracia? Simplesmente porque não existe democracia sem oposição. 

O PT sabe disso, já que sempre foi uma oposição feroz. O problema é que o PT é formado no ideário socialista: acreditam que existe uma vontade popular, da massa, que seria representada por eles, pelo partido. Mas como aqui não é a Venezuela, foi necessário adaptar o discurso e as ações. Por isso você ouve Lula dizendo que “tem gente que torce contra o Brasil, que a oposição quer voltar ao poder e por isso vota contra tudo”. Sim, ele acredita representar a vontade do povo. É o espírito comunista que insiste em se manifestar, roto mas ainda audível na América Latina e em alguns grotões da Ásia. 

E a oposição parece ter acreditado que se opor a Lula era errado, era contra os interesses da nação. A oposição precisa estar consciente de que o interesse do país é a reforma tributária, é auxílio social e não doação de recursos, é desoneração, é flexibilidade do Estado, é redução e controle do gasto público. É fundamental se opor, questionar, investigar, ainda mais por se tratar do conhecido PT (mensalão, dossiê fajuto, Celso Daniel, etc.). Se a oposição também abriga corruptos, paciência. Precisamos desses valentes regulando as ações do governo, como sempre foi, como deve ser na democracia.

Um Petry simples

In Comentário, Lucas on Janeiro 10, 2008 at 7:29 pm

André Petry é colunista da Veja há um bom tempo. O homem deve ser discreto: não é visto na mídia; só se pronuncia no seu espaço semanal. Sempre escreveu bem, com coerência. Mas vem cometendo deslizes estranhos nos últimos textos.

O primeiro deles foi seu comentário sobre o caso do rapaz torturado e morto por seis policiais em São Paulo. Comparou o governador José Serra com a governadora do Pará, Ana Cerepa. Petry criava assim uma ligação entre o jovem morto em São Paulo e a adolescente presa com homens no Pará. Considerou a reação de Serra semelhante a da governadora, apesar do paulista ter decretado os caminhos mais curtos para imediata indenização da família, além da prisão dos seis policiais. Petry ignorou tudo. Não sei o que esperava que Serra fizesse.

Ele costuma demonstrar um ar indignado com a situação. Encerra parágrafos e textos com frases de efeito, carregadas de lamentações. Na ultima semana, Petry citou o mesmo número já comentado aqui, das quase 200 mortes registradas no Natal em rodovias federais. E repetiu o enfoque aqui condenado: culpar sempre o motorista pelas tragédias no trânsito.

Assim fica fácil fazer jornalismo opinativo: culpar o motorista pelo acidente é não errar nunca. Obviamente um dos veículos envolvidos é culpado. Petry exige punição rígida aos imprudentes, outro lugar-comum da crítica. Acredito que o caminho é só um: enquanto não modificarmos a estrutura do nosso transporte, as estatísticas continuarão crescendo de acordo com o aumento da frota.

Nesse texto Petry elogia ainda campanhas ridículas de conscientização ao motorista. Vê ali um caminho para a redução dos acidentes. Foi a gota d´água e motivo dessas linhas críticas. É inacreditável a simplicidade das idéias do colunista outrora tão versátil e conciso. Espero que seja apenas a costumeira falta de assunto e a conseqüente preguiça de reflexão que acontece no começo dos novos anos.  

Natal sangrento nas rodovias federais

In Comentário, Lucas on Dezembro 27, 2007 at 4:49 pm

Primeiramente vamos aos números. São assustadores, mas tente seguir o já batido raciocínio na seqüência:

A Polícia Rodoviária Federal apresentou nesta quarta-feira relatório final sobre acidentes nas estradas sob sua jurisdição durante o feriado de Natal. De acordo com o balanço, 196 pessoas morreram entre a 0h da sexta-feira e a meia-noite desta terça nos 61.000 km de rodovias federais. Dessa forma, o Natal assumiu a posição de feriado com maior número de vítimas fatais de 2007 – superando inclusive o Carnaval, tradicionalmente violento, que registrou 145 óbitos.

Em relação ao mesmo feriado do ano passado, o Natal de 2007 também mostrou-se mais letal. Em 2006, foram registradas 90 mortes nas rodovias federais, o que representa um aumento de 117% no número de óbitos. 

A análise fria dos números nos leva a diversas hipóteses: as pessoas estão bebendo mais no Natal? As pessoas beberam menos no carnaval de 2007? Claro que são conclusões absurdas. É até um certo humor negro que não cabe diante de quase duas centenas de mortes. O acidente da TAM em Congonhas, com o mesmo número de vítimas, foi destaque mundial. Essa carnificina ocorrida no Natal até foi divulgada, porém com o enfoque errado: colocando a culpa no motorista. Veja a seqüência da matéria do site Veja.com: 

A polícia atribui o aumento no número de acidentes e mortes ao aquecimento da economia, o que teria elevado em cerca de 30% o volume de carros nas estradas. Contribuiria também a crise aérea, afastando passageiros dos terminais brasileiros, fazendo com que as estradas se tornassem a opção preferencial.

Imprudência – Porém, os registros da PRF apontam a imprudência ao volante como principal motivo para a ocorrência de acidentes. De acordo com levantamentos internos, 80,75% dos acidentes acontecem em trechos de pista com boas condições; 71,4% nas retas; 53,6% em plena luz do dia e com tempo bom (63%). A falta de atenção é o item mais alegado pelos condutores que se envolvem em acidentes (33,3%).   

A imprudência sempre existirá. Medidas como controle de velocidade até inibem os abusos. Mas jamais evitarão as colisões frontais, principal causa (quase única) das mortes no trânsito. É escandalosa a necessidade de motoristas se cruzarem, em sentidos opostos em alta velocidade, a um, dois metros de distância. A falha humana, geralmente aliada a outros fatores (pista, tempo, álcool) continuará matando gente à revelia.  

Chega a desanimar ser tão repetitivo: é urgente privatizar rodovias e duplicar todas as vias de tráfego intenso. O governo alega falta de recursos, e é verdade. Pois então ceda logo à iniciativa privada o controle das pistas. Que se cobre uma margem de lucro justa nos pedágios, mas dupliquem as estradas. As mortes em colisões frontais voltariam a ser manchete, motivo de espanto, causa de novas obras de melhoria. Hoje, do jeito que andamos, apenas contabilizam estatísticas que não param de aumentar. Aposto uma cerveja que o Carnaval 2008 supera os mortos do Natal 2007. Isso se o feriado do reveillon não surpreender (?) e assumir a pole.  

*** 

Como de costume, esse espaço presta especial atenção à abordagem da imprensa. É sempre a mesma história: é culpa do álcool, da imprudência. Claro que é, e sempre será. O motorista utiliza a estrada como pode: alguns se arriscam e acontecem as tragédias. E a imprensa ouve a polícia e o governo e publica suas conclusões: “a maior parte dos acidentes ocorre devido a imprudência”. Seria demais buscar outro enfoque? Por exemplo: quantos acidentes seriam evitados se a pista em questão fosse duplicada, com canteiro central separando os sentidos opostos? Aposto outra que o número superaria os 90%.

Chega de campanhas de conscientização. O fator humano é irreparável: temos a tendência ao erro, além dos péssimos motoristas e dos pilotos de corrida frustrados que habitam as BRs. Só mudaremos as estatisticas quando existir a consciência de que o grande problema é a pista, não o homem. Mas enquanto isso, motorista apressado, a culpa é só sua. Shame on you!  

Que

In Comentário, Lucas on Dezembro 25, 2007 at 1:31 pm

Que tempo estanho o Natal. Somos felicitados em casa e nas ruas, talvez pelo costume, ou pela nossa parte religiosa inerente e intrínseca. Mas vá lá, até que um cumprimento de “Feliz Natal” soa amistoso, demonstra estima ou carinho. O que incomoda nessa época são os comuns desejos de diversas realizações para o próximo ano.

Perceba aquelas frases: “Que em 2008…” ou “Que neste Natal…”. Qual a função gramatical desse “que”? Usamos sem saber. Mas ele representa algo como uma vontade, um desejo do interlocutor, do parente, do amigo. Reparo no uso abusivo desse “que” que (com o perdão da cacofonia deliberada) se tornou um clichê natalino. Até o semi-analfabeto transmite os votos de felicidades através do “que” no começo da frase.

Então espere lá. Se qualquer um reconhece nesse “que” a maneira de desejar felicidades ao próximo, seria essa ferramenta realmente passível de crítica? Creio que o uso desse “que” não deva ser execrado. Deve-se combater o que de costume vem depois dele: esses desejos vãos de felicidade, paz e amor.

Portanto, que se especifiquem os sentimentos. Que sejamos mais honestos com o que sentimos, detalhando emoções, provocando emoções que são impossíveis de se alcançar com os atuais cartões de Natal. Que se banalize o uso do “que” no início da frase, mas não se banalize a mensagem, escondida e até inexistente em lugares-comuns dos finais de ano.        

Ode ao Pé-de-porco

In Comentário, Lucas on Dezembro 11, 2007 at 1:50 pm

Houve um tempo em que este escrevinhador era crítico contumaz da truculência policial. Resultado de casos isolados e também de uma certa educação. Sim, eu também já fui vítima da ideologia vigente que, entre outros disparates, afaga o bandido e condena o paladino da lei.

Tudo bem, a corrupção na polícia é crônica. Mas isso não pode ser motivo para perder a confiança. Infelizmente nosso país chegou a um ponto em que ações sociais não são suficientes para combater o crime. É preciso repressão, cacete, cadeia. Todos devem temer a polícia: a certeza de constante vigilância é a melhor prevenção contra o contraventor.

Portanto, resta apenas o fato: a solução para a criminalidade, no estágio em que o Brasil chegou, é a polícia. Temos problemas na corporação? Sim, e vários: má-formação, baixos salários, pequeno efetivo e a conseqüente corrupção de boa parte da tropa. Mas apesar de tudo, é fundamental confiar. É preciso relevar eventual truculência: a força repressora é a nossa última esperança. Não duvidem: estamos em guerra contra a criminalidade. Bem ou mal, fiquemos do lado da lei.     

Ainda sobre professores

In Comentário, Lucas on Dezembro 6, 2007 at 7:59 am

Pautei o Bom Dia Brasil de hoje. Meu post de ontem, sobre o fiasco da Educação no Brasil, rendeu uma boa matéria no jornal desta manhã. Diferimos um pouco no enfoque: a Globo entrevistou pessoas que criticam a falta de professores, seus baixos salários e até o desinteresse dos alunos. O único que falou bonito foi o âncora Renato Machado, ao final da matéria. Algo assim: é preciso melhorar a formação dos professores. Bingo!

Chegamos ao absurdo de culpar os alunos pela baixa qualidade do ensino. Alguém bem disse na matéria: eles são apenas as vítimas. Claro que existe a indisciplina, a falta de objetivos e de interesse das crianças e jovens. Mas isso se resolve com autoridade, família, laço, sei lá. Não é um problema crônico como a formação ideológica dos educadores, da qual falamos ontem.

A escola precisa voltar a educar e parar de catequizar nossos alunos. É urgente a volta das longas aulas de gramática, assim como é preciso acabar com o discurso uníssono que domina do primário à universidade: socialismo, anti-americanismo, causas sociais, etc. Precisamos formar profissionais, pessoas com capacidade de raciocínio e interpretação. Caso contrário, continuaremos formando apenas companheiros semi-analfabetos.      

O professor é culpado também

In Comentário, Lucas on Dezembro 5, 2007 at 3:50 pm

A OCDE, Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico, divulgou uma série de levantamentos nos últimos dias. As pesquisas indicam o ranking de países de acordo com o desempenho de jovens de 15 anos em diversas disciplinas. O Brasil decepciona em todas: da matemática à interpretação de texto, sempre na rabeira do ranking. Estamos no mesmo nível da Colômbia e do Azerbaijão.  

Não é nenhuma novidade o descalabro que toma conta da educação brasileira. Mas além da falta de investimento, podemos traçar um raciocínio interessante que mostra o ciclo do ensino no Brasil. Segue: 

Aonde se formam os professores? A grande maioria em universidades públicas. Só o desespero explica pagar uma faculdade para cursar pedagogia, filosofia, história, matemática. Sobram vagas nas universidades federais para estes cursos. Não se trata de preconceito ou acusação: é uma constatação, é o fato. Seguindo esse fato, quem conhece o ambiente acadêmico público sabe a formação que ele proporciona. Todo o conteúdo teórico é periférico, socialista rebelde e retrógrado. E esses professores que educam crianças tanto de escolas públicas quanto particulares. É esse meio atrasado que fornece praticamente todos os educadores.  

O resultado é um ensino fraco, deslocado da realidade, que perde seu fundamento ao fazer proselitismo de idéias. A preocupação com a consciência social substituiu a gramática. Nossas escolas pretendem formar “cidadãos”, relevando se o jovem será suficientemente alfabetizado. Atropela-se o conteúdo em função de uma praga chamada consciência social. Os números estão aí para comprovar.  

Falta muita coisa na educação brasileira, todo mundo sabe. Não quero transferir toda a culpa aos pedagogos, não teria cabimento. Mas creio que é preciso repensar a maneira ideológica de educar. E os professores são, sim, parcialmente culpados pelos nossos péssimos alunos.  

História resumida da repressão dos sentimentos

In Comentário, Lucas on Dezembro 3, 2007 at 1:56 pm

Boa parte das pessoas costuma escrever para tentar decodificar, materializar o que sente. Do poema mais inocente que a mocinha rabisca no diário à última grande obra da literatura universal: todas as palavras tentam expressar sentimentos. Existe também a escrita de idéias, o trabalho intelectual. Mas este presente texto humildemente vai ignorá-la. O dia hoje é dos sentimentos e sua expressão escrita.

Não sei em que altura da infância este escriba sentiu essa necessidade de expressão. Quem já escreveu como maneira de desabafo vai me entender: a simples idéia de alguém ler aquilo era assustadora. Na época eu escrevia e lia algumas vezes. Riscava aqui, complementava ali e pronto. Depois de lido e aprovado, jogava no lixo. Literalmente: eu ia até a lixeira da cozinha e tomava o cuidado de esconder o papel debaixo de algum lixo. Temia que a mãe ou alguém, ao ver aquela folha ali sobre os restos, recolhesse-o para ver se era lixo mesmo. Devido a esse temor (de que alguém soubesse o que eu sentia) tomava tamanho cuidado no descarte daquele começo de emoção, de decepção, de desilusão, de medo.

Hoje pode parecer diferente, mas não é. Vivemos na impossibilidade de explicar o que sentimos exatamente. As palavras se confundem, trazem a ilusão de esclarecimento, e apenas camuflam a angústia. Creio que “angústia” é uma boa definição para o estado permanente do coração deste escriba.

Ou não! Como saber se as linhas acima são a verdade? São verossímeis, sim, mas provavelmente não são verdadeiras. Os sentimentos continuam escondidos, como antigamente. Você que me lê, o melhor que tem a fazer é ler esse texto, mudar alguma coisa, aprová-lo ou reprová-lo e jogá-lo fora. Certifique-se de escondê-lo bem entre o lixo para que ninguém mais o encontre.         

Sobre a Intolerância

In Comentário, Lucas on Novembro 30, 2007 at 3:52 pm

Noticia da Veja Online, hoje:

Milhares de pessoas saíram às ruas de Cartum, capital do Sudão, nesta sexta-feira, para exigir o fuzilamento da professora britânica Gillian Gibbons – condenada a 15 dias de prisão e posterior deportação por permitir que seus alunos batizassem um urso de pelúcia de Maomé. Portando faixas com os dizeres: “Sem Tolerância: Execução” e “Levem-na ao paredão de fuzilamento”, muitos dos cerca de 10.000 protestantes estavam armados com facas e bastões. 

Já é uma reação normal dos muçulmanos. Lembram do episódio das charges do profeta Maomé? Muitos acreditaram ser o principio da terceira guerra. Nunca ouve nome tão sagrado para um povo como é “Maomé” para os fiéis do Islã. 

O cristianismo também proíbe o uso em vão do nome de Deus. Mas a questão apontada no caso da professora é o sacrilégio. Temos isso também no cristianismo. Quem já ouviu falar no verbo “escarnecer”? É uma palavra utilizada especialmente pelos pentecostais para o ato de zombar de Deus. Dizem que é o único pecado que não tem perdão. Você pode roubar, estuprar e matar, e se você se arrepender, estará perdoado. Agora, se você é crente, pense duas vezes antes de escarnecer. 

Creio que os muçulmanos julgam que a professora escarneceu o profeta Maomé. Se ela tivesse escarnecido Deus ou Jesus, acertaria as contas apenas no juízo final. Mas no islã é diferente: aqui se faz, aqui se paga. Querem a pena de morte para a moça.  

É uma visão tão retrograda que chega a ser assustadora. Na verdade, os dogmatismos das religiões, se analisados sob a luz da razão e da lógica, são deveras descabidos. Mas por isso é que são dogmas. No cristianismo foi estabelecido que zombar de Deus não tem perdão. Tudo bem, é uma questão de crença. Já no islã, os fiéis impõe um regime de intolerância, de violência. Estes se julgam paladinos da justiça “divina”. É impossível a civilização como concebemos (justiça, estado de direito e especialmente a liberdade) algum dia alcançar essa gente.    

MST, Syngenta e um morto famoso

In Comentário, Lucas on Novembro 28, 2007 at 8:00 pm

Mais uma vez os muros de Curitiba se tornaram vitrine de protestos. Dessa vez, os valentes paladinos de causas sociais (qualquer uma) escrevem as frases “Fora Syngenta”, “A Syngenta Mata” e outras variações em dezenas, talvez centenas de paredes. Seguem dois motivos que desqualificam essa ação.

O primeiro já foi citado nesse espaço: a depredação do patrimônio público e privado. Mais uma vez o cidadão paga a conta cobrada por esses revolucionários: ou na forma do dinheiro público usado para reparar o bem, ou quando acorda pela manhã e encontra o muro de sua casa ou comércio pichado com a frase acima.

O segundo é o pressuposto ideológico de sempre que sustenta o vandalismo. A Syngenta não matou. Foi um confronto com a segurança particular da multinacional. Segurança que, a propósito, cumpria seu trabalho: vigiar a propriedade privada, um direito garantido na constituição.

A idéia de que o MST compreende trabalhadores rurais, sedentos por um pedaço de terra para produzir, é ilusória. São desempregados normais. Não se questiona aqui a necessidade de distribuição de renda, talvez até de uma distribuição eficiente de terras improdutivas. Mas é urgente não mais solapar a lei para favorecer causas sociais. É um atalho perigoso.

No episódio, morreram um líder sem-terra e um segurança. Para o campesino, homenagens e manifestos indignados. Agora, quem viu o velório do segurança na TV? Meia dúzia de familiares presentes. Nenhum reconhecimento. Morrera um anônimo, que trabalhava dentro da legalidade, confundido com um bandido. Quando na verdade, fora da lei estava o morto célebre.

Abaixo, trecho do episódio relatado no site do MST. Dispensa comentários.

Uma fazenda experimental de transgênicos da Syngenta no Brasil se transformou no terceiro domingo de outubro em um cenário de horror logo depois da intervenção violenta de uma milícia privada. Como resultado, duas vítimas fatais, entre elas Valmir Mota de Oliveira “Keno”, dirigente do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

Além disso, outros camponeses feridos que algumas horas antes haviam ocupado a fazenda da filial brasileira da multinacional suíça em Santa Tereza do Oeste, a 540 kilômetros de Curitiba, na região sudoeste do Estado do Paraná. A partir destes fatos, a empresa agroquímica suíça – número um no mundo no setor fitosanitário e número três no mercado de sementes comerciais – é colocada novamente no banco de réus pela opinião pública internacional. Hoje, em função da violência contra os sem terra. Ontem, por “delitos comerciais” no mundo inteiro e por sua ação contra o direito à soberania alimentar dos povos.

O pedágio é o meu dízimo

In Comentário, Lucas on Novembro 27, 2007 at 8:40 am

Voltando da praia sozinho, domingo, 11 horas da noite. A chuva e o carro sem som (o qual fora roubado há algum tempo, a propósito) colaborando para o ambiente de reflexões. Desilusões do passado e de uma semana que já começava sem grandes perspectivas de mudança. Um ano e uma vida sem grandes expectativas, dependendo do sentido que aplicarmos para a palavra “grande”.

Mas apesar de tudo, um sentimento de segurança durante 100 km. E desta vez sem divagações metafísicas e sentimentais: a segurança era real. A pista sempre dupla, as vezes tripla. Infinitas sinalizações luminosas delimitando o asfalto impecável. Cada curva precedida por uma placa indicando pra que lado vamos. É a concretização daquilo que há de melhor no capitalismo: o benefício da prestação de bons serviços, do respeito ao usuário.

No pedágio, recebido por uma TV de plasma passando informações em cada cabine. Um dos dez reais mais bem gastos da minha vida: se este é o preço por 100 km de segurança e tranqüilidade, por que questionar? Olhei para a mocinha do pedágio sorrindo: eu parecia uma senhora levando algo barato numa liquidação. Eu pagava 10 reais por algo em que eu acredito. O pedágio era o meu dízimo.

Como pode uma solução tão simples ser tão execrada pelos nacionalistas. Enquanto as estradas forem “nossas”, do Estado, continuaremos trocando pneus e resgatando vítimas. Enquanto as estradas principais não forem duplicadas, receberemos com banalidades notícias sobre colisões frontais. Isso demanda investimento? Chamem a iniciativa privada. Desonerem os que não utilizam as estradas. Não é justo? Quem pega a estrada, paga. O custo é insignificante se comparado ao valor imensurável da segurança.

Jô não usa o pinto

In Comentário, Lucas on Novembro 23, 2007 at 3:59 pm

Há algumas semanas o comediante Jô Soares deu uma entrevista à Veja. Para mim, ele apenas mostrou novamente ser aquilo que ele realmente é: um humorista, um contador de piadas, sei lá. Mas nada muito além disso.

O entrevistador pede a opinião de Jô sobre o caso Renan Calheiros, e o gordo veio com essa: “Ora, ele tem uma filha com essa moça, o que mostra a irresponsabilidade dos dois em transar sem camisinha. Sabe-se lá onde o senador andou colocando o pinto dele antes e que relacionamentos a moça teve. Por que uma pessoa que é incapaz de praticar sexo seguro não levará essa irresponsabilidade para a vida pública?” Percebe-se a opinião de alguém que realmente ignora o uso do “pinto” há um bom tempo. Um casal, mesmo de amantes, pode muito bem tomar outras precauções que não a borracha. Mas ele não deve lembrar a diferença entre esse uso e desuso. A propósito, amante só engravida acidentalmente? Tudo bem, segue.

Jô critica também seus similares nos EUA: “Isso, aliás, é o que me desagrada nos programas de David Letterman e Jay Leno hoje: a ênfase nas celebridades. Eles praticamente só entrevistam gente famosa, que está ali promovendo seus últimos trabalhos – além do ar de que foi tudo muito ensaiado.” Sinceramente não sei o que é mais criticável: programas que só entrevistam celebridades ou o Programa do Jô, que tira não sei de qual buraco alguns anônimos que nada de interessante têm a dizer. Mas isso vira desculpa para um programa que se diz democrático, do povo. Afirmo: se você começar a correr pelado, ou fizer alguma micagem criativa, peça à um amigo que ligue para a redação do Jô. Ele vai chamar você.

E essa afirmação de que tudo é ensaiado nos talk shows americanos é muito falsa: David Letterman pode até combinar o que vai perguntar, e o entrevistado certamente ensaia piadinhas para entreter a platéia. Mas não é melhor assim do que ficar vendo o Jô se gabando e se alugando com os picaretas do sofá ao lado? Sem falar que ninguém improvisa como Letterman. O Late Show que ele apresenta é dividido em duas partes de meia hora cada. A primeira somente tiradas e quadros hilários; a segunda entrevistas curtas e quase sempre uma atração musical finalizando. E um humor violento, cruel, que se existisse no Brasil em poucos dias seria censurado pela patrulha ideológica da esquerda.

Jô escreve bem, fala bem algumas línguas, é um bom humorista, mas creio que deveria ficar no seu terreno. Suas opiniões são equivocadas, e ele é daqueles caras que exageram na ironia e no sarcasmo. Para mim, Jô Soares falando sério é muito sem graça.   

Pará: onde não vale a lei

In Comentário, Lucas on Novembro 22, 2007 at 3:23 pm

Depois dizem que é preconceito meu implicar com os grotões do norte e nordeste do Brasil. Mas não é mesmo. São tristes constatações das contradições que habitam especialmente aqueles lados. A bola da vez é o Pará. Dois episódios atraíram a atenção para este glorioso estado nos últimos dias. Podem parecer fatos isolados, mas não são.  

No mais recente, uma mocinha de aproximadamente 15 anos ficou 20 dias presa numa cela com homens. Ela afirmou que sofrera abusos e que pagava comida com sexo. O segundo episódio aconteceu há alguns dias: a governadora petista Ana Júlia Carepa baixou uma portaria que impede a polícia de executar ações de reintegração de posse de propriedades invadidas por movimentos sociais.  

Vamos à relação entre os episódios: o estupro consentido no presídio paraense é uma omissão atropelo evidente das responsabilidades sociais das autoridades. A portaria que protege o MST, segundo a governadora, também tem caráter social. Não que seja culpa da governadora a menina presa entre os homens (hoje noticia-se um segundo caso idêntico). Mas esse atropelo das leis em razão das carências sociais que ela prega é um perigo: cria-se uma cultura de tolerância, de adaptação das regras de acordo com certas necessidades e conveniências.

Se por princípio somos todos iguais perante a lei, como que alguém, defendendo certa causa, pode fazer algo que outro mortal não possa? O direito à propriedade privada inexiste quando um bando alega o direito da ocupação?

E no Pará é evidente a promíscua relação petista com esses movimentos sociais. Ambos, há alguns anos, faziam parte da mesma luta. Nasceram no mesmo berço ideológico. E hoje certos petistas insistem em favorecer seus pares fora-da-lei. Fica a contradição: como o estado do Para, que se diz tão engajado em causas sócias a ponto de atropelar a lei, tolera um insulto tão baixo aos direitos humanos?   

Venezuela, Mercosul e a corrida armamentista

In Comentário, Lucas on Novembro 22, 2007 at 2:48 pm

A Comissão de Constituição e Justiça da Câmara (CCJ) aprovou hoje a entrada da Venezuela no Mercosul (44 a 17). Esta comissão é formada por ampla maioria governista. A esperança é de que as coisas mudem no plenário da casa e especialmente no Senado, próximas instâncias de votação.

O governo afirma ser favorável devido ao grande aumento das exportações brasileiras à Venezuela nos últimos anos. Mas sabe-se que o caráter da aprovação é especialmente ideológico. Lula admira e até inveja Chávez. Ambos se criaram na doutrina socialista. Chávez, com a força do petróleo e cooptação da maioria pobre planeja implantar uma ditadura disfarçada.  Lula sabe que não conseguiria, porque as instituições democráticas ainda funcionam razoavelmente no Brasil. Na Venezuela não mais.

A questão que a oposição levanta é o ponto principal para um país pertencer ao Mercosul: o funcionamento pleno e independente das instituições democráticas. A Venezuela não é o caso, mas Chávez pretende integrar-se ao grupo com bravatas e ameaças. E no Brasil conta com o deslumbramento dos petistas. Na verdade, de todos os partidos de ideologia de esquerda: um exemplo é o PSOL, que rompeu com o governo, mas que também admira o regime venezuelano, uma versão distorcida da sonhada revolução socialista.

*

Outro aspecto polêmico envolvendo a Venezuela é a compra de armamento militar russo. O exercito brasileiro, obsoleto, aproveitou para fazer previsões de futuros conflitos. E propor o aumento do orçamento militar do Brasil. Será que Chávez conseguirá provocar uma corrida armamentista na América do Sul? Era só o que faltava nessa região tão carente em infra-estrutura, desviar dinheiro para fortalecer exércitos.

Todos sabemos que, se necessário for intervir em nossa fronteira com a Venezuela, é só chamar os EUA. A prioridade em nossas bandas tem que ser outra.

Quase mais um feriado

In Comentário, Lucas on Novembro 21, 2007 at 2:25 am

Hoje é o dia da consciência negra no Brasil. Uma data retrograda da nação. É o dia em que ignoramos nossas origens mestiças e tentamos dividir o povo em duas raças distintas. Nossa maior virtude, a miscigenação, foi esquecida: em seu lugar, uma bandeira social, que atribui pobreza e desigualdade à cor da pele. 

Hoje é o dia em que ignoramos o princípio maior da constituição, de que somos todos iguais perante a lei. Ignoramos este princípio, por exemplo, estabelecendo cotas para estudantes negros. O branco pobre que se defenda: se ele não alcançar o sucesso, é burro, incompetente. O negro não se da bem porque é oprimido. Esqueçamos por enquanto os espetáculos tragicômicos de classificação de raça nas universidades cotistas. 

Caminhamos na direção errada. Mas sabemos a quem essa suposta luta contra o racismo favorece. Ela omite a trágica educação no Brasil: ao invés de buscar a universalização do estudo, acusamos a sociedade de racista pois, supostamente, a maioria dos pobres são negros. E a culpa não é do Estado falido. É da elite branca. 

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A crítica desse espaço privilegia a imprensa, o canal por onde transitam as barbaridades do pensamento nacional. E hoje não foi diferente. Todos os telejornais mostrando os shows da cultura negra e da periferia. O discurso de Lula afirmando que o racismo é um problema cultural. Vi um rapaz afro-brasileiro na TV local fazendo propaganda das conquistas dos negros no país. Ninguém correria o risco de consultar uma opinião divergente. Seria acusado de racista pela patrulha ideológica. A imprensa se auto-policia temendo taxações golpistas.

Feliz dia da consciência negra pra você.

Outra questão de lógica

In Comentário, Lucas on Novembro 6, 2007 at 10:25 pm

José Vicente da Silva Filho é coronel da reserva da Polícia Militar de São Paulo, ex-secretário nacional de Segurança Pública, ex-consultor do Banco Mundial e mais uns 3 ou 4 ícones de destaque no currículo. Ele apareceu bastante na mídia recentemente (Manhattan Connection, Folha de São Paulo) defendendo uma velha idéia, mas que parece nova por vir no embalo do filme Tropa de Elite.

José Vicente demonstra estatísticas e exercícios de lógica que devem irritar muito os humanistas da esquerda. Ele demonstra o sucesso da política de segurança pública do estado de São Paulo: lá está 40% da população carcerária brasileira apesar de o estado possuir 25% da população brasileira. São Paulo vem prendendo mais que o Brasil, e qual é  a conseqüência? Uma gradativa e considerável queda no número de homicídios.

Vamos aos dados: São Paulo deve fechar 2007 com 12 mortos para cada 100 mil habitantes. A média nacional é de 31. No Rio de Janeiro, 40 aproximadamente. No Canadá, segundo Diogo Mainardi no seu podcast de hoje, 1 e pouco.

A lógica é explicita: São Paulo vem diminuindo a violência em função da repreensão, da punição. Como José Vicente destaca em seu texto na Folha, a idéia de que prevenir e investir em ações sociais diminui a criminalidade é ingênua. Ações sociais como educação, saneamento, saúde, são importantes para a população de bem. Bandido não se converte quando o Estado lhe afaga com benefícios: o crime é uma opção moral, e não conseqüência da pobreza.

Além disso, o Brasil precisa combater a violência com ações de curto prazo. E a únicas ações eficientes, nesse caso, são as mesmas de sempre: colocar a polícia na rua, construir mais presídios e punir os bandidos. Em paralelo, claro, se investe nos demais aspectos sociais.

 Esse raciocínio óbvio, porém, causa chiliques nos intelectuais de esquerda. Eles ignoram o fato de que o cidadão deve pagar por seus atos. Eles imaginam o povo como aquela massa manipulada, o assassino como cria da sociedade desigual. Chegam ao absurdo de afirmar que a desigualdade social justifica um crime (Vide caso Rolex do Luciano Huck e as barbaridades do MST e afins). E a solução é tão simples: aplicação do Estado de Direito. Não se remedia pobreza atropelando as leis. Temos os exemplos em todo o mundo (Canadá é um, acima citado) mas insistimos em tratar segurança pública sob uma visão ideológica retrógrada.  

Procurando um norte

In Comentário, Lucas on Novembro 1, 2007 at 2:28 am

Diga-me com quem andas e Eu te direi quem és. Bom: não compactuo com infratores. Evito ambientes onde existam canalhas, meliantes. Não porque eu siga a palavra de Deus, citada na primeira frase. Apenas uma questão de princípios que aos poucos se firma e serve de meta, de rumo.

Mais do que nós, pobres agnósticos, existe uma pessoa em especial que deveria seguir esse versinho: o célebre padre Julio Lancelotti. Primeiro ele foi à polícia pedir ajuda, pois estaria sendo extorquido. Eram 50, depois 80, depois 120 mil reais, na versão do padre. Surgiram as questões. Uma delas: por que a demora de anos para denunciar, quebrar o silêncio? Ele respondeu que queria tocar o coração da pessoa que o explorava.

Porém a defesa do rapaz, ex-interno da Febem (entidade da qual Lancelotti é funcionário), alegou que padre Julio tocava em outros locais, não o coração. E que a soma das doações (não se fala, desse lado, em extorsão) ultrapassaria 500 mil reais. Existem outras testemunhas e outros rumores sobre pedofilia, homossexualismo e demais promiscuidades. Mas o que interessa mesmo no momento é saber de onde vem toda a verba para os presentinhos.

suspeita, adivinhem, é de que o padre desviaria dinheiro de sua ONG, que recebe do governo cerca de 11 milhões de reais por ano. O padre Julio é famoso por sua defesa aos desabrigados, sua luta pelos direitos dos mendigos e especialmente notório por ser militante petista. Ele alegou que a quantia extorquida foi arrecadada a partir de poupanças e empréstimos de amigos.

Seguem as investigações. Portanto, sem maiores afirmações por enquanto. O cheiro de um romance entre o padre e o ex-interno da Febem é forte. Mas nada ainda provado. Mesmo assim, o padre já errou: andou em más companhias, presenteou um bandido diversas vezes e mentiu para a polícia. Quer dizer, não é bem uma mentira: ele vai corrigindo as informações…

Tenho certa inveja da fé cega dos crentes. Devem encontrar felicidade semelhante à dos idiotas, dos mongolóides, que vivem sempre abismados. E eu aqui, refletindo sobre a vida, triste como um galo cego, buscando um norte moral para também ter em que acreditar.

Vandalismo e Invasão. E a carne que é crime…

In Comentário, Lucas on Outubro 27, 2007 at 8:24 pm

Hoje é quinta-feira, dia 25 de outubro. O prédio central da UFPR, onde funciona a reitora, foi invadido há 8 dias por estudantes. O cenário é deprimente por dois motivos: o primeiro estético, comportamental, ideológico. Tudo o que esses alunos sujos fazem é errado. Pode parecer consciência política, mas é um embuste. Brincam de revolução, como se estivessem fazendo algo grandioso em nome de uma causa. 

 

O segundo motivo é a conseqüência maior da invasão. O Restaurante Universitário fecha amanhã porque o setor de finanças foi invadido. Não há dinheiro para comprar comida. Também não há como liberar verba para pagar milhares de funcionários. Sorte desses intrusos é que o Reitor e mais algumas autoridades são bonzinhos. Querem evitar o confronto. Não seguem o exemplo da segunda tentativa de invasão da USP, quando a polícia reprimiu os revoltosos no ato.

 

Nada contra protestar. Devemos ser contra essas atitudes descabidas, onde o bem público é afetado e milhares são prejudicados devido a uma discussão pobre sobre reforma universitária.
Cito aqui outro exemplo: muros e portões de Curitiba estão sendo pichados com a frase “Carne é Crime”. Pesquisei no google mas não encontrei nada interessante. É um protesto contra suposta violência no abate dos bois. Cito o caso para insistir na idéia desse texto: protestam sempre no lugar errado.

 

Quem paga a conta por esse vandalismo camuflado como luta pelos direitos dos animais? Nós, cidadão comuns, pagamos quando a prefeitura de Curitiba informa que gasta um milhão e meio por ano com o vandalismo. Mas quem paga mais são os alvos dos protestos: açougues e churrascarias de Curitiba, que não matam bois, apenas cortam e assam. Não têm nada a ver com a história. Em suas portas e muros lê-se o vago bordão “Carne é Crime”. Crime é estragar o bem público. Ou vão afirmar, analogicamente ao tráfico, que o costelão da esquina é quem financia a prática da tortura animal?

 

Por que esses valentes defensores dos rebanhos não vão até grandes frigoríficos, por exemplo? Por que não vão à Sadia, à Perdigão, ou se juntem ao MST e à Via Campesina e invadam potreiros e montem nos bovinos? A lei será infringida de qualquer maneira, mas pelo menos teremos um espetáculo interessante. Mas é claro que não vão. É mais cômodo rabiscar muros na surdina e buscar abrigo nos interiores da universidade pública.  

 

 

Era uma vez no oeste

In Comentário, Lucas on Outubro 21, 2007 at 11:04 pm

Dessa vez pode ser coincidência, mas uma atitude sensata há tempos aguardada foi tomada na semana passada: após o trágico acidente no oeste de Santa Catarina, onde 27 morreram, o governo privatizou milhares de quilômetros de rodovias federais.

Falo na coincidência pelo seguinte: no Brasil, sempre aguardamos por grandes tragédias para atitudes serem tomadas. Vejam o caso dos 200 de Congonhas. A mobilização foi enorme e praticamente não se fala mais na crise aérea. Nos últimos dias, até juizados especiais foram montados em aeroportos brasileiros. O cidadão prejudicado pelos atrasos e cancelamentos pode buscar seus direitos imediatamente, ali pertinho.

Relaciono os casos pelo seguinte: a carnificina diária das nossas estradas só tem solução com a privatização das rodovias. O desastre de Santa Catarina pode não ter nenhuma relação com o leilão das rodovias. Mas a venda dos trechos federais foi a melhor notícia que as famílias das vitimas poderiam receber. É um consolo e uma esperança por dias melhores.

Creio que não bastam apenas os pedágios para conservação das atuais estradas. É preciso duplicar todas as principais ligações rodoviárias do Brasil. Não existe nem lógica: um tráfego intenso que se arrisca em curvas e ultrapassagens, cruzando a um, dois metros de distância, em sentido contrário. O valor das obras é alto, mas é necessário acontecer algo drástico para pouparmos vidas.

Além disso, a privatização que modernizaria o asfalto e a sinalização deveria alcançar os acostamentos e arredores: hotéis e motéis de qualidade, banheiros melhores que os atuais chiqueiros, restaurantes, bordéis apresentáveis, etc. É urgente civilizar nossas rodovias. E o estado é incapaz de cumprir essa missão.  

Isso não está correto

In Comentário, Lucas on Outubro 18, 2007 at 3:03 pm

Muito cuidado companheiros! Andam confundindo politicamente correto com democracia e Estado de Direito. Agora que o PT está no poder, prega-se mais do que nunca que os problemas só terão solução através de um embasamento ideológico. Errado: a solução é liberdade, educação, polícia na rua, aplicação da lei e por aí vai. Não é bem esse o assunto…

Então, voltando: o politicamente correto é uma praga que se alojou no Brasil. É uma maneira de policiar o que é dito, ajustar termos supostamente ofensivos para coibir o racismo e a desigualdade. Mas o problema permanece, só muda de nome. É uma espécie de eufemismo para as mazelas. Quando a solução para os descalabros é o rigor da lei e a educação.

Exemplo: a obrigação de chamar um preto de afro-americano vai auxiliá-lo no que em sua ascensão social? Em nada. O que acontece é que se camufla o problema. E o estado vigia essa conduta, como se estivesse protegendo minorias e desamparados (cotas raciais, classificação indicativa, etc). Quando a única garantia que se exige do Estado é saúde, educação, segurança.  

É, hoje não está adiantando insistir. Que lambança de idéias. É um daqueles posts que insistem em resistir ao botão “delete”. Azar. Foi ao ar.   

A voz dos… bandidos!

In Comentário, Lucas on Outubro 17, 2007 at 11:27 pm

Luciano Huck foi entrevistado há duas semanas pela revista Veja. Ele e a revista foram severamente criticados: Quem esse riquinho pensa que é para reclamar? Como a Veja cede espaço para ouvir um playboy? A mesma crítica que se fez ao movimento “Cansei”: é a classe alta que não gosta do governo popular petista.  

Então Huck escreveu na Folha de São Paulo e, como resposta ao seu texto, um rapper que me foge o nome escreveu, no mesmo jornal, algo assim: teria sido justo o Rolex de Luciano Huck ser roubado em um assalto. Ele deveria agradecer por não ter perdido a vida. 

Agora perguntamos: eu, você ou Luciano Huck somos culpados por existir a pobreza, a desigualdade? É justo um cidadão rico trocar seu relógio pela vida com bandidos necessitados? Lembremos que não foi filantropia ou doação: foi um assalto à mão armada, justificado por esse rapper que, já disse, me foge o nome. A cultura política das favelas não me interessa em nenhum aspecto. 

A Folha errou ao dar voz aos dois lados do debate: nada justifica o assalto. Querem tratar o bandido como vítima do sistema, justificando as atrocidades cometidas. O pecado de Huck é ser rico. E o cidadão rico ou mesmo de classe média não tem o direito de reclamar. Reclamar é prerrogativa do pobre e oprimido.  

É dessa maneira que a sociedade caminha rumo à falência: quando se atropelam as leis e se justificam barbaridades cometidas pelo mais fraco. O que é mais espantoso: um cidadão honesto indignado com a violência, ou a suposta mídia golpista dando voz aos marginais que justificam e fazem a apologia da desordem, da anarquia?

L

Ela denovo: Ideli Salvatti

In Comentário, Lucas on Outubro 5, 2007 at 5:18 pm

Este escriba (re)regozija com o novo alvo da Justiça: Ideli Salvatti. Ela mesma, que ignorou a opinião pública catarinense e brasileira angariando votos para salvar Renan Calheiros. Pousava orgulhosa para a imprensa, tentando explicar e justificar sua postura indecorosa. Achávamos que ela fosse apenas um peão no jogo de defesa de Renan. Achávamos que o papel feio, sujo, canalha que ela teve no senado era parte da maneira petista de fazer política. Mas estávamos enganados. Ideli não fez a pregação da impunidade por motivos ideológicos ou políticos. Ela temia o que Renan sabe.

Apesar do silencio de agradecimento de Renan, a imprensa descobriu um trambique. A seguir a primeira parte da matéria da revista Veja sobre o assunto: 

O Senado vai instalar nesta semana uma CPI para investigar entidades e organizações não-governamentais suspeitas de desviar recursos públicos. Somente nos últimos oito anos, o governo destinou 33 bilhões de reais às chamadas ONGs por meio de convênios e emendas parlamentares. Seria uma forma ágil e eficiente de fazer chegar às comunidades mais carentes os programas sociais. Sem fiscalização adequada, muitas dessas organizações se transformaram em máquinas de fraudes que enriquecem seus dirigentes e financiam campanhas políticas regionais. Em Santa Catarina, a Polícia Federal está investigando um caso exemplar. A Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar da Região Sul (Fetraf-Sul) recebeu 5 milhões de reais para promover cursos de treinamento profissional. Parte do dinheiro, já se sabe, foi parar na campanha política de um deputado do PT. Para justificarem os gastos, os dirigentes da federação falsificaram planilhas e criaram alunos-fantasma. O que mais chama atenção no caso, porém, é o eixo entre os principais envolvidos na fraude. Todos são correligionários, amigos ou assessores da senadora catarinense Ideli Salvatti, líder do PT no Senado.” 

O destino quis que dois tópicos recorrentes deste Blog convergissem: Ideli e ONGs. Juntos na mesma sujeira. Em breve Ideli estará politicamente acaba. Não tenham dúvidas que vai renunciar para não perder seus direitos políticos. E ano que vem teremos eleições municipais. Espero que os catarinenses tenham boa memória e bom senso, e não permitam que Ideli se eleja nem mesmo vereadora.  

Creio que será acomodada em algum lugar para onde vão os petistas. Geralmente algum local do terceiro setor. É assim: não sabemos para onde vamos quando morremos. Quando um petista morre, eu sei para onde ele vai: para um gabinete, uma secretaria, uma estatal, uma ONG. As salas escuras e ineficientes do Estado se tornaram o purgatório petista.

L

A voz do povo

In Comentário, Lucas on Outubro 1, 2007 at 8:26 pm

O Jornalismo brasileiro há tempos comete uma séria heresia. Você já ouviu falar que a voz do povo é a voz de Deus. Talvez o mais famoso dos ditados. Por se tratar de frase tão famosa, virou uma unanimidade. E o jornalismo, assim, resolve dar voz ao povo para “inserir a sociedade no debate”. E o povo então fala o que pensa. O povo opina.

 

Um exemplo extremo e grotesco é o telejornal do SBT. Os apresentadores interrompem o noticiário para perguntar e ouvir banalidades dos telespectadores. Mesmo sendo cidadãos previamente selecionados, nada se aproveita. Enquanto isso, nossos peritos e especialistas (esquerdistas não contam) estão calados.

 

Se a imprensa pretende ouvir o povo é necessário educá-lo, alfabetizá-lo.

 

A informação não se dá bem com o tempo. Redações vivem na correria, no limite, lutando contra os prazos. As informações então são esclarecidas, esmiuçadas por especialistas, colunistas, articulistas. Que retrocesso abordar um anônimo na rua e perguntar o que ele pensa a respeito de alguma coisa.

 

O povo será melhor inserido no ambiente de informação servindo de fonte. Declarando o que viu, o que sentiu, mas sem exercícios intelectuais de interpretação e juízos que não lhe cabem. Talvez caibam em casa ou no bar, mas não na TV, no rádio, nos jornais.

 

Se Deus existe, deve estar há tempos furioso com essa afirmação de que o seu povo transmite sua voz. Essa frase pode parecer inocente, mas em democracias que não respeitam o estado de direito acaba justificando a corrupção. Exemplo: um candidato acusado de peculato é reeleito e afirma que foi julgado e absolvido pelos eleitores. Essa voz divina que vem da massa passa a ser tão falsa quanto o suposto veredicto da maioria nas urnas.

 

L

Renúncia

In Comentário, Lucas on Setembro 27, 2007 at 11:45 pm

O tempo passa, meus amigos. A angústia aumenta de acordo com o contar dos anos. Acordamos dos sonhos: abrimos os olhos, já é quase meio dia. Mais doze horas se revelarão meras utopias. Somos crianças ainda e melhor seria não ter sonhado: assim estaríamos livres, o que tivesse vindo seria lucro. Você já mediu seu grau de frustração hoje?

Relembre a infância e a adolescência. Pense mais adiante e busque as reminiscências que esclarecem as antigas previsões: você calculou mal o seu futuro. Você queria, mas querer não é garantia de poder, alguém já disse. Na sua inocência, você foi um grande picareta prevendo o que aconteceria hoje. Você era um Walter Mercado, uma mãe Diná. Minto, você nem se compara a esses trambiqueiros; um ganhou dinheiro, outro viu numa bola de vidro algo sobre o fim dos Mamonas. E você, adivinhou o futuro, atual presente? Claro que não. Fomos todos picaretas nesse quesito.

Mas lá pelos 18 anos eu comecei a prever o porvir, irmãos. Eu sentia que a ambição e o orgulho aumentariam o tamanho do tombo. Assim que a realidade chegasse e me acordasse com sua luz, eu seria derrubado. E o que eu fiz? Tentei reprimir ao máximo todos os meus objetivos. Adotei uma postura pessimista em quase todos os dias desde então. Poucas vezes caí na breve tentação do entusiasmo.

Assim, o tombo foi um leve tropeço: não realizar, não conseguir, tudo estava previsto. Hoje, como previsto, não sou nada. Poucas vitórias aconteceram. Se mais algumas acontecerem? O que vier é lucro, minha gente! 

Segue uma pérola do gigante Manuel Bandeira:

Chora de manso e no íntimo… Procura
Curtir sem queixa o mal que te crucia:
O mundo é sem piedade e até riria
Da tua inconsolável amargura.

Só a dor enobrece e é grande e é pura.
Aprende a amá-la que a amarás um dia.
Então ela será tua alegria,
E será, ela só, tua ventura…

A vida é vã como a sombra que passa…
Sofre sereno e de alma sobranceira,
Sem um grito sequer, tua desgraça.

Encerra em ti tua tristeza inteira.
E pede humildemente a Deus que a faça
Tua doce e constante companheira…  

Mais da mesma Ideli

In Comentário, Lucas on Setembro 26, 2007 at 11:37 pm

A Veja desta semana traz matéria sobre as ameaças de Renan Calheiros aos senadores. Acredita-se que, caso Renan caísse, levaria com ele um terço do Senado. Renan sabe demais. A parte mais interessante é a que trata da senhora Ideli Salvatti, senadora petista de Santa Catarina.  

“A líder do partido, Ideli Salvatti, uma canina defensora de Calheiros, é o alvo mais precioso das ameaças do senador. Renan já mandou dizer à senadora que instalará a CPI das ONGs assim que Ideli ou o PT derem sinal de que mudaram de lado. Ideli tem ligações umbilicais com petistas de ONGs envolvidas em desvios e financiamentos irregulares de campanhas em Santa Catarina, seu berço político. Na semana passada, em reunião da bancada do PT, oito dos doze senadores do partido defenderam que se fizesse uma manifestação formal pelo afastamento de Renan. Mas Ideli, ainda exercendo o papel de diligente defensora de Calheiros, convenceu os colegas a desistir da proposta em nome da ´paz no Senado`.” 

Isso explicaria a vergonhosa posição assumida pela senadora durante a primeira votação de cassação de Renan no senado. Então não era apenas um jogo político – era medo. Para este escriba a revelação é regozijadora: Ideli teria relações promíscuas com ONGs catarinenses. Não fiquemos surpresos: as ONGs, além de parasitas da verba estatal, são um depósito de companheiros frustrados. Ali os revolucionários exercem suas vocações socialistas, sem prestar contas das verbas… do ESTADO!

E agora, dona Ideli: manter a pose de defensora de Renan, ignorando a opinião pública catarinense e preservando as supostas falcatruas no terceiro setor? Ou derrubar Renan, que não cumpriu o acordo de se afastar da presidência do Senado, e enfrentar as acusações que ele vazaria aos repórteres? A democracia torce para que Renan seja traído e, revoltado, entregue sorrateiramente à imprensa todos seus antigos comparsas.

L

Picaretagem dos gigantes

In Comentário, Lucas on Setembro 23, 2007 at 5:44 pm

Continua minha saga contra o “neopentecostalismo”. Não faço isso simplesmente pela dívida que esses picaretas têm comigo. Esqueçamos aquela “educação pelo medo” por enquanto. A simples realidade guiada pela luz da lógica desmascara estes canalhas com facilidade.

Matéria da Folha de hoje mostra mais um golpe sujo da Igreja Universal. Dona de um império na mídia, a igreja já conta até com um braço na política: o PRB. Igrejas não pagam impostos; portanto seria ilícito repassar ao partido a doação dos fiéis. Desse modo a Universal encontrou uma maneira de injetar dinheiro no PRB: as empreiteiras que constroem seus templos. O golpe é simples: a Igreja paga um tanto a mais para que as empreiteiras repassem o “extra” ao partido pentecostal. O levantamento aponta que as construtoras doaram 93,4% do dinheiro recebido pelo partido em 2006. E o volume é enorme: o partido recebeu mais dinheiro que PMDB e PP, dois gigantes. Ficou atrás apenas do PT, PSDB e DEM. E este PRB, o novo gigante, possui apenas 3 deputados e 1 senador.

Mas como explicar aos fiéis essa malandragem? Parece não existir argumentos eficientes contra a fé incondicional. O povo pobre, sem perspectivas, encontra alento nos templos evangélicos: lá prometem maravilhas no além-vida, e o preço é essa vida de privações aqui na Terra. Incitam o conformismo de uma maneira suja, descarada: pregam que o povo do Senhor é perseguido, miserável, sofre, enfrenta as tentações. Mas é preciso ser forte para alcançar o galardão. Quanto mais resignado mais forte é o cristão.   

E que maneira fácil de enriquecer e adquirir poder. Essa gente não encontra repreensão: o apoio dos fiéis é incondicional. A esperança é que, assim como o casal Hernandes da Igreja Renascer, esses gigantes morais também respondam à Justiça.

L

Outra cartinha entre tantas

In Comentário, Lucas on Setembro 21, 2007 at 12:22 am

Senhora Ideli,

Ontem foi um dia muito triste para os catarinenses. Lamentamos sua atitude no plenário e em frente às câmeras. Que votasse de acordo com a orientação do seu partido, vá lá. Mas angariar votos para um homem compravadamente corrupto e indecoroso foi lamentável. A senhora saiu de sua irrelevância no cenário político para aparecer dessa maneira, menosprezando opinião pública e atuando como prosélito da impunidade. A senhora esquece que representa um povo forte, e não uma legenda, um jogo político. Comemorei com meu pai quando a senhora foi eleita e desbancou os Bornhausen. Hoje me sinto traído ao lembrar daquele momento de alegria e, porque não, esperança. Espero que saiba que vai pagar o preço dessa arrogancia e dessa indiferença perante o povo de Santa Catarina.

***

Mandei o recado acima para esta ilustre senhora. Ainda sob efeito de suas descaradas aparições nos telejornais. Mas agora, resignado, reflito sobre algumas frases: povo forte? Pagar o preço? Não sei… De qualquer maneira, fica registrado o momento. Pelo menos não morre esquecido, como outros tantos, no servidor de e-mail do Senado.

Todos foram cooptados

In Comentário, Lucas on Setembro 16, 2007 at 10:18 pm

No dia ou um dia após a absolvição de Renan Calheiros no Senado, o Jornal Nacional entrevistou algumas entidades “representativas” da sociedade. Todos unânimes declarando o fiasco da impunidade, a não ser uma mocinha, presidente da União Nacional dos Estudantes. Candidamente ela repetiu o discurso de Dirceu, Ideli e do próprio Lula: é preciso respeitar a decisão legítima do Senado.

Essa unificação do discurso petista alcançou seus súditos, os parasitas do Estado. Vejam a porta-voz da UNE, um antro de jovens comunistas frustrados que sempre foram notórios pelo escarcéu, pela gritaria. Agora marcham alinhados ao discurso oficial. Uma frase resume a situação: foram todos cooptados.

Os sindicatos não funcionam mais no Brasil. Suas diretorias, todas compostas por tradicionais “esquerdistas”, hoje apóiam incondicionalmente o governo. Só reinam com os estados, se estes forem de oposição. Esse apoio é resultado das diversas ferramentas da cooptação: bajulações, promoções, verbas e o brado uníssono “Agora é nóis no poder!”

É um trágico fenômeno, parecido com a imprensa “a favor” que acompanhamos hoje no Brasil. Perde o sentido, assim como esses sindicados cooptados e subservientes. Sei de fonte interna sobre o sindicato de uma gigante estatal que hoje hiberna. Os líderes foram promovidos, e humildemente informam a plebe: Gente, o governo não poderá nos ajudar dessa vez. Tornaram-se facilitadores, justificadores da política do Estado.

O PT não é apenas incompetência e corrupção. É também esse aparelhamento das representações da sociedade. As negociações deram lugar a relações imorais, indecorosas e promíscuas. É preciso eleger a oposição em 2010 e colocar esses parasitas no seu devido lugar.

L

Ideli: esquecida na memória

In Comentário, Lucas on Setembro 13, 2007 at 11:06 am

Ideli Salvatti (PT-SC) teve papel de destaque na absolvição do senador Renan Calheiros. Ela bradou em defesa de Renan no plenário. Após a votação, assumia com firmeza sua posição para os jornalistas. Provavelmente ignorava a faixa territorial ao sul do Brasil que a elegera.

 

Lembro do dia das apurações dos votos, quando ela foi eleita. Meu pai e eu comemorávamos a queda dos Bornhausen. Acreditávamos que uma mulher, petista, seria garantia de ética e olhar atento ao lado social, haja vista o perfil político das mulheres. Haja vista o que representava a estrela do PT na lapela do candidato.

 

A legenda PT há tempos está politicamente acabada. A virtude ética do partido afundou devido aos casos de corrupção, corporativismo e incompetência administrativa. As mulheres petistas também perderam o respeito: a dança ridícula da impunidade, o relaxa e goza e agora esta senhora arrogante que compactua com a corrupção. São as filhas queridas que caíram na zona.

 

Não me fale em obrigações políticas. A única obrigação dessa senhora é com os catarinenses. Que votasse a favor de Renan, vá lá, era interesse do partido e é assim que a política funciona. Mas seus brados em favor de um corrupto feriram o orgulho catarinense. E o que mais dói, minha gente, é esse sentimento de traição. Ela saiu de sua irrelevância política para roubar um momento em família, feliz e de certa esperança, que eu guardava esquecido na memória.

 

Vai ter volta, minha senhora.

 

L

Era uma vez, companheiro.

In Comentário, Lucas on Setembro 4, 2007 at 10:44 pm

Com a condição de réu decretada aos 40 larápios do mensalão, acredita-se que o governo Lula acabou. Mesmo faltando 3 anos e pouco para entregar a faixa, a era petista está moralmente e politicamente acabada.

Sabendo disso, já está em pauta a eleição de 2010. Lula já admite entregar o poder a partidos alinhados com sua política. Traduzindo: desde que companheiros continuem em ONGs, estatais, sindicatos e demais poleiros do funcionalismo. Claro que essa condição conta com a premissa de que o próximo governo vai manter o auxílio a todos os atuais parasitas.

O interessante do quadro aparece se supormos uma vitória tucana em 2010. Especialmente com José Serra na presidência. Acredita-se que ele desmontaria o aparelhamento montado pelo PT. ONGs e sindicatos ficariam órfãos da verba oficial. Funcionários públicos perderiam o emprego. Empresas estatais deficitárias seriam privatizadas.

Não é nenhuma utopia: é um futuro absolutamente plausível. Imagine a revolta dessa classe que perderia a sua teta. Seria um primeiro ano de muitas manifestações. Enfrentaríamos certas crises devido aos conflitos provocados pelos inconformados e frustrados. Mas após colocar as coisas em ordem acordaríamos como um país mais forte, apenas lamentando os oito anos praticamente perdidos.

Agora, se José Serra (Aécio Neves?) terá essa força é outra história. A apatia atual da oposição é desalentadora. Mas não custa nada sonhar.   

L

Temor devido ao telhado de vidro

In Comentário, Lucas on Setembro 3, 2007 at 9:37 am

Renan Calheiros tem até quarta-feira para decidir se envia ao STF o pedido de votação secreta para o seu “julgamento”. A medida vem causando certa polêmica desnecessária. Não será preciso aqui, neste espaço, nenhum raciocínio intelectual para imaginar as situações, pois se necessitasse eu estaria impedido de fazê-lo. O cenário é cristalino e já se falou sobre isso diversas vezes. Seguem reproduções das hipóteses e soluções.

 O voto secreto é amplamente favorável a Renan. Ele sabe que muitos daqueles que o julgarão temem seu poder. Todos sabemos do rabo preso dos políticos. Mas Renan deve saber detalhes dos colegas para ser tão temido. Devido a sua rede de influência é que Renan ainda permanece na presidência do Senado.

Renan alega que o voto secreto permite que aquele que julga não sofra pressões e exerça seu direito sem interferências. Porém, é nessa surdina em que ele atua. É ali que ocorre a troca de favores. É por baixo do pano onde se manifesta toda sua influência. “Vote em meu favor e esquecemos aquela falcatrua”.

A solução é a oposição manifestar abertamente seu voto. Mesmo ocorrendo a votação secreta, nada impede um político de expor seu voto em voz alta. Assim, quem permanecer calado, terá votado por Renan. E quem votar contra Renan, mas permanecer calado, fará isso porque teme mais o réu do que os seus eleitores e a opinião pública.

Países como o Brasil, onde a corrupção é endêmica, precisam extinguir para sempre o voto secreto da política. Homens públicos não têm o direito de esconder suas opções. O voto aberto evita muita sujeira que a sociedade desconhece. Evitaria até episódios constrangedores como aquele da manipulação do placar eletrônico do Congresso: naquele mar de votos anônimos, quem perceberia uma alteração, desde que o total permanecesse correspondente ao número de votantes?

Justificando o começo desse texto: a polêmica é desnecessária porque é possível saber e cobrar o voto do seu representante, mesmo sendo o voto secreto. A omissão do parecer contra ou a favor acaba revelando indiretamente a intenção do voto. O problema reside nessa cobrança: a obrigação de saber a opinião de um político não pode ser estabelecida porque a lei exige. É uma questão de dever cívico e de transparência elementar ao exercício político.

L

Lentes da verdade e da inocência

In Comentário, Lucas on Agosto 28, 2007 at 4:22 pm

Um episódio interessante marcou o início do julgamento dos envolvidos no mensalão. Dois ministros do Supremo não prestavam muita atenção ao que acontecia na casa: Ricardo Lewandowski e Cármen Lúcia conversavam pelo MSN Messenger.

Quem percebeu foi um fotógrafo do jornal O Globo. Com sua câmera ele focou as telas e capturou os diálogos. Como define a última Veja, os dois juízes “dividiram impressões sobre a atuação do procurador, revelaram parte dos próprios votos, discutiram questões internas e fizeram futricas sobre colegas da corte”.

Ministros do STF e OAB saíram em defesa dos dois. Consideraram o zoom e os clicks abomináveis, invasão de privacidade. Mas internamente a situação foi constrangedora: colegas buscando satisfações e os dois envolvidos pensando em declarar “impedimento” no julgamento por estarem confabulando suas decisões.

Nada no caso é ilegal: os ministros não cometeram nenhum crime. O que faltou foi decoro. Eles compõem a elite da justiça, ocupando posições que exigem alta postura. E o fotógrafo? Utilizou seus recursos para registrar algo que acontecia em local público. Cumpriu o seu dever e não faltou com a ética em nenhum momento.  

***

Podemos traçar um paralelo entre o episódio e o esforço de Xuxa para impedir a divulgação do seu filme erótico, tanto no Youtube quanto nos camelôs. Foi sua primeira atuação no cinema e, ressalte-se, a melhor. Xuxa foi PAGA para contracenar com um menino diante das câmeras. É uma obra de entretenimento que fere apenas o orgulho da rainha dos baixinhos. Jurídica e constitucionalmente é legal.

Lição: pense nos seus atos agora enquanto você é um João-ninguém. Podem ser constrangedores se um dia você for famoso.

L

Uma lição de orgulho

In Comentário, Lucas on Agosto 24, 2007 at 4:58 pm

Há alguns dias o presidente da Philips Brasil, Paulo Zottolo, soltou uma declaração infeliz durante entrevista: “se o Piauí deixasse de existir, ninguém ficaria chateado com isso”. Já falamos neste espaço sobre o episódio. Mas ele merece mais algumas linhas por se tratar de tecla insistentemente batida por este escriba.

 

O Grupo Claudino, grande rede de lojas de eletrodomésticos e quinto maior comprador da Philips no Brasil, ordenou o recolhimento de produtos da empresa de suas prateleiras. Desconheço as conseqüências do embargo, mas imagino a aprovação dos consumidores piauienses que estavam com o orgulho ferido.

 

E aqui alcançamos mais uma vez o ponto pretendido: que orgulho? Tudo bem que todos possuem uma história, uma identificação com a terra natal. Mas é preciso também refletir quando criticado, e não apenas fazer a costumeira gritaria exaltando as belezas naturais do seu chão.  

 

O Piauí, com esse orgulho cego, perde uma grande oportunidade de reflexão: “Quem sabe somos realmente pouco significantes”. E são, é fato. Qualquer manual barato de auto-ajuda diria: utilize as criticas de forma construtiva. Exemplo: se alguém chamar você de inútil você chora, grita ou reflete? Eu choro ou grito, mas também reflito.

 

Porém já sabemos o que vai acontecer: a Philips já pediu desculpas. Assim que a poeira baixar, o comercio de televisores volta ao normal. E os piauienses, com a reconquista da honra, voltam a passar fome no anonimato.  

L

Coincidência Macabra

In Comentário, Lucas on Agosto 24, 2007 at 12:55 am

Aproximadamente 25 presos foram queimados vivos hoje, na cidade de Ponte Nova (MG). Os mortos eram rivais dos presos que se rebelaram. Eles atearam fogo nos colchões e impediram os desafetos de sair da cela. O presídio (grande novidade) estava superlotado, com o dobro de detentos da capacidade máxima.

Essa semana o governo anunciou mais um pacote, chamado de “PAC da Segurança”. Lula promete investir R$ 6 bilhões na área em 5 anos. Mas não se assustem: a cifra é menor que o orçamento de Segurança anual do estado de São Paulo. O nome PAC é a propaganda: assim como os Bolsa-esmolas, agora os PACs também admiram os incautos.

Esse PAC irrisório não vai solucionar o velho problema carcerário do país. Lula prometeu 5 presídios federais. Entregou um. Esse PAC acrescenta 8 aos 4 que faltam!  

É bastante provável que este assunto seja abordado com seriedade apenas quando acontecer algo semelhante ao acidente de Congonhas. Já eram 160 mortos no acidente da Gol na Amazônia e nada foi feito. Dez meses depois, o caos reinando nos aeroportos, 200 queimaram ao lado da pista e, daí sim, desencadearam a busca por soluções.

Assim que a opinião pública ficar estarrecida como ficou no acidente da TAM, o governo tomará providências. Mas 25 bandidos queimados é pouco. Fossem 200 inocentes quem sabe teríamos alguma esperança. Logo ouviremos Lula dizer: “Honestamente eu não sabia. Nunca imaginei que essa crise do sistema carcerário fosse tão grave”.

L

And now, live from jail… The Hernandes!

In Comentário, Lucas on Agosto 23, 2007 at 11:24 pm

Segue nota de esclarecimento do portal da Igreja Renascer:

NOTA OFICIAL DE ESCLARECIMENTO – APÓSTOLO E BISPA

“Diante da decisão final da Justiça americana, a Igreja Apostólica Renascer em Cristo, através do seu corpo diretivo, reafirma sua fé com a certeza no coração de que dias melhores estão por vir. Nós continuamos orando, cumprindo o nosso chamado, assistindo ao próximo com amor, combatendo o bom combate. Nós oramos por nosso Apóstolo e nossa Bispa, sabedores de que, cumprida a sentença, estarão de volta para prosseguirmos juntos na missão que Deus nos confiou. Eles sabem que, até seu retorno, seus filhos, seu povo, seu rebanho continuam seguindo os caminhos que nos ensinaram. Nós continuamos de pé. A Renascer vive.Agradecemos, neste momento difícil por que estamos passando, a solidariedade que recebemos de nossos fiéis; a solidariedade de tanta gente de Deus, nossos irmãos que, mesmo sem fazer parte da Renascer, estão declaradamente ao nosso lado.E neste domingo, dia 19, o Apóstolo Estevam e a Bispa Sonia estarão ministrando nos cultos de celebração da família às 10, 15, 17 e 19 horas diretamente dos Estados Unidos.Vamos permanecer unidos pela graça e no poder do nosso Senhor Jesus, porque estamos certos que a espera jamais vai matar a esperança”.

São Paulo, 17 de agosto de 2007

Igreja Apostólica Renascer em Cristo

http://www.portalrenascer.com.br/ 

*

É difícil compreender uma nota como essa. Reparem no primeiro parágrafo, composto por frases vagas. Chamar esse texto de nota de esclarecimento é uma piada. Ou então “a Igreja Apostólica Renascer em Cristo, através do seu corpo diretivo, reafirma sua fé com a certeza no coração de que dias melhores estão por vir” significa que o corpo diretivo (?) acredita que os dias serão melhores com o casal no xilindró? É a única maneira da nota esclarecer alguma coisa.

Mas é obvio que não. Na seqüência eles afirmam que: “sabedores de que, cumprida a sentença, estarão de volta para prosseguirmos juntos na missão que Deus nos confiou”. Que nobre missão seria? Enriquecer em troca de apoio espiritual? A prestação de serviços santos que gera fortuna? Desconheço essa missão. No momento impossibilitados de sair dos EUA, a “missão” do casal é cumprida através de webcams.

 

Poderia passar a madrugada criticando o conteúdo do site. Mas é perda de tempo. Tentar convencer os fiéis a perceber a pilantragem que apóiam é impossível. Assim como o amor, a fé também é cega. Fornecer-lhes argumentos é tratar burro a pão-de-ló.

 

Em tempo: que diferença faz uma Justiça eficiente… Fosse no Brasil o casal de picaretas estaria pregando livre nos altares.

L

Os fiéis do rebanho

In Comentário, Lucas on Agosto 23, 2007 at 10:38 pm

Os líderes da Igreja Renascer, Sonia e Estevam Hernandes, foram condenados pela justiça americana a dez meses de reclusão mais quatorze meses de condicional. O casal fez um acordo com a justiça, admitiu a culpa, e teve uma pena mais branda. Relembrando: eles foram pegos em janeiro entrando nos EUA com 50 e poucos mil dólares não declarados.  

A bispa e o apóstolo (denominação que eles inventaram e adotaram como prenome) levavam uma vida de luxo no Brasil. Seu filho mais velho possuía uma coleção de carros importados. A madame colecionava jóias e já teve, com o maridão, uma fazenda com 259 cavalos de raça. Eles adoram liderar rebanhos.

Seu rebanho de fiéis, porém, está diminuindo. Só em 2007, a igreja Renascer já fechou 400 templos e perdeu 60% da arrecadação, segundo a revista Veja. Infelizmente ainda existem cerca de 800 altares na ativa. E o mais triste é que poucos fiéis percebem o nível de picaretagem dessa laia de líderes. Explica-se: essas igrejas neopentecostais afirmam que a graça divina se reflete na riqueza material. Sendo assim fica fácil explicar aos fiéis a vida luxuosa e os bolsos cheios de dólares. Basta muita fé e muita oração. E os humildes fiéis seguem rezando, colaborando com a igreja, aguardando a graça prometida.

L   

O “Cansei”, a Philips e um Gigante

In Comentário, Lucas on Agosto 17, 2007 at 11:53 am

A Philips do Brasil declarou oficialmente apoio ao movimento “Cansei”. O “Cansei” é um movimento independente - não possui suporte político. É formado por cidadãos de classe média, empresas e até entidades públicas insatisfeitas com o lulo-petismo.

O governo e seus seguidores acusam o movimento de golpista. Lula afirma que se trata de um movimento burguês, de riquinhos mimados reclamando de barriga cheia.Essa tentativa de desqualificar o movimento já era esperada. Mas a situação governista e seus milhões de apadrinhados e simpatizantes (universidades, sindicatos, ONGs, boa parte do funcionalismo público) apelam para a desqualificação desses “protestantes”. Voltemos ao caso da Philips. 

O presidente da Philips Brasil, Paulo Zottolo, é vítima da perseguição dos aliados. O primeiro motivo foi o apoio da empresa ao “Cansei”. Não se conformaram ao ver uma empresa privada ser abertamente a favor de um movimento de protesto contra o governo. Em seguida, Zottolo afirmou o seguinte: Não se pode pensar que o país é um Piauí, no sentido de que tanto faz quanto tanto fez. Se o Piauí deixar de existir ninguém vai ficar chateado“. Imaginem a confusão. Mais um motivo para condenar Zottolo. Apesar de sabermos, todos, da insignificância do Piauí no cenário político e econômico do Brasil. Até mesmo este ignorado escriba já citou o miserável estado mais de uma vez.   

O governador deste gigante, o petista Weelington Dias, destacou em nota as riquezas naturais do Piauí. Atacou o capitalismo. E convidou Zottolo a visitar o estado. O governador omite apenas um detalhe na nota: seu estado é o segundo mais pobre do país. Já foi o primeiro, mas permitiu a ultrapassagem do Maranhão.

Em entrevista ao Estadão, Zottolo afirma que é xingado de todos os lados. O mais grave, porém, foi o cancelamento de uma reunião marcada com a Ministra Dilma Rousseff. Nesse encontro, apresentaria um fogão para carentes, um projeto de construção de uma fábrica para produção de lâmpadas econômicas e outro projeto sobre conversores para a TV digital. Dilma alegou uma forte gripe e desmarcou o encontro para sempre. Uma represália evidente.

Vejam a solução encontrada pelo governo: ignorar esse monstro capitalista que é a Philips, mesmo sendo notória empresa de engajamento social independente. O PT prefere investir em ONGs: lá estão pessoas de confiança, comunistas enrustidos sem fins lucrativos. A diferença é que a Philips planejava uma parceria para oferecer fogões a 5 dólares aos miseráveis. E os funcionários da empresa seriam pagos, obviamente, pela empresa. Já a ONG, o que tem a oferecer aos miseráveis do Piauí e do Maranhão? Uma cartilha socialista? Engajamento político? Proselitismo do ufanismo? E quem paga os funcionários das ONGs? Quase sempre eu, você, o estado paternalista.

E os miseráveis que se contentem com as bolsas-esmola do governo. Continuarão cozinhando em fogão a lenha. Essa é a política social do Brasil.   

L

Falsas promessas

In Comentário, Lucas on Agosto 15, 2007 at 10:52 pm

O que falar sobre as promessas? Um contrato verbal, muitas vezes de conteúdo moral, religioso. Eu, por exemplo: prometi ser comedido nesse blog. Ter cuidado com os comentários para poder divulgá-lo. Caso contrário este redator, temendo juízos do seu caráter, manteria o blog nas profundezas obscuras da rede.
Promessas nascem em determinado contexto. Resultam de uma idéia, de um humor, de um estado de espírito perene. Exemplo: certo dia prometi ser comedido nesse espaço. Mas o que fazer se, em determinado momento, essas palavras são a transcrição daquilo que pensamos e especialmente do que sentimos? E é dessa maneira meio afobada, precipitada, que você pode ser facilmente considerado constrangedor, herético, patético, etc.
É preciso ter cuidado com promessas. Em certo ponto mantive a original, de ser comedido e censurar, ou melhor, filtrar opiniões e conclusões. Faço isso apagando posts constantemente. Textos que nascem e desaparecem em função do humor, do clima, da posição dos astros, sei lá. Geralmente são prematuros, paridos antes do tempo. E nem sempre resistem, nem sempre suportam ser analisados pelo prisma da razão e da lógica, que surge com o tempo.  
Textos breves, vítimas inocentes das promessas. Deveriam ser abortados quando embriões, mas resistem e vêem à luz. Não sabem que, por garantia, minhas promessas são sempre feitas com os dedos cruzados.

L

Reflexões tardias – Parte 2

In Comentário, Lucas on Julho 31, 2007 at 12:58 am

As declarações do presidente Lula, em rede nacional, sobre o acidente em Congonhas, atingiram as expectativas: nada relevante. Porém, uma medida importante foi posteriormente anunciada: a nomeação de Nelson Jobim para o ministério da Defesa.
Jobim entrou solando. Considera a Anac ineficaz e o ex-ministro da Defesa, Waldir Pires, ineficiente. Analistas já especulam sobre a razão das firmes atitudes de Jobim: ele almejaria a presidência da república.
Nelson Jobim é amigo de Lula, Serra e FHC. Já foi ministro do Supremo e ministro do FHC. E hoje sabe que o brasileiro sente a ausência de um pulso forte (Lula demorou 3 dias para falar sobre a tragédia de Congonhas). Jobim acredita (especulação nossa) poder repetir o que FHC fez no governo Itamar: nomeado ministro da fazenda, controlou a inflação como mentor do plano real. Inflação que era o grande problema da época. A analogia é pertinente: se Jobim resolver a grande crise atual, a aérea, pode ganhar a imagem de homem forte e competente para a sucessão presidencial.
O que diferencia as situações, quase 15 anos depois, é o alcance da solução: o fim da crise aérea beneficiaria uma pequena fatia eleitoral: aqueles que viajam de avião. Já o plano real atingiu todo o país, pobres e ricos. O que Jobim espera é que, crise solucionada, o pobre, fiel da balança eleitoral, esteja solidarizado com a melhoria no transporte que ele jamais utilizou, e nem vislumbra usufruir.
Guardadas as situações e proporções, Nelson Jobim surge como o novo FHC. Se falhar, claro, esqueça tudo isso que andam dizendo. O deputado Fernando Gabeira, do PV do Rio, já alertou: é uma nomeação política. Jobim não entende nada de aviação.
E agora, o que pesa mais: conhecer o ambiente do problema ou aparentes bagos e muque?

L

Os canalhas compartilhando galinhas

In Comentário, Lucas on Julho 27, 2007 at 2:31 pm

O Brasil corre o risco de ficar em segundo no ranking de medalhas do Pan do Rio, desbancando Cuba. Méritos? Em partes sim. Porém, consta que o Brasil foi favorecido pelas deserções de atletas cubanos. Possíveis medalhistas fugiram dos alojamentos, almejando vida melhor no Brasil.

Não é novidade cubanos fujões. Isso acontece em toda competição internacional. Portanto não vale dizer: o Brasil é tão lindo que os cubanos não querem mais voltar. O que acontece é a repressão que sofrem no regime de Fidel Castro (que insiste em ficar vivo). Qualquer lugar é melhor que Cuba. Até se estivessem no Pan do Piauí.

Tanto canalhas notórios como outros inexpressivos vêem no socialismo cubano um modelo ideal. São os mesmos que aplaudem Hugo Chavez e Evo Morales. É uma farsa que desafia a lógica: vejam os oprimidos atletas que não querem voltar mais ao seu país. Não é questão ideológica. É fato, evidência.  

Mas os canalhas sempre encontram argumentos. Coisas como “é a ilusão do capitalismo, do consumismo que enfeitiça esses jovens desertores”. Quem não gosta duma coca-cola, um bom celular, uma TV a cabo e uma mocinha consumista?

Esses canalhas deveriam viver no meio do mato, amando cabritas e galináceas em regime comunitário. Ou será que eles preferem viver em Cuba?

Eu preferiria o mato. Ou o Piauí.

L

Vôo 3054 da TAM, parte 1

In Comentário, Lucas on Julho 20, 2007 at 2:04 am

Acabo de ler a melhor especulação sobre como aconteceu o desastre aéreo de terça passada. Após perceber que não conseguiria pousar, o comandante do vôo 3054 da TAM tentava ganhar velocidade na pista para arremeter (decolar novamente, dar uma volta e tentar pousar novamente). Quando disparou a potência total do avião (chamada potência de emergência) a turbina esquerda apagou. A Turbina direita permaneceu ligada, empurrando a aeronave para a esquerda, ocasionando a estranha trajetória que resultou no desastre.

 

Observando no Google Earth, percebe-se uma grande área de escape à direita da pista de Congonhas. Essa hipótese do apago da turbina esquerda explicaria o brusco desvio para o lado contrário. Não seria então uma manobra, e sim conseqüência da falha da turbina. O que fortalece a idéia é aquele flash na asa esquerda, que se percebe na imagem captada pelas câmeras do aeroporto, pouco antes do grande clarão da explosão fatal. Esse brilho de luz seria o momento em que a turbina esquerda apaga.

 

A dúvida que permanece é por que o piloto resolveu arremeter. Parte da resposta é obvia: ele estava muito rápido para efetuar o procedimento normal de pouso. Mas por que? Duas hipóteses: falha mecânica ou humana, ou falta de aderência da pista encharcada. Lula torce pela primeira: o acidente não seria diretamente relacionado à atual crise aérea. Será, será?

 

Apurou-se hoje que o reversor da turbina direita estaria com problema. Será (será?) a redenção do governo (acabou de passar, no Jornal da Globo, a lamentável comemoração dos petistas assim que ouviram essa notícia). Aguardo o pronunciamento do presidente que acontece amanha a tarde, daí especulo eu a respeito de tudo.

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Os mestiços e as vaias

In Comentário, Lucas on Julho 17, 2007 at 11:25 pm

O Pan do Rio ficará marcado pela sua abertura. Destaco dois pontos: um deles, as sonoras vais recebidas pelo presidente Lula. Outro, um assunto indiretamente abordado aqui há alguns dias: um certo orgulho nacional.

 

Seu nome foi citado sete vezes. Em todas o povo reagiu com estrondosos UUUUUs. Aconselhado por assessores, acabou desistindo de declarar o início dos jogos. No momento ficou revoltado, disse não temer vaias. Alguns dias depois afirmou, em seu programa de rádio, estar apenas triste.

 

Lula afirmou que se sentiu numa festa de um amigo, onde não era desejado por um grupo de convidados. Ele foi preciso: as festas que o presidente freqüenta, como solenidades no nordeste, são formadas por convidados especialmente selecionados. Geralmente miseráveis dependentes das esmolas do Estado. Quem é louco de vaiar aquele que banca?

 

O outro ponto é irritante. Aquela macaquice colorida no gramado do Maracanã, samba, Iemanjá, etc. Querem definir o brasileiro como esse mestiço feliz, cheio de crenças e folclores. Se é para definir o brasileiro, nada disso entra no estereótipo. Temos a enorme maioria da população formada por católicos e crentes. Poderiam tocar um hino gospel na abertura que seria mais pertinente.

 

Assim seguimos: a festa de abertura, que encheu o povo de orgulho, celebra um evento que consumiu dez vezes o dinheiro planejado para sua execução. A abertura, que pretende mostrar o ecumenismo da nação mestiça, faz esquecer um governo que pretende estabelecer cotas, determinando a raça do estudante em função da cor da sua pele. Não bastasse ser incoerente, essa classificação é um retrocesso enorme. Falaremos ainda sobre isso.

 

Nos redimimos com as vaias. Foi um protesto inocente, espontâneo. Mas pelo menos mostra ao mundo que nem todo brasileiro é apenas um mestiço ingênuo e faceiro.

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Ame-o ou deixe-o

In Comentário, Lucas on Julho 10, 2007 at 12:59 am

É deprimente o espetáculo montado na passagem da tocha do Pan pelas cidades brasileiras. Eventos folclóricos, foguetórios e muita comoção do povo. É inacreditável o civismo do cidadão brasileiro, mesmo habitando uma nação exploradora, que não lhe garante segurança, saúde, educação, etc.

Apesar de tudo, compreende-se. É o ufanismo da época da ditadura que permanece arraigado à nossa cultura. Compreende-se, especialmente, já que esse amor cego (e todo amor o é) não é exclusivo dos brasileiros. O que temos aqui é apenas um orgulho diferente dos demais. Explica-se:

Você pode ter orgulho da sua pátria se ela cuida bem de você. Não é nosso caso. Você pode ter orgulho da sua pátria se você se identifica com os demais patriotas. Também não é o caso. Eu, pelo menos, não tenho identificação nenhuma com hábitos, língua, credo ou cultura de um piauiense, digamos. Portanto, qual a grande coisa em sermos ambos brasileiros? Poderíamos ter nascido em qualquer lugar, estar na lama ou na pelúcia, que existiria o  orgulho do nosso chão. Ou você também canta “moruuu, num país tropical, abençoado por Deus…”.

Não é preconceito. É uma questão de lógica. Somos diferentes, pensamos diferente, não gostamos das mesmas coisas. As nossas diferenças são tão grandes quanto a distância que nos separa. Nosso único laço é uma triste coincidência: somos brasileiros.  

L

A ONG quer teta

In Comentário, Lucas on Julho 9, 2007 at 5:51 am

Primeiras linhas de matéria do Estadão de ontem:

O governo federal destinou R$ 3 bilhões a organizações não-governamentais (ONGs) e organizações da sociedade civil de interesse público (Oscips) no ano passado, segundo dados do Ministério do Planejamento. O valor corresponde a 1,29% do Produto Interno Bruto (PIB). Do total, técnicos do governo, do Tribunal de Contas da União (TCU) e da Controladoria-Geral da União (CGU) calculam que quase a metade – perto de R$ 1,5 bilhão – tenha sido desviada da finalidade original dos convênios ou encontrado algum ralo que represente a perda do dinheiro público.O problema é o seguinte: o nome Organização Não-Governamental pretende significar algo independente. Teoricamente é um grupo independente de governos e partidos. Mas não é o que acontece no Brasil. 

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As ONGs se profissionalizaram. Profissionais de diversas áreas atuam no setor, recebendo como salário fatias do bolo repassado pelo governo. Fica até difícil especificar quando esse dinheiro é legalmente pago: se a verba é para projetos sociais, como definir quanto um funcionário irá receber? Essa dificuldade acaba facilitando o quanto uma ONG pode embolsar da mesada que o estado manda.

Veja hoje qual é a função da ONG: intermediar o recurso público, fazer o meio de campo entre a grana e o carente. Não basta toda a máquina legislativa? As ONGs, que deveriam ser uma força independente de fiscalização social, hoje precisam ser fiscalizadas. Já deve até existir uma ONG que fiscaliza outras ONGs.

Daí alguém dirá: se as empresas e aqueles que detém o capital não são filantrópicos, as ONGs precisam do governo para sobreviver. Não é verdade. Essa é a questão distorcida. Essas ONGs nasceram como parasitas da verba pública. Sabem que só sobrevivem porque o governo banca. Ainda mais com a mãe chamada PT no comando. Um exemplo: existiam no Brasil 22 mil ONGs em 2002. Em 2006, 260 mil. É a teta.

Que sobrevivam as ONGs sérias e efetivas, se é que existem. Que o governo incentive empresas a investir na área de responsabilidade social. Dizem que a salvação do capitalismo está na filantropia. Mas, como de costume, essa idéia também é distorcida. Filantropo é o milionário querido, e não o governo de um país pobre, escasso de recursos, com mais de 260 mil bocas procurando uma tetinha. 

L

Guerra Santa

In Comentário, Lucas on Julho 4, 2007 at 7:08 am

Entrei no site da Igreja do Evangelho Quadrangular. Buscava informações sobre o caso citado no ultimo post. Esperava qualquer coisa – uma comparação bíblica, Caim e Abel quem sabe? Mas não achei nada. Dizem que a IEQ articula uma reaproximação entre os dois. Quem sabe um pedido público de desculpas, um abraço no altar, em frente ao púlpito. Típico.

 

Enfim, na página da Igreja, existe uma área de “notícias”. Uma delas me surpreendeu: “Padre é condenado a 16 anos por crime de pedofilia”. Está lá, na página principal! É a ultima notícia do www.quadrangular.com.br

 

É notório que os crentes não gostam dos católicos. Não sei se é recíproco. Lembro dos sermões, comparando a adoração a falsos deuses aos santos católicos. Mas colocar essa notícia no ar é provocação. Eu imagino quem monta esse site regozijando ao expor a desgraça alheia, do concorrente. A mensagem pode parecer indireta, mas é clara: veja o que os padres fazem!

 

E você, indignado, não compreende a intolerância entre Judeus e Palestinos?

 

Saiu hoje no site do Jornal da Tarde (mesmos donos do Estadão) uma matéria de algo semelhante. Um pastor evangélico teria forçado um adolescente a praticar preliminares do amor. Seria um post lindo se o missionário fosse da IEQ, mas não é. Logo abaixo, o link da matéria. Sugestão de pauta quente para o site de alguma paróquia.

http://www.jt.com.br/editorias/2007/07/04/ger-1.94.4.20070704.59.1.xml

L

Crônica de uma morte anunciada

In Comentário, Lucas on Julho 4, 2007 at 4:47 am

Em meio à crise que centraliza as atenções no Senado, um episódio curioso aconteceu na Câmara. O deputado Mario de Oliveira (PSC-MG) foi acusado de tentar matar o colega Carlos Willian (PTC-MG).

 

O que é curioso no episódio? Preste atenção no termo “colega”. Refere-se à condição de deputado dos dois. Mas eles são intimamente ligados. São mais que colegas, são grandes amigos, são “irmãos”: ambos são pastores da Igreja do Evangelho Quadrangular. É assim que o os crentes se cumprimentam: Paz, irmão! Tudo bem?

 

Não interessa aqui o que aconteceu entre eles, qual o plano de assassinato. E, se interessar, o link esta logo abaixo. A curiosidade citada no início do texto, o motivo dessas linhas, é essa instituição chamada IEQ. Um pastor tentando matar o outro por picuinhas políticas. Não falta mais nada.

 

Quando guri, acompanhei de perto, durante uns 5 anos, o que acontecia na IEQ da minha cidade. Milagres. Exorcismos. O circo completo. E nesse período, dois pastores passaram pela cidade. Um abandonou a igreja, ele e a família. O outro, não satisfeito, largou a bíblia e foi morar com outra mulher. Deixou pastora e filhos rezando. Parece tirado das páginas de Dalton Trevisan mas não é. Isso era a IEQ na minha época.

 

Mas pelo jeito aquele foi o período romântico. Hoje não se fala mais em adultério, ou trocar a esposa judiada por outra mais moça. Hoje o assunto na igreja é homicídio.

Veja de onde tiramos saudosismo em tempos difíceis. Boa noite, irmão.

 http://www.otempo.com.br/otempo/noticias/?IdNoticia=50519

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Em nome da conveniência

In Comentário, Lucas on Julho 2, 2007 at 7:37 pm

Há alguns dias, reorganizei este Blog. Apaguei comentários antigos e jurei comedimento nos seguintes. Tudo para torná-lo publicável.

Pensando sobre: possuímos um forte mecanismo de auto-censura. É claro que o homem, para viver e conviver, precisa ser comedido. Mas esse controle do que se faz ou fala não é nenhuma novidade. E esse freio dos atos e idéias se impõe sobre um suposto direito: a liberdade.

Clamamos por liberdade de opinião e expressão, mas quando possuímos, não podemos usufruí-la totalmente. É mentira aquilo que a professora dizia na escola, que a sua liberdade termina onde a do outro começa. Sua liberdade termina apenas quando você resolver que.

Nem sei qual o motivo de falar sobre isso. Talvez apenas para justificar mais uma vez a faxina que fiz neste espaço. Dilemas do passado que se repetem no presente: eu estava afim de escrever uma coisa, mas deixemos quieto. Em nome da convivência.

L

Ilustre Desconhecido

In Comentário, Lucas on Junho 27, 2007 at 8:26 pm

Morreu hoje um grande poeta, pensador e tradutor brasileiro: Bruno Tolentino. Você nunca ouviu falar dele? Eu também não. Li a nota póstuma hoje e resolvi me informar a seu respeito.

 

Após 30 anos auto-exilado na Europa, ele retornou ao Brasil, meados dos anos 90. Abandonou seu país e a sua língua: parou de escrever em português. Publicou livros em inglês e francês, os quais foram reconhecidos pelos meios literários do velho mundo. Conheceu lendas como Samuel Becket; lecionou em Oxford; engravidou mulheres descendentes de famosos poeta e filósofo. Seria puro capricho? Talvez sonhava manter a linhagem intelectual da família.

 

Pode parecer a biografia de um homem arrogante, orgulhoso da sua cultura e de suas raízes (favor não confundir com ufanismo). Talvez até seja. O que nos (ou me) resta é a inveja. O homem chamou os irmãos Campos de “péssimos escritores e péssimos tradutores” em fantástica entrevista concedida à Veja, em 1996. Para tanto, ele cita um erro grave em uma tradução do poeta alemão Rilke (do qual o rapaz engravidou uma descendente).

 

Não é minha intenção reproduzir essa biografia encantadora. As informações estão todas nos links abaixo. Poemas perdidos se encontram facilmente no google. O que esse texto pretende refletir é como um homem alcança um orgulho legítimo ao longo da vida. Imagino diversas possibilidades, mas só afirmo uma: o conhecimento adquirido. E quando esse conhecimento é literário, lingüístico, o homem parece conquistar o mundo. Falar e ser ouvido. Ser respeitado. Saber tanto ao ponto de ser quase impossível correr o risco de ser pedante. Poder desprezar o mundo sem medo de ser calado.

 

Segundo declarações e depoimentos sobre Bruno, sua bagagem literária e lingüística encheria um contêiner. Assim justifico a inveja: a minha cabe numa pochete.

 

http://veja.abril.com.br/blogs/reinaldo/

http://www.erealizacoes.com.br/poema/secxx.htm

Ideal para a gente

In Comentário, Lucas on Junho 26, 2007 at 10:26 pm

Num outdoor, meia quadra do meu prédio, vi a melhor propaganda de todos os tempos. O trocadilho mais feliz. O anúncio perfeito. Algo assim: Motel Você que Sabe (bom também, não é?). Suítes a partir de R$ 49,90. E, no alto da placa, em letras garrafais: IDEAL PARA QUEM ESTÁ DURO.

 

Todos os publicitários de criação deveriam passar por ali e acender uma vela. O cara que inventou essa frase é um mito. Talvez essa analogia entre o duro de grana e a ereção não seja original. Mas não influiria no brilho da peça. É assim que uma marca conquista o consumidor, o cliente, qualquer pessoa.

 

Alguém já ouviu falar em mensagem subliminar? Que a propaganda atuaria no inconsciente? Bobagem. Propaganda eficiente atua no consciente, através da ironia, do humor, e especialmente da honestidade.

 

E quem não gostou do anúncio, que vá ca gar na ca sa do Pe drrri nho.

 

L

A feia e a fera

In Comentário, Lucas on Maio 19, 2007 at 1:14 am

Falei há alguns dias sobre o voto esculhambado. Citei o falecido Enéas e o vivo Clodovil. A figura excêntrica de outrora, famosos barba e bordão do horário eleitoral, teve passagem apagada pelo congresso. Era esperado. Já o estilista…

Semana passada, Clodovil xingou uma colega da câmara. Falou que a deputada era tão feia que não servia nem para ser puta. Ela chorou, e ele repetiu candidamente para os jornalistas que não tinha culpa por ela ser feia.

Até aí tudo bem, já era esperado, o rapaz é famoso por suas extravagâncias. O lamentável do fato foi ver a imprensa lamentando a atitude, afirmando que ele decepcionou o povo que ele representa. Quanta hipocrisia.

Diz que quem ficou louco foram os gays, após afirmações de Clodovil como essa que ele largou há alguns dias: que hoje em dia a mulher descansa de pé e trabalha deitada. Seria ele um veado machista?

É tudo tão descabido, e a imprensa lamenta. Lamentamos quando nos decepcionamos – não creio que a imprensa esteja desapontada com o que o rapaz disse. Era visto, era esperado.

Azar do seu eleitorado, formado por donas de casas e grupos coloridos. Não sei quem é mais burro: aquelas ignorantes que habitam os grotões das cozinhas ou aqueles que acreditavam ter um político representante da classe. Pelo jeito a briga é boa e parelha.

L

Conforme passa o tempo

In Comentário, Lucas on Maio 12, 2007 at 1:45 am

Alguém ouviu falar na morte do saudoso Enéas Ferreira Carneiro? Morreu domingo passado, aos 68 anos, de leucemia. Um dos mais célebres políticos do país e ninguém falou nada. É simplesmente o fim de uma era.

Quantos de nós, da mocidade, quando crianças, não acompanhávamos a figura barbuda do horário eleitoral? Quem, quando guri, não berrou “meu nome é Enéééiiias” na escola? E o que nos resta hoje? Algumas notinhas póstumas.

Enéas obteve votação histórica nas ultimas eleições. Ele e o Clodovil foram aqueles eleitos através do voto avacalhado. “Deputado federal? Sei lá. Vou votar no figura.”

Essa é uma grande desvantagem de ser novo. Quantas pessoas marcantes ainda perderemos. Quantos cortejos seguiremos. Quanto ainda lamentaremos a impiedade do tempo. São questões retóricas difíceis de mensurar. Só lamento o descaso da mídia e do povo em relação à morte do Enéas. Quero o falecido na capa da próxima Veja. Quero um Globo Repórter inteiramente dedicado a ele. Quero mulheres e bebida à vontade.  

L

Você não é o único

In Comentário, Lucas on Abril 16, 2007 at 11:19 pm

Lia eu algo sobre a importância que as mulheres dão aos cabelos lisos. O texto tratava dos alisamentos, da utilização ilegal de formol para desfazer os cachos, etc. Não vem muito ao caso o assunto. Especificamente não.

 

Foi entrevistado um grupo de mulheres, e a partir das respostas, ficou definido que tanto por cento delas prefere isso, tanto por cento pensa isso e aquilo. Enfim, entre, digamos, mil mulheres, é possível saber o que todas pensam, querem, sentem, desejam.

 

Infelizmente isso não é característico apenas ao lado feminino. Somos todos, machos ou fêmeas, seres extremamente previsíveis. Assustadoramente semelhantes.

 

Vejam as pesquisas: um grupo de pessoas é suficiente para determinar o pensamento de toda a nação. E não se trata apenas de assuntos e questões em que a massa sofre algum tipo de influência, como política, por exemplo. Somos previsíveis e parecidos até nos sentimentos, do índio ao hippie, do colono ao motorista, tanto faz.

 

Chega a ser triste, melancólico. A bíblia diz que uma alma vale mais que o mundo todo. Você não é religioso? Ok, e sua mãe que dizia que você é único, especial? Não é mesmo. Num grupo de mil, dez mil, cem mil com alguma sorte, existirá alguém igual a você. Tão sem graça quanto. Tão substituível quanto.

 

Que conclusões tiramos nós de uma matéria sobre cabelos, madeixas alisadas na marra. E agora, o que será de nós sem as mulatinhas de cabelo ruim? Quantos de nós, num grupo de dez, não adoram uma negrinha bombril?   

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A Gravidez e a Gravidade

In Comentário, Lucas on Abril 11, 2007 at 9:46 pm

A ex-bela modelo Maria Beatriz Furtado, 30 anos, foi personagem de matéria recente da revista Veja. No ano passado, o ônibus em que ela viajava foi abordado por bandidos no Rio. Atearam fogo, 8 mortos e muitos feridos. Entre eles a moça, com 25% do corpo queimado.
Na reportagem da Veja ela aparece na penumbra, em uma bela foto que dá a entender a gravidade das queimaduras, sem expor as feridas. Ontem, porém, ela esteve no programa daquela mulher que deu para o Mick Jagger. Estava realmente feia, quase deformada.
Não ouvi o que ela falou na TV. Mas foi uma grande contradição: primeiro um quase sigilo de imagem na Veja. E depois a exposição, ao vivo, num programa sensacionalista.

O mais lamentável (e motivo destas linhas) foi, na reportagem da revista, uma afirmação da moça: “Não culpo os bandidos. A culpa é do Estado, que...” e por aí foi.
 

No dia do ocorrido, ela escapou por uma janela do ônibus. Na queda deve ter batido a cabeça no asfalto.

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Síntese Perfeita

In Comentário, Lucas on Abril 1, 2007 at 12:53 pm

Lembrava da primeira entrevista da mãe e do pai do guri João Hélio.

Ela chorava justiça, nada vai trazer nosso filho, bandidos e tal, não lembro bem. Minutos de lamentos. Justificados, claro. O pai permanecia calado, no mesmo sofá ao lado dela. Quando questionado, ele disse algo assim: “Você acorda no meio da noite, sentindo uma saudade insuportável”.

Tanto se falou na mídia sobre a barbárie. Mas alguém conseguiu falar mais do que falou a única frase do pai? Dali em diante não havia mais nada a ser dito. Não há.  

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