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Archive for the ‘Ficcional’ Category

Mais uma carta

In Ficcional, Lucas on Junho 26, 2008 at 2:12 am

Faz três dias que estou bebendo, mal dormi. Mas enfim criei coragem de escrever esta carta. Já vi que sem você eu vou morrer. Não é drama, é verdade. Ontem, quando você chegava em casa de carona com o cabo, fui eu que joguei a pedra no pára-brisa. Desculpa se te assustei, mas não me conformo em te perder para um milico. Andei vigiando a tua casa últimos dias. Você volta com ele de carona dia sim dia não. No que você entra em casa, retorno triste e geralmente paro em algum bar ou bordel. É triste admitir isso. E o pior é perceber que nos braços das putas é onde mais lembro de você. Não quero outra, tem que ser você. E eu já disse uma vez, agora repito: se não for minha, não será de ninguém. Muito menos do milico. Por você eu mato e morro.

Charles Bukowski e as crianças

In Ficcional, Lucas on Janeiro 31, 2008 at 11:33 pm

Quando crianças somos apresentados aos livros. Ler, segundo os pais e os professores, era fundamental. O problema que eles ignoravam era o conteúdo. A leitura (qualquer uma) deve trazer realmente benefícios para a fala e a escrita. Mas o importante, a mensagem, o conjunto, era ignorado. O importante naquela época era a atividade mecânica: simplesmente interpretar sinais ortográficos.

Conhecíamos belas histórias fantásticas. Quem dos alfabetizados não adorava a coleção vaga-lume? Aonde foram parar aqueles autores tão importantes e ao mesmo tempo tão descartáveis? Pobres fracassados condenados a desenvolver uma linha de texto simples, temporal, com começo, meio e fim e ainda com valores morais embutidos. Eram obrigados a escrever de maneira mecânica, padronizada, para leitores igualmente padronizados. Que cumplicidade incompetente nos unia. 

Escrevo até aqui para chegar ao homem deste texto. Até lá, mais uma lembrança daqueles tempos: quem (novamente me dirijo aos ligeiramente alfabetizados) foi introduzido à poesia ainda criança? “A poesia é o alimento da alma”, suspirou a professora. E os rapazolas, educados desde cedo na cultura machista, ficavam temerosos quanto aqueles versos românticos. Eu estava entre eles e me afastei da poesia, aquela estranha forma de expressão feminina, digamos.

Mas o tempo passou e eu superei essa pequena ojeriza por acaso. Um escritor me tirou do preconceito contra a poesia adquirido na infância e me apresentou o mundo dos versos: Charles Bukowski. Ele é um escritor de prosa medíocre (no sentido de mediano). Creio que por preguiça abandonou os contos e se dedicou à poesia. Célebre alcoólatra, Bukowski escrevia versos curtos, fáceis, preguiçosos. Carregados de um sentimento de abandono deliberado. Ele buscava o isolamento, desprezando a vida e se entregando à derrota, à indiferença. Fora um homem fisicamente horrível: do seu corpo brotavam enormes furúnculos que o afastaram de belas mulheres: convivia com prostitutas e vagabundos, apesar de evitar a companhia de conhecidos e fãs pedantes. 

Não creio que a vida regressa de Charles Bukowski tenha sido uma opção. Ele não tinha outro caminho; até teria, mas este que escolheu era fácil. O isolamento, o álcool, as mulheres igualmente fáceis. Até a prosa acredito que tenha abandonado por preguiça. O verso era curto, ágil, transmitia a este velho alcoólatra a sensação de produção, de criação artística. Sorte nossa! Sua prosa, apesar de divertida, é absolutamente descartável. Já os versos, mesmo simples como seu texto, são fascinantes. 

Alone With Everybody 

the flesh covers the bone
and they put a mind
in there and
sometimes a soul,
and the women break
vases against the walls
and the men drink too
much
and nobody finds the
one
but keep
looking
crawling in and out
of beds.
flesh covers
the bone and the
flesh searches
for more than
flesh.
there’s no chance
at all:
we are all trapped
by a singular
fate.

Na humilde tradução deste escriba:  Sozinho com todo mundo (ou melhor, Sozinho na multidão) 

A carne cobre o osso

e eles colocam uma mente lá dentro eas vezes uma alma 

e a mulher quebra vasos

contra as paredes

e o homem bebe de-

mais

e ninguém encontra a pessoa ideal *

mas continua procurando

deitando e pulando

de camas

carne cobre

o osso e a

carne procura

por mais que simplesmente

carne

não temos chance

alguma

estamos todos amarrados

por um único

destino. 

* Este “the one” não encontra tradução fácil em verso. Significa no inglês “aquele”, a pessoa que supostamente todos procuram. Numa tradução piegas escreveríamos “cara-metade”. 

Quem, na infância, entenderia a angústia de Bukowski? Ninguém, claro. Por isso, quem sabe, o trauma causado por aqueles poetas difíceis e chatos tenha preparado o terreno para conhecer Bukowski. Não é necessário nem prudente apresentá-lo às crianças. Mas enfim, é necessário vivência, derrotas, amarguras presentes e passadas para admirar a boa poesia: ela é simples, ela é direta, ela é sincera. Ela é quase infantil. Por pouco não caio na tentação da professora de fechar os olhos, suspirar e dizer que a poesia é, realmente, o alimento da alma.

Saudades do Vampiro

In Ficcional, Lucas on Dezembro 30, 2007 at 12:45 pm

Sabe aquela mulher das antigas, que você relembra num momento qualquer? Foi algo que você viu, ou algo que você comeu – nada explica de onde vem a reminiscência suave que trai a memória.

Alguém que você não vê há um bom tempo e, de repente, é presença viva. Da para sentir, quase tocar. Só é preciso um exercício de memória para voltar no tempo. E o inconsciente, injusto ou não, só nos tráz as belas recordações. As feias, tristes, secretas, essas são descartadas, inibidas. Não é por acaso que o tempo é o remédio para as mazelas do coração – a memória é que trabalha de acordo com o relógio. Passam as horas, os dias e nos casos mais graves passam os anos. Até você esquecer toda a tragédia e estar disposto a voltar, sem ressentimentos.

*** 

Hoje lembrei de Dalton Trevisan, minha bíblia das antigas. Li e reli a sua dúzia de obras-primas à exaustão. Tentava captar por osmose o estilo perfeito. Mas quem diria que a grande dádiva concedida pela obra do Vampiro afetaria os sentimentos, jamais a redação amadora. O texto do prematuro escriba permanecia frágil, mas suas noites de insônia, porém, tornavam-se habitadas por João, Maria e outros tantos homônimos e anônimos, a mais bela permutação que resulta em infinitas combinações de seres humanos iguais. E tão diferentes. 

Enfim, hoje recordei esse tempo. A sensação semelhante à lembrança repentina da antiga amante encontrou a analogia em Dalton: na cama, sem sono, segurando o livro, ou abraçando a amante, os olhos fixos na curvinha da nuca ou nas frases que expressam o coração, a luz ligada madrugada adentro ou a penumbra do quarto e a respiração serena da mulher. A companhia que facilita o sono do último insone de Curitiba: 

— Nunca mais seria a mesma. Chamaria você de nuvem, anjo, estrela.  O que alguém jamais disse a ninguém. Sabe, Maria?

 — …

— Você é a redonda lua verde do olho amarelo…

— Nossa, doutor.

…que, aos cinco anos, desenhei na capa do meu caderno escolar.

Mais uma vez no oeste

In Ficcional, Lucas on Dezembro 26, 2007 at 10:16 pm

São Miguel do Oeste, terra do marasmo e da tragédia

Que caminha com facilidade entre os opostos da vida

O sol que vira lua e a noite que vira dia

Longos dias de quietude

Tristes noites de desespero e ilusão

Na escuridão de um coração partido.

São Miguel do Oeste, que abriga a última virgem

Porém já desquitada e mãe de cinco (e não são os quíntuplos)

Terra do horizonte vermelho ao anoitecer

Que anuncia um próximo dia de sol e… marasmo!

Considerado por todos “tempo bom”, mas…

Mas o que de fato todos anseiam é a chuva que aponta no sul

Que escurece o céu e esconde da luz do dia nossa feiúra

E lava a imundície das ruas

E se mistura às lágrimas de um choro que o sol insiste em reprimir

Disfarçando o que sentimos

Para que o vizinho não perceba

Para que a vida passe como um belo dia ensolarado

Até termos assunto para a inédita fofoca:

sobre uma noite escura de aguardadas tragédias.  

L

In Ficcional, Lucas on Novembro 2, 2007 at 11:57 am

Estrela da razão

Escondida atrás da nuvem

Que se chama emoção

Quando a chuva parar

Preciso da tua luz

Pra compreender a solidão

Porque se a chuva não passar

A conseqüência eminente

É cair essa estrela cadente

Que se chama coração.

Decidido ou Afobado

In Ficcional, Lucas on Outubro 8, 2007 at 6:56 pm

Não deixo mais as coisas para amanhã

Aos poucos estou mudando

Por exemplo, te vi hoje pela manhã

E agora à noite já estou te amando.

Qualquer Caminho

In Ficcional, Lucas on Junho 26, 2007 at 10:43 pm

Talvez para você

Essas simples palavras

Pareçam insignificantes;

Não sabe o que é andar sozinho

Procurando por um caminho

Entre vogais e consoantes.

L

Cinco pra Uma

In Ficcional on Março 28, 2007 at 11:54 am

Sentado naquela cama de motel enquanto ela estava no banheiro, olhou para o relógio e lembrou do pai. Viu que era meia-noite e meia. Ansioso pela primeira noite com a nova namorada, conferiu as camisinhas no bolso e abriu uma bala, não se sabe para refrescar o hálito ou disfarçar o nervosismo. Ela era linda! À pergunta  sobre a demora, Wandinho respondeu que não estava incomodado. Ela, por sua vez, disse que a paciência dele seria muito bem recompensada.

 

Voltou a olhar no relógio e viu a si mesmo, com treze anos, naquela conversa que jamais esquecera. Tomou o relógio das outras mãos e com a ponta de uma faca fez mais um buraco na pulseira, para que pudesse afivelá-la em seu braço magrelo. Também guardou umas poucas palavras “Não se meta com mulher quinze para as três. Só com aquelas cinco pra uma”. Quase dez anos passados daquela tarde, esta frase ainda era um enigma. Nem mesmo antes de partir, o pai revelou seu segredo. Apenas sorriu pelo canto da boca e se entregou à cirrose.

 

Despertou-se de seus devaneios ao barulho um trinco de porta. Um Jamie Cullum ao fundo e ela caminha na sua direção, vestida em uma camisola de seda. O movimento lateral dos quadris acompanha a música, balançando o decote. Ele apenas confere novamente as camisinhas e quanto tempo ela levou para conseguir ficar ainda mais linda: vinte minutos. Aceita o convite para a dança. Aos beijos, ela vai desabotoando sua camisa, a calça e vira-se de costas para que ele possa deslizar a alça da camisola sobre seus ombros, que escorre pelas costas e hesita um pouco logo abaixo, mas é vencida pela gravidade. Ele namora o cabelo pelas costas e pára observando a calcinha. Esboça, de repente, o mesmo último sorriso de seu pai e com o indicador e polegar coça levemente os olhos. Já sem segurar o riso explosivo, negando qualquer explicação, pediu que ela se vestisse de volta e partiram.

Mais tarde, consigo mesmo, ainda esboçava alegria ao lembrar da explicação do fim do namoro: te acho muito grandinha pra usar fralda. Desse dia em diante passou a reparar em todos os andares pela rua, à procura da marca perfeita, fazendo jus ao seu batizado. Nosso Wandinho só escolhia as “cinco pra uma”.

Denner

A Cor do Ciúme

In Ficcional, Lucas on Março 21, 2007 at 10:40 pm

João sempre foi um rapaz de respeito. Durante o namoro, Maria rezava para que ele decidisse avançar as mãos sob o vestido. Mas do joelho não passava, alegando indecência. Casaria com uma moça pura, e a hora e o local seria a noite de núpcias, na fazenda do tio rico.

 

Maria esperou, já que João era homem honesto e trabalhador. No casamento, muita festa. Durante o churrasco, no pavilhão da igreja, Maria cumprimentava um primo quando foi abordada pelo marido. Agora você é moça casada ele disse, não pode mais andar faceira entre os machos. Ela insistiu que estava apenas conversando. Como resposta, violento beliscão no bracinho. Seria o primeiro de muitos hematomas. A cor do ciúme era rocha.

Na lua de mel, a ansiedade da noiva: doeu bastante, mais do que a irmã advertira. Assim que cumpriu a obrigação, João começou a insultá-la de mulher infiel. Maria lhe mostrava a prova, era imaculada, que visse o rubro lençol. João lembrava cenas antigas, um cumprimento de algum rapaz e a insistência da moça em adiantar a cama ao casamento. Cansado de discutir, João dormiu, enquanto Maria chorava baixinho, abafando o soluço no travesseiro.

De volta à cidade, o casamento mostrou-se o inferno para Maria. João cada dia mais ciumento. Chamou a esposa de cadela ao vê-la com os cotovelos escorados na janela, olhando a rua deserta. Não podia usar saia curta. Nem se desobedecesse, pois as coxas branquinhas malhadas de hematomas, tanto beliscão que levava. Se quisesse passear no centro, tinha que ir acompanhada da cunhada, pequena porém grande fofoqueira. João voltava mais cedo do serviço, as vezes saía à rua, contornava a quadra e voltava de surpresa, temendo encontrar a esposa nos braços do amante.

Certo dia João apareceu em casa com um carro vermelho, quatro portas. Cansado de ajudar o pai na firma, seria agora taxista. Gabava-se conhecer como ninguém a cidade. O ciúme não seria problema: instalou a esposa no banco do carona. Ao se aproximar um cliente, empurrava a cabeça da mulher para baixo, afim de que a pessoa não procurasse outro táxi. Ao entrar, tranqüilizava o cliente: que o amigo não reparasse, estava levando a mulher de carona até a casa da sogra. Ficasse a vontade no banco traseiro. Tocar para onde? 

Lucas